[Podcast] Popularium – Sangue e Fígado

Está no ar o mais um episódio do podcast que produzo para o Mundo Freak! Serão 10 episódios do Popularium publicados quinzenalmente, onde vamos abordar com profundidade mitos e lendas brasileiras. Neste programa, falamos sobre os papa figos. Homens ricos e poderosos, contaminados com uma terrível moléstia. A única cura possível: o sangue e o fígado de meninos sequestrados pelos homens do saco que os servem.

Confira o Popularium! Folclore brasileiro como você nunca ouviu.  Ouça aqui.

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Essa história não se passa em uma cidadezinha desconhecida, daquelas onde a luz elétrica ainda teima em não alcançar. Também não aconteceu em uma noite de lua cheia, não ocorreu com algum amigo de um amigo meu, e nem se deu em uma época muito, muito distante.

Não, essa história aconteceu no final da década de 70 no município de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, próximo da divisa com o Paraguai. Maria Oliveira ainda era menina, mas lembra como se fosse hoje de um acontecimento que botou a cidade em polvorosa. Repentinamente, crianças tanto do Brasil quanto do outro lado da fronteira começaram a desaparecer sem deixar rastros. Seus corpos, quando encontrados, apareciam largados em rios ou estradas.

A cidade entrou em toque de recolher, as famílias alertavam os filho, escolas cancelavam as aulas. No Paraguai, jornais e rádios alertavam para os perigos do que parecia ser o “mito camponês do Mitã Rerahaha”, termo Guarani que significa literalmente “aquele que leva crianças”, isto é, o velho do saco do folclore paraguaio.

Anos depois, com a abertura das investigações sobre a Operação Condor, a verdade começou a vir a tona. Os sequestros eram ordenados por ninguém menos que o próprio Alfredo Stroessner, o ditador que durante 35 anos comandou o país vizinho com mãos de ferro.

Até 2016, a Comissão da Verdade e Justiça já havia recebido 500 denúncias de desaparecimentos durante o regime Stroessner. As crianças, de preferência meninas virgens e bonitas, eram mantidas em cativeiro, estupradas e mortas. De acordo com Rogelro Goiburú, membro da Coordenação de Memória História e Reparação do Ministério da Justiça, Stroessner sequestrava e violava por mês pelo menos quatro meninas. Isso sem falar naquelas que se tornavam escravas sexuais de seus subordinados.

Como se não bastasse tamanha crueldade, o ex-motorista do ditador, Elvio Acosta, relata ter presenciado por diversas vezes um desfecho ainda mais macabro para os sequestrados. Como parte de um nada ortodoxo tratamento para sua doença de pele, Stroessner teria o costume de se banhar frequentemente com o sangue das crianças mortas.

O caso tem paralelos com outro relato que também ganhou ares de lenda no imaginário popular brasileiro: o Papa Figo. Um homem muito rico, mas que sofria com uma terrível doença que o condenava à morte. Para se manter vivo, ordenava o sequestro de crianças para que pudesse matá-las e devorar seu fígado – o órgão do corpo humano que sempre esteve ligado à regeneração.

Neste programa, vamos dissecar o imaginário popular, refletindo sobre o que ele evoca no simbólico. Assim, veremos que estes mitos e lendas, em última instância, não dizem sobre monstros encantados, mas sobre nós mesmos. Eu sou Andriolli Costa e este é o Popularium.

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Continue a ler este roteiro aqui.

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