[Podcast] Popularium – A Cor do Pastoreio

Está no ar o mais um episódio do podcast que produzo para o Mundo Freak! Serão 10 episódios do Popularium publicados quinzenalmente, onde vamos abordar com profundidade mitos e lendas brasileiras. Neste programa, vamos falar de racismo e os duendes negros: saci, romãozinho e negrinho do pastoreio.

Confira o Popularium! Folclore brasileiro como você nunca ouviu.  Ouça aqui.

Vitrine-3 

Por Andriolli Costa

Essa história não se passa em uma cidadezinha desconhecida, daquelas onde a luz elétrica ainda teima em não alcançar. Também não aconteceu em uma noite de lua cheia, não ocorreu com algum amigo de um amigo meu, e nem se deu em uma época muito, muito distante.

Não, essa história aconteceu no ano de 2014 na cidade de Teresina, capital do Piauí. Em sintonia com uma catarse de intolerância coletiva que se espalhou pelo país, um grupo de pretensos “cidadãos de bem” compartilhou na rede, com suporte da fanpage “Apoio Policial” um vídeo de um ato que não pode ser descrito de outra forma que não pura desumanidade.

Nele, um homem com as mãos e os pés amarrados, já com o rosto e os olhos inchados de tanto apanhar, é deixado sobre um formigueiro. Ele grita, diz que as picadas queimam, implora pela misericórdia divina. Os justiceiros não mostram piedade alguma. “Agora você lembra de Deus? E na hora de roubar?”, respondem as vozes fora do enquadramento da câmera.

O vídeo encerra deixando em aberto o destino do homem. Não sabemos por quanto tempo mais a atrocidade durou, e nem se o ladrão – que se tornou vítima – chegou a ser preso pelas autoridades competentes. Apesar da OAB local ter se manifestado contra o acontecimento, nenhuma nova notícia sobre o caso foi mencionada. A tortura e a humilhação pública, violência muito maior do que a cometida por qualquer ladrão de galinhas, permanece impune perante a justiça e os olhos de quem condena.

Ao direcionar o olhar sobre o universo folclórico brasileiro, é impossível não traçar um paralelo entre este acontecimento e uma lenda muito conhecida no Sul do País: a do Negrinho do Pastoreio. A história fala de um menino sem nome, filho de escravos, que é espancado quase até a morte por um estancieiro depois de perder uma tropilha de cavalos do patrão. Desfalecido, despido de força e dignidade, o negrinho é levado a mando do homem até a boca de um formigueiro e deixado lá para ser devorado pelos insetos. Para que não lhe reste nem os ossos sobre a terra.

Mais do que uma lenda, o Negrinho do Pastoreio é uma narrativa de dominação, violência e poder que não se limita a questão de classe, mas a questão da raça. Racismo e folclore podem caminhar muito próximos, seja em subtextos de resistência, seja nos de condescendência. Tudo depende do contador e principalmente do intérprete que se debruça sobre as histórias dos chamados “duendes negros”.

Neste programa, vamos dissecar o imaginário popular, refletindo sobre o que ele evoca no simbólico. Assim, veremos que estes mitos e lendas, em última instância, não dizem sobre monstros encantados, mas sobre nós mesmos. Eu sou Andriolli Costa e este é o Popularium.

 

Leia o roteiro aqui.

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