Gustavo Barroso – O Saci, o Sciápodo e o Troll

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Publicado por João do Norte*
No Correio Paulistano
Em 23/09/1921

* João do Norte era o pseudônimo de Gustavo Barroso, grande folclorista brasileiro.

Notas sobre Folclore

Em três escolas divide-se o estuda da novelística ou mitografia, que geralmente se chama folclore. A primeira é a mitológica, tendo à sua frente os irmãos Grimm, de Guernatis, Max Muller, Afanaslev, que procura explicar as manifestações semelhantes de todos os folclores como reminiscências religiosas e mitológicas dos povos de origem comum e os seus personagens como símbolos de fenômenos naturais, mitos solares ou lunares, etc.

A segunda é a histórica, chefiada por Kohler, Benfey, Gaston Paels, que nega essa significação mitológica e afirma a sua origem histórica asiática, sendo levadas as suas formas por meio dos viajantes, dos literatos, dos marinheiros, para os diversos países onde aparecem com ou sem transformações.

A terceira, mais moderna, é a antropológica, que se baseia no poligenismo, afirmando que os motivos folclorísticos, apesar de semelhantes, nasceram independentemente uns dos outros, que as mesmas condições produzem em lugares diversos as mesmas manifestações de arte popular, que essa similitude de contos e poesias surge de meras coincidências acidentais. E defendem essa escola Andrew Lang e Joseph Bedier.

Parece, no entanto, que a verdadeira escola seria aquela que adotasse os três critérios aqui sumariamente expostos na explicação das razões por que aparecem em povos os mais diversos as mesmas formas folclorísticas. Porque, com efeito, numas há, em verdade, símbolos das mitologias mortas, noutras origens históricas facilmente constatáveis e noutras meras coincidências eventuais.

Baseado ora numa, ou noutra das grandes escolas mitográficas europeias, portanto, e aplicando seus princípios ora aqui, ora ali, é que eu colho pelas minhas leituras afora as notas de folclore com que caceteio, uma vez por outra, os meus leitores.

O Sacy, o Sciápodo e o Troll

O Sacy Pererê do nosso interior é um molequinho cabeçudo, quase pelado, que anda pelo mato e pelos caminhos pulando numa perna só. Como o caipora ou corrupira do Norte, é uma espécie de senhor da mata e das rochas, dono dos lugares ermos e pistolão para os caçadores. A não ser na cor, lembra completamente os sciápodos, povo fabuloso de que nos fala Plínio.

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Sciápode na Catedral de Sens

Depois de ter lido na “História Natural” deste clássico a descrição do sciápodo, fiquei convencido de que era o saci branco. O seu nome vem de duas palavras gregas: skia – sombra e podos – pé. Pela descrição de Plínio; por um baixo relevo representando um deles que vi junto ao portal lateral da Catedral de Sens, na França, quando a visitei; por uma ilustração a seu respeito que encontrei folheando a velha “Crônica de Nuremberg” na Biblioteca Nacional de Paris, verifiquei que esses sciápodos em que criam os antigos eram indivíduos pequeninos que somente possuíam uma perna e um pé, este tão desmesurado que, quando o sol estava quente, os seus donos se deitavam de costas no chão e dele faziam guarda-sol. Andavam pelos desertos e pregavam peças aos viajantes. Uma única diferença, repito, os separa do Saci Pererê: a cor. Enquanto este é preto retinto, eles eram claros.

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Sciápode em Crônicas de Nuremberg

No folclore dos nossos sertões, há, além dos espíritos dominadores das terras e das caças. como o caipora e o saci, os que governam as águas, como as iaras ou mães d’água. Este fenômeno ocorre em todas as mitografias do mundo. Nós vamos constatá-lo até no extremo norte da Europa, na Escandinávia, segundo os estudos de Edmond Pilon (“Contes Anciens du Nord”, ilustrados por Kay Nielsen, edição de arte de H. Pihzza, Paris, tiragem limitada de 1500 exemplares numerados).

Esse autor verificou no norte europeu a existência de três ordens de criaturas maravilhosas, presidindo os fenômenos da natureza: da água, do ar e da terra. São os três espíritos que Lescure enumera na sua Histoire des Fées: o stromkarl, que vive na água; o gnomo, que existe no ar, e o troll, senhor dos bosques e dos rochedos.

Esse troll é, as vezes, um monstro horroroso e de formidável poder. De outras, não, surge como um pequeno anão esplégie e vadio, pulando, numa perna só, pelos caminhos além. Então, pode até certo ponto apresentar interessante semelhança com o nosso saci. Pontos de contato com este último possuem os endiabrados zotterais do Reno, de que nos fala Heinrich Heine.

Não creio que os sacis sejam netos dos trolls ou zotterais, nem bisnetos dos sciápodos. Constatando as similitudes que os unem, quero acreditar neste caso no valor das coincidências acidentais e aceitar o dogma da escola antropológica de que identicas condições geram iguais manifestações da imaginação popular.

A inclinação para criar o maravilhoso que Nader acha inata nos homens, é-lhes de tal modo necessária que, na Lapônia como na África, na Austrália como no sertão do Brasil, eles inventam desses espíritos para povoar com eles as águas, os ares, as florestas e as casas.

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