Campeã do carnaval de SP deu vida a mitos e lendas do Maranhão

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Por Andriolli Costa

A Acadêmicos do Tatuapé encontrou nos encantos do Maranhão o cenário para sua poesia. Cantando sua história, ecoando seus tambores e dando vida aos mitos e lendas da região, a Escola de Samba arrebatou o vice-campeonato no Carnaval de São Paulo em 2018 com o samba-enredo “Maranhão, os Tambores vão Ecoar na Terra da Encantaria“.

O terceiro carro alegórico a entrar na avenida, já quase as 4 da manhã no sábado (10/02) trazia o título Lendas do Maranhão e Patrimônio da Humanidade. Quem personificou essa figura da preta velha, contadora de lendas, foi Dona Lecy – a mãe da cantora e madrinha da escola, Leci Brandão, e que já está perto de completar 100 anos de idade e ainda assim desfilou como destaque.

Outra fantasia representava Ana Jansen, cruel dona de escravos da historiografia maranhense. Além de uma roupa composta por imagens de crânios sobre seus pés, Ana se prostrava em uma carruagem conduzida por um escravo decapitado e puxada por mulas sem cabeças. Ratos e árvores ressequidas envolviam a passagem dos personagens, dando a ver a podridão do sinistro cortejo.

Ao redor da alegoria, havia ainda o Touro Negro encantado, que é Dom Sebastião transformado, e uma representação da lenda da Praia do Olho D’água. Dizem que a Mãe d’água se apaixonou pelo filho de um cacique, e para isso se transformou em uma sereia para seduzi-lo e levá-lo para seu palácio embaixo d’água. Sua noiva ficou tão triste que chorou até que suas lágrimas formassem nascentes que até hoje correm para o mar.

O carro era circundado, por fim, pela Serpente Encantada, uma das lendas mais conhecidas do Maranhão. Dizem que quando o monstro crescer tanto que sua cabeça encontre com a cauda, a ilha de São Luis irá afundar.

No segundo módulo, a escola se inspirou na lenda do Palácio das Lágrimas para encher a avenida de mortos-vivos foliões. Conta o povo que o palácio era habitado por uma família que disputava entre si poder e dinheiro. O último a morrer enforcado lá o teria amaldiçoado dizendo: “Palácio que viste as lágrimas derramadas por minha mãe e meus irmãos. Daqui por diante serás conhecido como Palácio das Lágrimas”.

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Pesquisa

Contatada pelo Colecionador de Sacis, a assessoria de imprensa da Tatuapé informou que a ideia por trás do carro era “dar caminho a um conhecimento profundo sobre a cidade de São Luís, que se faz presente através de lendas”. Ainda que se fale em profundidade de conhecimento , entretanto, o glossário de pesquisa folclórica apresentado pela escola trouxe certos problemas que vale a pena apontar.

Vejamos por exemplo a seção dedicada ao Touro Encantado.

No município de Cururupu, em uma Ilha chamada de “Ilha dos Lençóis” mora um touro negro com uma estrela no meio da testa. O touro aparece sempre nas noites de sexta-feira.

Oras, o dia que o touro aparece é o de menos importante. Muito mais relevante é a informação de que o bovino é, na verdade, o Rei Sebastião que mora em seu castelo encantado – história inclusive imortalizada no poema de Ferreira Gullar. Da mesma maneira a seção dedicada à Praia dos Olhos D’água não fala da praia e da noiva de choro copioso, mas se encerra nos encantos da iara.

A impressão que fica é que a pesquisa para dar vida às lendas se limitou à superficialidade da aparência, e não ao conteúdo de cada narrativa folclórica.  Informações como essa fariam diferença? A primeira resposta poderia ser não, afinal a escola se sagrou campeã. No entanto, uma compreensão completa da singularidade de cada mito certamente poderia ter tornado o carro ainda mais único e fomentado novas ideias aos carnavalescos.

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