[Resenha] Contos Fantásticos do Folclore Brasileiro

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Por Andriolli Costa

Compartilho de duas grandes alegrias nestes 10 anos estudando Folclore e acompanhando com certa proximidade as produções artísticas que nele se inspiram. A primeira é que nunca, em toda essa década, vivemos um período tão prolífico para a ficção folclórica. Há trabalhos grandes surgindo nas editoras, iniciativas independentes que capitalizaram em campanhas de financiamento coletivo ou mesmo projetos amadores que ganharam espaço nos e-books da Amazon ou no Wattpad. Isso é ótimo, e algo que busco sempre incentivar dedicando a obra o devido espaço e atenção. Nisto chegamos à minha segunda grande alegria: ter construído no Colecionador de Sacis um ambiente onde a crítica pode ir além. Onde a abordagem do Folclore brasileiro não é mérito, mas condição.

Faço esta introdução para deixar claro que há valor em Contos Fantásticos do Folclore Brasileiro, de Junior Salvador. O principal deles é o simples fato do livro existir. Qualquer história publicada já está em vantagem em relação àquelas que nunca deixaram o mundo das ideias, e é preciso uma boa dose de coragem para levar a público nossas criações. Por outro lado, o livro também traz vários problemas. Que cada leitor possa utilizar os pontos aqui levantados para desenvolver seu próprio olhar crítico diante das obras. Com isso crescemos todos, e teremos sempre acesso a livros ainda mais incríveis.

O Livro

A coletânea é composta por seis contos inspirado no folclore brasileiro, com alguns personagens recorrentes ou simplesmente mencionados, ficando claro o desejo de um universo compartilhado entre as narrativas. No caso da Iara, personagem que aparece em dois contos, temos a impressão de que as temporalidades são diferentes – o que deixa um pouco confusa essa escolha. Temos a seguinte ordem:

Redemoinho de fogo: Um saci, chantageado pela Pisadeira, deve cortar um pedaço da crina da Mula sem Cabeça.

Chuvisco: Uma menina atacada pela Cuca é protegida pelo gato que dá nome ao conto, energizado pela força das cantigas populares.

O som da floresta: Graças ao ciúme de Comadre Fulozinha, Caipora ataca um grupo de caçadores. Cabe ao Curupira suportar seus ataques até que eles escapem.

O mar em uma noite de lua cheia: Uma iara que se tornou cantora de cruzeiro tenta seduzir um homem que revela ser o boto.

O caçador: Um homem atormentado pela perda da esposa persegue Jurupari pela cidade para dar cabo dele e de todos os seres mágicos.

Inácio Tagarela – Um novo mito brasileiro: Menino que não para de falar e está sempre com uma trovinha, ditado ou cantiga na ponta da língua é amaldiçoado pelo Bicho Papão a só falar com uma citação da literatura oral.

Pensei em vários adjetivos que pudessem me ajudar a descrever a experiência de ler Contos Fantásticos, e a mais honesta foi “regular”. Isso acaba não sendo um elogio, especialmente em um contexto onde tanta gente escreve e pública diariamente e é preciso sempre buscar algo mais para tornar a leitura única. No entanto, a palavra transmite bem a impressão de leitura.

Os contos tem sempre a mesma estrutura narrativa – um narrador em terceira pessoa que em nada nos desafia; os personagens são bem pouco marcantes e os diálogos, estes sim, são dignos de nota. Infelizmente pelo motivo errado. Todos são extremamente artificiais, desde a conjugação pronominal até a fluência das frases.

Outra coisa que passa batido é o título do livro. “Contos Fantásticos”. Embora seja verdade que existam várias coletâneas de narrativas curtas com esse mesmo título, elas são assinadas por Poe, Maupassant, Calvino e outros escritores que vendem mais pelo nome, e não tanto pelo livro. Para um escritor iniciante, um título mais marcante certamente teria muito a colaborar. O complemento “do folclore brasileiro” ajuda ao menos a dar peculiaridade ao livro. Além disso, os títulos dos contos, muitas vezes, parecem mais chamadas para capítulos: “O caçador”, “o som da floresta”. São insustentáveis sozinhos por serem tão apagados e genéricos.

A capa também não favorece. Se nas redes sociais ela traz um melhor equilíbrio de cores, na versão impressa a mula sem cabeça está tão mesclada com o fundo escuro que quase desaparece. Pesquisando a imagem, encontrei uma explicação do autor informando que a ideia era trazer o embate entre saci e mula apresentado no primeiro conto. Impossível saber. Primeiro pois neste conto o duende perneta perde a carapuça e ganha uma inútil prótese de metal (que em nada muda na narrativa). Segundo pois o título e as cores cobrem tanto a imagem que não se consegue perceber que uma perna é diferente da outra.

A prosa do texto me pareceu muito quadrada (na escolha de palavras e na forma) e repetitiva, o que torna alguns contos monótonos. A ação é martelada tantas e tantas vezes que você torce para a cuca matar logo o menino e acabar com isso, ou para que a Iara arranque o maldito chapéu do boto de uma vez. Por isso é tão frequente na contação de histórias o artifício da repetição em trinca. A primeira traz uma ação, a segunda estabelece uma regra e a terceira introduz a variação. Não é preciso mais.

Se isso fosse corrigido, boa parte dos problemas do livro seriam minimizados. Os contos seriam mais enxutos e a ação concentrada. Parece que muitas  vezes o autor tenta usar a repetição para criar tensão,mas quando isso se arrasta por várias páginas não há tensão, há enfado. Ignácio Tagarela é um conto com uma proposta muito interessante por trás, mas a ideia de que o garoto era uma metralhadora de ditados já havia sido atingida na metade da briga com o Bicho Papão. Isso faz o núcleo da narrativa perder força.

Outro detalhe é que quando a ação fala por si, um narrador explicar o ato é mais do que redundante. Senti isso em vários momentos, especialmente lendo reiteradamente sobre como a Comadre Fulozinha estava enciumada por ninguém lembrar dela.

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Caipora e Taîasu

Inconsistências

Há certa pesquisa para a escrita dos contos. A presença forte de cantigas foi um belo diferencial, que ainda não tinha visto em Fantasia. Gosto também da distinção entre Iara e Mãe D´água, algo que poucos separam. A proposta do novo mito é ousada, mas funciona: os meninos faladores que não quiserem ficar como Ignácio, o tagarela, devem obedecer aos pais. Perfeito.

Por outro lado há momentos em que a pesquisa desliza. Há muito implico com aqueles que tratam a versão de que a Iara era uma guerreira indígena invejada pelos irmãos como folclore. Não é, esta é uma história de ficção. A Iara do folclore nunca teve narrativa de origem e nem foi mito autóctone, e sim colonial. Ainda assim é perdoável. O que não se merece perdão, no entanto, é o boto narigudo.

No folclore, o boto homem utiliza sempre um chapéu para esconder seu respirador – o buraco que todo cetáceo traz no topo da cabeça. Muitas interpretações descuidadas e espalhadas sem reflexão pela internet confundem respirador com nariz. Assim, o chapéu seria utilizado para esconder não um buraco no crânio, mas um deformado nariz de delfim.

A menos que o chapéu em questão fosse um sombreiro mexicano, como um chapéu esconderia um nariz assim? E como um mito ligado à sedução poderia ter um rosto tão deformado? Infelizmente é este boto que encontramos no livro. Para uma coletânea que abre com um prefácio falando sobre a importância do trabalho de preservação e circulação do folclore, colaborar para espalhar um erro assim é mortal.

Outro problema grave é o deslocamento geográfico. Pode parecer picuinha, mas pensem só em como nos incomoda ver um filme gringo que mostra a floresta Amazônica ao lado do Rio de Janeiro. Quando nós é que fazemos este movimento, a história perde ainda mais força. Encontramos o ápice deste erro no conto O Som da Floresta. Na cena, Comadre Fulozinha desce do alto de uma samaúma e, irritada, joga uma garrafa de cachaça deixada para o Caipora sobre um coelho que passava na mata.

Oras, a Samaúma é uma árvore tropical, que cresce na Amazônia. A Comadre Fulozinha é mito da Zona da Mata nordestina. O coelho, por sua vez, certamente deve ser algum espírito dos mais poderosos, pois este animal simplesmente não existe na fauna brasileira. Coelho e Comadre estão igualmente deslocados. Cabe a insistência: escrever sobre folclore não é apenas retratar mitos e lendas, é transmitir um sentimento de brasilidade que transborda em todas as faces do conto.

Por fim, aponto também problemas quanto a inconsistência nas descrições. No primeiro conto, Saci está pendurado em sua garrafa há 3 dias por uma corrente de chaveiro (!). Busca evitar uma vela acesa que, quando chegasse ao final, faria o fogo se alastrar por toda a garrafa. Como isso aconteceria? Primeiro que uma vela acesa dentro de uma garrafa fechada consumiria todo o oxigênio e se apagaria rapidamente. Segundo pois nada justifica a queima final que tudo preencheria. Quando na primeira página do primeiro conto de um livro você já fica com uma interrogação na cabeça, isso pode prejudicar toda a experiência.

Outra descrição que me pareceu confusa demais foi na cena do ataque do Caipora com seu companheiro, o gigantesco Taîasu. Quando aparece, é descrito como tendo a aparência de um grande porco do mato, com pelos grandes e escuros. Durante o combate, o mostro ataca com um cauda de lagarto que não havia sido mencionada antes. Em outro momento, Caipora coloca a mão sobre a “armadura do animal” e de lá retira uma espada. A arma, por si só, já é questionável. Fica ainda mais incoerente pois em momento algum se fala que o Taîasu usava armadura de qualquer tipo.

Contos Fantásticos do Folclore Brasileiro é um livro bem-intencionado, mas que peca em várias escolhas e derrapa na revisão. Quem sabe uma próxima edição possa aprimorar esses detalhes?

Nota: 2,25/5

Gostou da resenha? Tire sua prova e compre o livro aqui.

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