Monteiro Lobato – Mitologia Brasílica: Inquérito sobre o Saci

28-01-1917 - CopiaPor Monteiro Lobato
No Estado de S. Paulo
Em 28/01/1917

O “Estadinho” inaugura hoje uma série de estudos em que todos são chamados a colaborar. Abre um inquérito, ou “enquete” como diz o Trianon na sua meia língua. Sobre o futuro presidente da República? Não, sobre o saci.

Todos os povos, do inúite da Groenlândia ao tuaregue berbere, do inglês ao chim, vivem com um pé na realidade e outro no sonho. Por força de uma necessidade incoercível eles se criam um ambiente fantástico de concepções suprassensíveis para repouso do prosaísmo diário.

Verdadeiro oásis onde a ânsia vaga de algo melhor põe tudo quanto o homem não encontra no deserto da vida, mas de que necessita para equilíbrio rítmico de sua alma. Assim a Grécia, para tomar um exemplo dentre mil, viu a imaginação dos seus filhos povoar os bosques de faunos e sátiros caprípedes, os campos de centauros, as águas de sereias, dríadas e ninfas, o ar de silfos, o céu de deuses: e essa mitologia, de criação puramente popular, foi a contribuição máxima que ao mundo legou a gente helênica.

Seus rapsodos, como seus escultores, nada mais fizeram senão fixar no poema ou no mármore as crendices que o marinheiro velho, tanado de sol, transmitia ao adolescente embarcadiço de primeira viagem, nas horas de folga, quando a galera abicava numa angra para repousar. E até hoje todos os povos modernos cultuam aqueles símbolos mortos apesar da nenhuma significação que eles têm fora do ambiente grego. Será assim pelo valor intrínseco próprio à crendice em si? Não. Reside o segredo de sua persistência, séculos em fora, na extrema beleza das formas sob as quais o artista grego a consolidou.

Disto se conclui que o povo é o grande criador, e que o artista tem por missão operar como o instrumento estético por meio do qual o povo dá corpo definitivo e harmônico aos seus ingênuos esboços.

Temos nós, no seio da massa popular, matéria-prima digna de ser plasmada pelas mãos da arte? Sim. Não tão abundante e rica como a tinha o grego, povo eleito da Harmonia; mas rica e abundante o suficiente para darmos ao mundo uma contribuição vultuosa de criações originais.

Basta que o nosso artista, se é um garimpeiro de talento, mergulhe no seio do povo e lá bateie na ganga rude o ouro da lei.

Se andam eles, hoje, vazios de ideias, e desorientados, é porque procedem de maneira exatamente inversa. Homero, Plotino, Fídias, Praxíteles, Aristófanes não se metiam no Trianon a pasmar diante da lépida Maria Antonieta masculina que ali nos inicia nos altos mistérios da alta goma. Nem iam todas as noites nhambiquaras em francês diante de uma garrafa de champanha, rodeados de várias bonnes a tout faire de Marselha, transfeitas em parisienses montmartrinas ad usum fazendeiros do Jaú em fim de safra.

Frequentavam o povo, conviviam com ele, impregnavam-se das suas crenças, ouvia-lhes as histórias; e sabiam dele cheios de ideias, de formas, de coragem, de inspiração.

Procedamos assim. A fonte de água pura é uma só, e a mesma, na Grécia, na França, na Rússia e no Brasil: o povo.

***

Das nossas criações populares a mais original é o Saci-pererê. Vem do autóctone que lhe deu o nome atual, corruptela de Çaa cy perereg. Sofreu o influxo do africano, passando de caboclinho a molecote. Modificou-se por injunção da psíquica portuguesa. O mestiço meteu nele muita coisa de seu.

Acabará ainda sofrendo a influência do italiano, talvez… E destarte, sempre vivo, evoluindo sempre, o Saci que povoou de sonhos a filharada de Tomé de Sousa chegou até nós; e apesar do automóvel e do senhor Vicente Rosatti, inda convive com as nossas crianças nas cidades e com o sertanejo na roça.

Não há menino que em dia de vento não arregale o olho para um redemoinho de poeira e não ‘veja’ nele, com os olhos da sugestão, o moleque de uma perna só. Como não há tropeiro que ao pegar um animal no pasto, vendo-lhe a crina entrançada e uma sugadela de morcego no pescoço, não murmure entre colérico e apreensivo:

– Dianho de negrinho safado! Eu ainda acabo botando um bentinho nesta égua.

Esta persistência denota que o duendezinho representa uma necessidade psicológica, talvez a de explicar inúmeros fenômenos cujas causas naturais escapam à compreensão do homem inculto.

Filho da imaginação coletiva, o Saci é uma resultante psíquica do nosso povo. É digno de estudo como todas as suas outras manifestações originais.

Estudemo-lo, pois.

Aos frívolos parecerá frívolo, e até pilhérico, dar atenção ao Saci e consagrar a esse moleque um tempo precioso que podia ser consumido em dissertações sobre o caso Dantas-Borba.

Se valesse a pena argumentar com um frívolo, dir-lhe-íamos que todas as manifestações da psíquica coletiva de um povo têm igual valor perante a ciência; e é estudando tais manifestações que poderemos conhecer o povo; que o conhecimento traz a compreensão, e a compreensão traz
o amor; que…

Mas que tolice! O frívolo que vá fazer goma alta no Trianon, ou quedar em atitude de bonzo diante de uma Pommery como se dentro da zurrapa temperada no Bom Retiro estivesse, em dissolução gasosa, o Fim Último das Coisas. E que lá impe de Luís XVI à paisana com as peninhas da tanga só visíveis a quem tenha olhos armados de raios

X. E que apodreça de chic sob o olho esperto de Maria Antonieta. Sua alma, sua palma.

Façamos nós outros a arte sadia, e façamos ciência sem o perceber.

O Estadinho abre suas colunas para esta investigação e pede aos seus leitores um depoimento honesto:

1º) sobre a sua concepção pessoal do Saci; como a recebeu na sua infância; de quem a recebeu; que papel representou tal crendice na sua vida etc.;
2º) qual a forma atual da crendice na zona em que reside;
3º) que histórias e casos interessantes, ‘passados ou ouvidos’, sabe a respeito do Saci.

As comunicações deverão vir endereçadas a “Saci Pererê”.

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