[Resenha] A Origem do Lobo

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Por Andriolli Costa

Desenvolvida como trabalho de conclusão de curso,  A Origem do Lobo, de Gustavo Siebert (2012) se apresenta como uma HQ de lobisomem com inspiração no folclore brasileiro. A história se passa no Nordeste, no início do século XIX e acompanha os últimos dias de um escravo fugitivo e sem nome que, capturado pela Matinta, foi transformado em lobisomem.

Logo de início as influências estéticas chamam  a atenção. Se Frank Miller escolheu contar sua história em preto, branco e vermelho – ressaltando o sangue e a violência, Siebert escolhe como terceira cor para sua composição o amarelo. É a cor do brilho da lua cheia, mas também da podridão e da decrepitude dos monstros.  O design dos personagens, por sua vez, lembra bastante Mike Mignola em Hellboy – especialmente pelos olhos vazados em branco, as formas quadradas do rosto e as sombras bem marcadas. Isso gera cenas bem interessantes, como a transformação do protagonista.

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No entanto, talvez a história como um todo tivesse mais a ganhar se o texto também fosse mais Mignola e menos Miller. Da forma como os quadros foram compostos, a Origem do Lobo se tornou uma HQ extremamente didática, verborrágica e redundante.

Exemplo disso está logo na primeira página. O protagonista acorda e percebe a sua frente a Matinta, e desperdiça um quadro inteiro com texto explicando a origem do mito. Algo totalmente dispensável para a história e que já havia sido exposto na página anterior, na introdução.

Os recordatórios colaboram para essa percepção. A ação que já foi exposta na ilustração é reiterada no texto o tempo todo. Não precisamos ler sobre o galope dos cavalos se estamos vendo cavalos galopando. Se a revista investisse mais nas cenas e eliminasse quase todos os recordatórios, ficaria muito mais elegante e contaria melhor sua história.

Prova disso é na ótima sequência subaquática em que o lobisomem encontra uma Iara. Um encontro que é o ponto alto da revista. No universo da HQ, as Iaras são filhas da deusa Yara com um pirarucu. Nunca ouvi essa versão, então imagino que seja criação do autor. Pena que não há qualquer implicação desta informação na trama.

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Com menos texto, eliminaríamos também outra dificuldade: a construção da voz dos personagens em cada diálogo. Todos falam do mesmo modo, sempre em português erudito e formal – de escravos a monstros, do diabo ao senhor de terras. Um “vossa mercê” dito pela Matinta é insuficiente para criar essa paisagem sonora. Isso sem falar nos erros de português, que denotam essa problemática. É difícil “não exitar” diante da falta de revisão.

A história se passa no Nordeste, mas não há nenhum índice disso nem nas falas, nem nos cenários. Vale lembrar também que Matinta é um mito do Norte, não do Nordeste. Seu deslocamento fica ainda mais evidente quando, em determinada cena, ela invoca corvos para serem seus olhos. Não há corvos no Brasil e nem eles tem qualquer relação com a bruxa. Se era para conjurar aves, nada mais lógico que elas fossem, obviamente, Matintas. Afinal, a feiticeira do folclore brasileiro tem sua crença a partir da ave de mesmo nome.

besta feraÉ bastante interessante o autor ter se proposto a escrever um lobisomem com sua origem marcada pelo folclore brasileiro. O melhor modo de desencantar a criatura, portanto, seria tirar sangue dela para o diabo poder lamber. Um detalhe único que merecia ser melhor explorado. Por outro lado, é uma pena a escolha pelas balas de prata como ponto fraco do encantado. Nunca se falou em prata para matar lobisomens no folclore nacional – o que os fere mesmo são balas envolvidas em cera de vela consagrada.

Fiquei muito feliz em encontrar uma obra retratando a Besta Fera, mito nordestino que não possui lá muitas interpretações artísticas. Porém, o ser é incorporado na história sem mais nem menos, surgindo do nada e entrando em conflito apenas para dar sequência à ação. Valia uma reflexão melhor sobre o monstro.

O quadrinho é uma iniciativa curiosa que se destaca pela estética, mas peca na narrativa. Nada que um editor mais atento para dialogar com o autor não possa resolver.

Nota: 2,5/5

Leia A Origem do Lobo, de Gustavo Siebert.

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