[Introdução] Horrores Urbanos – Devoradores de Alma

Texto escrito para a introdução do livro contendo o roteiro dos episódios do podcast Horrores Urbanos, produzido por Pablo de Assis no Mitografias.

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Por Andriolli Costa

“Esta é uma obra de ficção”. Nos primeiros minutos de audição do Horrores Urbanos, admito, a assertiva me incomodou. Talvez por soar como um habeas corpus preventivo; um atestado de isenção de responsabilidade sobre tudo aquilo que viria a ser dito no podcast. Em outros termos, talvez mais condizentes, o alerta de conteúdo ficcional parecia quase um amuleto. Uma réstia de alho que adornava o pescoço, afastando a obsessão dos maus espíritos que porventura viriam assolar a zona de comentários.

Mas eu estava enganado. Era mais do que isso.

A ficção, em um olhar inicial, nos desobriga. Não é necessário se comprometer com fatos nem buscar os números mais precisos. Não se espera encontrar na ficção fidelidade histórica e, em certos casos, nem mesmo correspondência com as leis da física. Palavra ligada aos atos de moldar, criar e, porque não fingir, a ficção, entretanto, carrega um lastro irrevogável que limita – ou orienta – toda criação que inspira: a experiência humana.

É este lastro que constrói os nexos entre os indivíduos e a potência das narrativas. Histórias que nos confortam ou provocam, que nos agoniam ou nos inspiram, expressas em experiências comunicativas que vão muito além das artes visuais ou da literatura. Afinal, não são as teorias universitárias, elas próprias, ficções compartilhadas? Fingimos compreender o mundo, escolhemos aquela que melhor nos serve e nela encontramos abrigo. Nada mais humano do que uma história de ficção.

Entre realistas e construcionistas, permanecemos.

Com este raciocínio conduzindo o olhar, compreendo hoje de maneira diferente o aviso que Pablo de Assis pontuou no início de cada programa desta primeira temporada do Horrores Urbanos. Não, não era uma fuga para ele, enquanto autor, mas sim para seu público. Para todo aquele que, ao mergulhar no desassossego das imagens que o texto evoca, sofre.

Com o perdão da revelação do artifício, convido todos a evitarem a fuga. O processo pode ser incômodo, mas é transformador, e parte da aceitação: Monstros existem, e tem existido desde sempre, nas mais diversas formas. Estavam aí antes de você, e continuarão a existir quando o último suspiro abandonar seu corpo. Porque estes monstros não dizem respeito a um indivíduo, não são frutos do delírio de um, ou consequência da demência de outro. Existem a partir do coletivo.

Estes monstros – ou mitos – são ficções coletivas que nos movimentam, que nos tomam de assalto ou sussurram em nossos ouvidos. Que descaminham nossos passos ou os direcionam para rotas inimaginadas. Enxergar a realidade dessas ficções é doloroso. Dói, pois não é fácil, para o indivíduo – este tesouro da modernidade, tão único e senhor de si e de sua razão – aceitar que há algo além. Algo ancestral, arquetípico ou, ainda anterior, esquemático. Algo visceral, pois lhe chama às tripas. É o misteryum tremendus, que nos deixa prostrados diante daquilo que é maior que nós.

A recusa não é uma opção. A experiência é completamente arracional.

Esta primeira fase do projeto conta com 11 criaturas-tema; os psicófagos sem face que, movidos pelos mais diversos motivos, se alimentam de nossas almas. Pablo constrói essa relação especialmente a partir dos seres que habitam a imageria da cultura pop: contos, séries de TV, filmes e videogames. Monstros que surgiram das profundezas da internet ou das lendas mais campesinas. É indiferente. O lastro que carregam na experiência humana é muito mais antigo, suas formas atuais são apenas emanações de sentimentos ancestrais.

Até que ponto importa se o Fantasma sem rosto de Heilbronn era etéreo ou fruto de erro laboratorial? O medo deste Outro misterioso e violento era mais do que real. Não sem motivo, a suspeita caiu sobre os grupos Ciganos: o reconhecimento da alteridade de grupos humanos também passa pela negociação do imaginário.

E que bem faria recusar a ingerência dos compridos braços do Slenderman sobre nós? O sistema financeiro, na figura dos investidores sem rosto, continua a nos envolver em um terrível abraço que nos desumaniza. Ter consciência de seu efeito simbólico é condição para um agir no mundo focado em um papel transformador. As histórias do Horrores Urbanos, por mais ficcionais que se proponham a ser, revelam mais sobre o gênero humano que sobre qualquer criatura sobrenatural.

De minha parte, também busquei colaborar para a pregnância da mensagem. Em 2016, pouco depois do primeiro episódio deste podcast, lancei o piloto do meu próprio projeto. Feito em parceria com o Mundo Freak, o Popularium era um podcast centrado no folclore brasileiro, buscando investigar a pungência da mensagem da narrativa popular na vida contemporânea. Por coincidência, inicio a reflexão justamente com um monstro sem rosto: A Mula sem Cabeça.

Como em todos os relatos da sabedoria do povo, existem várias versões para a história da mula sem cabeça. Dizem que a maldição recai sobre a “concubina” de um padre. Uma mulher capaz de tentar um homem santo a romper seus votos de castidade. Outros falam ainda que, ao invés de padre, a perdição estaria em se deitar com um compadre – o padrinho do casamento. Ou mesmo em praticar qualquer tipo de relação incestuosa.

Condenada por Deus e por sua comunidade, a mulher vai até a encruzilhada e sofre a terrível transformação da carne. Pés se tornam cascos, o corpo humano ganha forma equina. A cabeça se perde, e dá lugar a um pescoço vazio que regurgita as chamas infernais. A mula não relincha, chora. Geme de dor, enlouquecendo quem a enxerga ou escuta.

É fácil acreditar que a narrativa da mula ficou no passado, abandonada nas fazendas e charnecas quando o êxodo rural tornou o Brasil urbano. Sinônimo de atraso, o interior e todas as imagens que nele constelam são por vezes postos em oposição às cidades modernas, ao progresso, à ciência. Não haveria lugar para uma mula preta endemoniada, não é verdade?

Ainda assim, não é difícil encontrarmos mulas pelas cidades. Talvez conheça uma, talvez as encontre nas páginas do jornal. Talvez, inclusive, você mesmo já tenha colaborado para sua transformação. É que o mito da Mula sem Cabeça é, em verdade, um mito de restrição do feminino. A chama que arde no monstro é o fogo da culpa. Uma culpa socialmente introjetada, que a incinera por dentro. A cabeça que falta é simbólica: indica uma suposta ausência da razão. A submissão da mente em troca dos desejos da carne.

Cada dedo que aponta e acusa essa mulher/mula – a única responsabilizada numa relação a dois – pode, no futuro, contrair para si a maldição. Pois estes psicófagos não tem rosto por um motivo. Sem rosto, possuem todas as faces, inclusive a sua. O que fazer quando você se reconhece neles?

Acalme-se. É só uma obra de ficção.

Andriolli Costa, 28 anos, é jornalista natural de Mato Grosso do Sul e pesquisador de mitos e lendas brasileiras. Cursa doutorado em Comunicação e Informação na UFRGS com foco na Teoria Geral do Imaginário. Atualmente coleciona sacis em São Leopoldo/RS. Contato: andriolli_costa@homail.com

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