[Clipping] Historiador contesta versão oficial da lenda do “Boi Falô”

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Festa do Boi Falô em Campinas

Publicado por ACidadeOn
Em 30/3/2018

Quem mora em Campinas – e não só no distrito de Barão Geraldo – já deve ter ouvido a história. A lenda do Boi Falô, cujo aniversário se comemora na Sexta-Feira Santa, é bastante conhecida.

A versão oficial, divulgada pela Prefeitura e boa parte da imprensa, diz que a lenda começou em 1888, na fazenda Santa Genebra, que pertencia ao Barão Geraldo de Rezende. Um escravo, chamado Toninho, foi obrigado pelo capataz a ir ao pasto atrelar um boi para arar a terra, em uma Sexta-feira Santa.

O escravo obedeceu, mas o boi não saía do lugar. O animal então olhou para Toninho e disse: “Hoje é dia santo, é dia do Senhor, não é dia de trabalho”. O escravo saiu correndo para sede da fazenda, gritando “o boi falô, o boi falô!”

Ainda segundo a lenda, o capataz ainda teria tentado castigar Toninho pela insubordinação, mas ele correu para a Casa Grande à procura do Barão que, ao ouvir seu relato, teria lhe dado razão e ordenado que ninguém trabalhasse naquele dia.

O escravo passou a trabalhar dentro da casa por muitos anos, até sua morte, e, em consideração aos seus bons serviços, acabou sendo enterrado junto ao túmulo do Barão, no Cemitério da Saudade.

Muito legal, certo? Certamente. Mas, segundo o historiador Warney Smith Silva essa não é a a versão mais tradicional de Barão Geraldo e ela está sendo contada da forma errada.

Na década de 90, Warney estudou a origem de Barão Geraldo durante sua graduação em antropologia na Unicamp. E contesta de forma veemente que a lenda do Boi Falô “foi criada” ou tenha surgido em 1888.

Segundo ele, de fato havia um escravo chamado Toninho que trabalhou na fazenda do Barão Geraldo. Mas ele já era capataz e tinha as chaves da propriedade em 1870 – ou seja: já não era um simples escravo em 1888, quando teria ocorrido a lenda. Ele, inclusive, foi alforriado em 1884, quando passou a ser o cocheiro do Barão.

Essas informações estão no livro da filha do Barão, Amélia Rezende Martins. “Até hoje esta é a única fonte histórica de informação confiável sobre Toninho. E o livro não cita a lenda”, diz Warney.

Além do livro, o pesquisador também se baseou em entrevistas que ele mesmo fez com a primeira geração de moradores do distrito e alguns de seus filhos, além de textos publicados pela imprensa de Campinas ao longo do século passado. “Ninguém dos mais antigos de Barão se referiu a qualquer data do mito do Boi Falô. E nenhum citou o nome da pessoa que foi buscar o boi. Além de que, como todo mito popular, não há um consenso ou versão fixa. A maioria falou em ‘escravo’ ou ‘trabalhador’ ou ‘empregado’ que teria ido buscar o boi”, afirma.

A ORIGEM

A deturpação do mito, até então sem data e sem personagens definidos, começou em 1988, segundo o historiador. Naquele ano, o empresário Gilberto Antoniolli, que era candidato a vereador, teria pegado carona no Centenário da Abolição da Escravatura e divulgou que a fala do boi foi registrada dois meses antes da abolição ser anunciada.

Segundo Antoniolli, o fato se tratava de um “grito de resistência” dos negros – que se negaram a trabalhar só porque o boi falou. “Ele transformou a lenda num fato histórico”, critica Warney. “E tirou todo o sentido correto da lenda, que é o respeito pela crença da população pobre e rural”, completa.

No mês seguinte, Antoniolli e o então subprefeito de Barão geraldo, Atilio Vicentin (também candidato) – realizaram a 1ª Festa do Boi Falô, em 1988. “Na época, ninguém ainda ligava o escravo Toninho à lenda”, ressalta Warney.

Isso aconteceu, segundo o historiador, ao longo dos anos 90. “A festa passou a ser divulgada massivamente, porque Atilio Vicentin não se elegeu e foi seguidamente nomeado subprefeito de Barão, buscando a mídia para sua divulgação.” O que ocorreu, então, foi uma espécie de “pasteurização” da lenda – uma sistematização, para tornar a história mais palatável. “Foi aí que começaram a incluir o Toninho e o ano de 1988 no mito”, diz Warney.

Na década de 90 houve, ainda, conflitos com a igreja católica, que não aceitava a festa do Boi Falô no dia da morte de Jesus. Na época, o subprefeito Antônio Flores (que hoje é vereador) tentou mudar a festa para o dia 1º de maio, sem sucesso.

“Essa versão, que se funda basicamente na mentira contada por um escravo para não trabalhar e como resistência à escravidão contra um patrão maléfico, foi tornada oficial e cada vez mais imposta em Campinas. Hoje, diversas pessoas comemoram os 130 anos da lenda, o que é completamente absurdo e sem sentido, pois nenhuma lenda tem data de início. Já tem gente até falando que a festa tem 130 anos”, irrita-se Warney.

Sua pesquisa resultou em um livro, que ele tenta publicar, e ele luta para mostrar a versão da história mais próxima da realidade sobre a lenda – que não inclui o ano de 1988 nem a participação do escravo Toninho na história.

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