Desoras, Horas Mortas, Horas de Ave Maria

Por Andriolli Costa

Aquele que lê textos antigos sobre folclore brasileiro frequentemente pode se deparar com o termo “Horas mortas” para indicar os horários clássicos de aparição de visagens. O que seria isso? São as horas de transição. 6 da manhã, 6 da tarde, meio dia e meia noite.. O motivo? São as horas da incerteza, onde a noite ainda não é dia, onde a tarde ainda não é noite e no pico destes horários. A hesitação é uma característica do fantástico, sempre a oscilar entre o real e o mágico. Por isso é um horário perigoso, de tentação, onde o invisível ronda.

Outro termo frequente é “desoras”, como em “sai de casa a desoras”. Não, não é uma abreviação para 10 horas da manhã ou da noite, mas um termo que indica um horário avançado e inconveniente. A confusão é frequente, e o próprio Carlos Heitor Cony já cometeu este erro, sendo prontamente corrigido pelo biografado JK.

Um terceiro termo curioso encontrei recentemente lendo de cabo a rabo o livro Saci Pererê – Resultado de um Inquérito, organizado por Monteiro Lobato. Um dos depoentes relata que o saci costumava aparecer nas “horas de Ave Maria”.

Pesquisei e encontrei a resposta: vem de Portugal a tradição de interromper os trabalhos logo que os sinos dobram às 6 da tarde. Seria o horário em que a Virgem foi visitada pelo arcanjo Gabriel. Neste momento todos se reúnem, rezam, e vão para casa. Continuar trabalhando é um interdito passível de castigo pelas visagens andarilhas.

Para encerrar a postagem, nada melhor que a poesia popular para dar a ver esses horários tão respeitados. Ficamos com um trecho na voz do poeta paraibano Jessier Quirino.

“O Dizido das Horas no Sertão”

(…)

Às seis é o por do sol,
Ou hora da Ave Maria.
Dezenove, ou sete horas,
Se diz que é pelos cafús.
Às oito, boca da noite,
Lá pras nove, é noite tarde,
Às dez, é a hora velha,
Ou a hora da visage!

É quando o povo vê alma,
Nos escuros do lugar.
É horona pirigosa,
Fantasmenta e assustosa,
Pro cabra se estupefar!

Às onze, é o frião da noite,
É Sertão velho, a gelar,
Meia noite é meia noite
E acabou-se o versejar.
Mais um dia foi-se embora
E, assim, é dizida as horas
Neste velho linguajar!

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