Saci trans incomoda muita gente. Mas só quando não é para debochar

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Por Andriolli Costa

No coração do #OcupaSacy, exposição inaugurada há pouco mais de um mês no Sesc Interlagos, em São Paulo, está a Sacioteca. Ao centro dela, cercado por garrafas destampadas que um dia contiveram cada uma das espécies catalogadas em suas linhas, está o Fabuloso Inventário dos 77 Sacys. O enorme alfarrábio, de páginas soltas e feitas para o manuseio é tão atemporal quanto o mito que retrata. De produção artesanal, remete a uma ancestralidade, mas não nega o presente.

Nele, encontramos vários sacis anciões e acostumados ao ambiente da roça, como o Sacy Sererê, de barbas brancas e bengala – condizente, uma vez que foi o primeiro registrado no Brasil, em um artigo do Correio Paulistano de 1859. Mas também as mulheres, urbanas e revolucionárias, como a Sacya Mana. Diz o livro que esta espécie “assobiava agudo contra a ditadura”, quando muitas foram inclusive presas e torturadas. “Com certeza a Sacya Mana estaria hoje numa manifestação bradando Marielle, presente!”, conta o cenógrafo e um dos idealizadores da exposição, Jeff Celophane.

Na narrativa do #Ocupa, ninguém sabe quem escreveu o Inventário. No contexto da produção, a criação é de autoria do curador Rudá K. Andrade, que bebeu não apenas dos registros de saci, mas de muita liberdade criativa para imaginar cada um dos duendes do livro. Há vários sacis conhecidos, como a grande estrela – o Saci Pererê – ou os há anos alardeados pela Sociedade dos Observadores de Sacis, como o pequeno Saci Miquim ou o barulhento Saci Trique. Há ainda sacis inspirados em outros mitos brasileiros, uma grande oportunidade para que os visitantes os conheçam a partir dos pernetas.

E, é claro, sacis representando grupos sociais: sacis mulheres manifestantes, sacis quilombolas que protegiam seus companheiros dos capitães do mato, e até mesmo uma sacy trans. A Sacx, com uma identidade de gênero não-binária, não se identificando nem com o masculino e nem com o feminino. O texto do livro diz o seguinte:

Assim como nós, os sacys podem ser cisgênero, e se identificar com o gênero que nasceram; ou transgênero, e não se identificar com o gênero que nasceram; ou, ainda, às vezes ser sacy e outras vezes sacyas. Mas isso, entre elxs, não é um problema ou uma questão, já que a liberdade é sua maior característica. (…) . Ser livre ou ser livre, eis a questão.

O texto identifica a presença da Sacx ao lado dos movimentos LGBTIQQ, somando forças na luta pelos direitos humanos. Diz que podem ser vistos na Parada do Orgulho LGBT e em rodas de discussão sobre o tema, festas, paradas e passeatas. Eu diria mais. Sacx podem ser vistos em todo o Brasil, basta abrir os olhos. Talvez houvessem ainda mais se eles não tivessem um justificado medo de se mostrar.

A arte do livro todo foi feita pelo ilustrador Marcelo Bicalho, que conta que o processo foi todo feito colaborativamente. “Votamos pela exclusão de qualquer aspecto que pudesse levar ao caricato ou ao estereotipado, chegamos a essa imagem que é simplesmente ambígua quanto a gênero e vestida com as cores da bandeira trans”.

“PARABÉNS! PROBLEMATIZARAM O SACI!”

Quando postei a foto da Sacx no Facebook do Colecionador de Sacis eu imaginava que daria algum rebuliço, só não imaginei que daria tanto. Avisei de imediato que reações transfóbicas levariam ao banimento da página, e pela primeira vez realmente tive que usar desta ferramenta um número considerável de vezes. Existe um limite entre diálogo e intolerância, e transfobia o ultrapassa.

As acusações foram várias, e das mais rasas. “Parabéns, problematizaram o saci!”. “É isso mesmo que é folclore tradicional. Tá serto…”, “Não use folclore como desculpa para sua ideologia”. Talvez haja a dificuldade das pessoas de entender o que é este imaginário folclórico, visto coo algo sempre infantil e apolítico. Atenção: não é por algo ser tradição que ele é imutável, e muito menos que é irrefletido. Edison Carneiro, em A Dinâmica do Folclore (1965), batia muito nessa tecla: o folclore se transforma de acordo com as pulsões do social.

Somos conscientes dessas mudanças, ou o imaginário que nos guia? Em verdade, há uma tensão entre essas duas pulsões. Um trajeto antropológico que nos leva em direção a nós mesmos. O folclore muda conosco, mas também nos afeta. Os mitos dizem sobre nós, sobre o que há de melhor e o que há de pior também. É só saber olhar.

Pensem no próprio caso do #OcupaSacy. Por que as garrafas dos sacis da sacioteca estão abertas? Por que não faz mais sentido estarem fechadas. Os tempos de sacis presos já se foram, é falha a tentativa de tentar conter este mito de liberdade. O sacy ocupa o Sesc – não o invade. Aquele espaço também lhes pertence.

Outros leitores questionaram, com bastante ênfase o uso do X como derivação de gênero neutro como sendo algo inexistente na língua portuguesa. Oras, que saci existe todos estamos de acordo, mas vários dos sacis do livro são inventados ou pertencem a universos ficcionais, e nem por isso são menos relevantes. Será que é o X realmente que incomoda tanto?

Por outro lado, a leitora Alessandra Picoli levantou a questão sobre a dificuldade do X ser aceito como linguagem inclusiva verdadeira, especialmente por conta dos aplicativos de acessibilidade, e questionou se não haveria uma alternativa em Tupi para o gênero neutro. Cabe verificar com algum companheiro estudioso do idioma.

Adoro a simplicidade com que resume a leitora Rossiley Ponzilacqua. “Embora digamos O Saci eu sempre vi nele um ser andrógino. Não dá pra falar se ele é homem ou mulher. Ele é uma entidade”. Perfeito. Se para a Sacx isso não é uma questão, para nós também não precisava ser. E por que seria diferente com outro ser humano?

“SACI VIROU TRAVECO, KKK”

saci whats

Curiosamente, na semana seguinte à postagem sobre a Sacx, começou a circular nas redes sociais um vídeo em quem uma pessoa de uma perna só, identificada na legenda como travesti, percorre aos saltos o caminho em direção ao metrô. A comparação com o duende brasileiro, dessa vez, foi imediata…

Eu nunca achei de bom tom postar no blog ou no Facebook do Colecionador os vídeos que toda semana recebo. “Saci assalta pessoas no motel”, “saci de muleta lutando capoeira”, você já deve ter visto eles por aí, não é verdade? São sucesso no Whatsapp e nas páginas do Facebook desse humor do escracho. Eu, que acompanho diariamente tudo que se posta de saci no Youtube, tenho percebido uploads quase diários. No Facebook, a mesma coisa. Espalhando aos poucos, viralizando a mesma mensagem.

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Percebem a diferença entre as duas situações? Saci Trans como símbolo de diversidade é uma afronta ao folclore, uma “perversão”. Agora na hora do deboche, na piada, saci e trans se encontram na mesma frase com a maior das facilidades. Tem uma palavra para isso né?

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