Tradições Populares de Minas e S. Paulo – 1859

Em 22 de setembro de 1859, o Correio Paulistano publicou um dos primeiros relatos escritos do mito do Saci Pererê. Na época, havia tamanha resistência em escrever sobre folclore que o texto nem chega a ser assinado. O autor, que se justifica o tempo todo pela página escrita, assina apenas como C. Luís da Câmara Cascudo especula que seja a inicial de Couto de Magalhães. Graças ao arquivo da hemeroteca da Biblioteca Nacional, o Colecionador de Sacis pode trazer a você o texto transcrito. A versão original está aqui. O mesmo texto foi publicado no periódico A Marmota em 04 de outubro do mesmo ano.

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Respeitável leitor, venerando crítico de testa enrrugada e olhar inspirado, não vos revoltais contra as histórias populares que vou começar a escrever. São crenças errôneas e muitas vezes cômicas as do povo, mas nem por isso destituídas de interesse; recream a imaginação, acalmam por vezes os cuidados do espírito e são para muitos uma recordação doce do passado.

Talvez mesmo para nós tragam ellas alguma associação de ideias agradavel; por acontecer que ao lerdes alguma dellas vos apareça o tecto em que nascestes com as bellas côres de que a saudade collore o passado: junto a vossa cama está uma vella, e ao pé della a vossa ama de leite, cronica viva das tradicções, que vos emballa o innocente somno com alguma das historias que ahi reproduzo – talvez que vossa imaginação vos pinte isso, e talvez que sintaes uma alegria indefinivel em volver na memoria as bellas páginas da vida em que o homem crê em todas as superstições e phantasias do povo. Se assim for não diga ao lêr o meu artigo – que pachorra! por que todos nós temos nossas horas de descanso, e foi nellas que eu o escrevi; se assim não for virai a folha do jornal e lede os annuncios, porque sem mais prologos vos declaro que a primeira lenda que escrevo é a do

Saci Sererê

Nunca ouviste no meio da noute cilenciosa e sobre tudo das noutes de luar, um canto melancolico que vem como um echo perdido da sollidão? É um pássaro pardacento que o entoa; procura elle ordinariamente os lugares mais silenciosos, os paús por onde não passam seres humanos, para habitar. Em seu canto simples, ouvem-se duas sillabas distinctamente pronunciadas, e são sacy.

Quando elle pretende cantar procura uma arvore desfolhada e secca, e nesta assenta-se sempre no galho ais elevado, encoruja as pennas, eleva um pouco o bico para o ar como se seu canto fosse uma supplica ao eterno. Raras vezes se o avista, pois que elle é selvagem, e foge ao menor barulho. As tradicções de nosso povo fazem delle um ser mysterioso. Dizem que é um diabo que vive pelo mundo e cujos costumes são mais os menos os seguintes:

O Sacy ninguém o imagina um diabo feio, algum monstrengo; ó verdade q’elle tem os pés bifurcados, e o tradicional cheiro de enchofre; mas fora disso é um capetinha esperto e engraçado, que passa por diversas formas. A imagem que ello mais estima é a do negrinho, vestido de carapuça e roupa vermelha segundo me informou uma velha, a quem elle havia feito algumas graçollas. O sacy habita de preferência das furnas das serras, os buracos profundos, as minas abandonadas, e algumas vezes as casas desertas. Muito gosta elle de passear pelas noutes de luar, e os lugares que mais frequenta são as encruzilhadas das estradas e as porteiras, para mais ao seu gosto fazer suas tropelias aos viajantes.

“Um dia”, disse-me um velho fidedigno, “eu ia viajando para o meu sitio, quando o meu cavallo estacou derrepente diante de uma porteira velha; era noute de luar, e diante da porteira descia uma grande serra. Fitei a vista e descobri o Sacy assentado em cima. Ferrei as espouras no cavallo, elle avançou refugando, e logo que passou a porteira precipitou-se pela serra a baixo com toda a furia: o que havia de fazer o maldito Sacy? Virou-se em barril meio cheio d’água, e poz-se a rolar pelo morro a baixo fazendo um grande barulho, e quasi pega não pega o pobre do cavallo. Vi-mo zonzo, senhor, e se não fosso um rosário que eu trasia, estava perdido!.

Os tropeiros são inimigos declarados dos Sacys porque, dizem elles, quando os animaes apparecem muito desbarrigados no pasto e porque os taes diabos andaram de noute fazendo correiras sobre elles pelas varzeas.

Entre as diversas formas de que se reveste o Sacy Sererê há a da fogueira. Muitas vezes vai-se andando por um caminho e avistam-se dous fogos pequeninos como uma brasa, e vão-se sucessivamente augmentando até que ficam do tamanho de duas grandes fogueiras, cujo clarão côr do phosforo faz medo até aos padres.

Dizem que elle é grande amador do jogo e que as vezes se reveste da forma humana, de casaca e luneta ao lado, e que joga e larga ganhando sempre.

Uma occasião estavam diversos jogadores em uma casa, quando por horas mortas bateram na porta; a dona da casa foi abri-la e viram entrar um moço bem apessoado, que dizia, que como estava de viagem por aquellas paragens, e como soubesse que alli se jogava, pedia aos donos da casa que lhe permittissem tomar um lugar na mesa para passar mais distraidamente a noite, o que lhe permitiram com toda cortesia.

A dona de casa, que estava de arte começou a reparar a phisionomia do desconhecido, e notou o seguinte; quando algum dos jogadores dizia arre diabo! o olhar do moço brilhava como dous diamantes, e quando algum ganhava e que dizia lovado seja Deos! o moço ficava palido como sêra. Jogaram por muito tempo; o desconhecido ria-se, contava anedoctas, e até tomava pitadas de tabaco, nas bocetas alheias, e todos estavam gostando daquele moço tão alegre. Lá pela volta das 3 horas da madrugada succedeu que cahindo umas cartas do baralho no chão, a dona da casa, que era uma devota mulher tomou uma das vellas para procural-as, mas quando alumiou debaixo da mesa deu um grito de esconjuro porque tinha visto que o pé do moço era como pé de cabra. Logo que ella esconjurou o sujeito desappareceu, ficando sobre a casa um grande fedito de enchofre, alumiaram então o assoalho e virão que havia ficado sobre elle uns signares queimados, pelo que abandonaram a casa e nunca mais jogaram.

O Sacy Sererê frequenta muito as varzeas e sobre tudo nessas noutes calmas e claras em que os nevoeiros e brumas assentam pelo fundo dos valles, como um mar em calmaria. Diverte-se elle então em trançar as crinas dos animaes, e fazel-os correr ao lougo dos pagos. Contou-me um velho tropeiro o seguinte: “uma ocassião eu estava pouzado em … e seguia viagem para as bandas da serra do mar; acordei, havia ser meia noute; estava em luar que parecia dia. Levantei-me e assentei de seguir viagem mesmo de noute para evitar o calor do sol. Meus animaes estavam n’uma varzea coberta de garoa. Logo que subi, avistei mal e mal os dois animaes; andei, andei muito e os anmaes sempre adiante de mim, sem nunca eu os poder pegar; afinal já cansado de tanto ander, gritei – arre diabo. Nisto ouvi uma gargalhada atraz de mim, voltei-mo e vi o coisa ruim que vinha vindo de pernas para o ar e com a língua de fora: e que lingua! Parecia uma espada de fogo, e os olhos alumiavam como brasa enão fosse a Virgem Maria quem sabe onde eu estaria agora?”

Houve uma velha para os lados de Minas que descobrio o meio de prender o Sacy, passou-se o caso do modo seguinte: – Essa velha já era senhora de seus 90 annos para mais. Tinha duas filhas, já não tinha marido, o morava na beira da estrada, e dava pouso aos viagantes; erão suas filhas honestas, pelo que se expantou muito a velha de ver um dia sahir pela janella, e de madrugada, um mocinho; callou-se a velha e espreitou na noute seguinte, e nada… Passou-se uma semana, e quando foi dia de sexta-feira, vio sahir o mesmo sujeito, o notou que elle só tinha uma perna: foi immediatamente ao quarto de suas filhas, acordou-as, interrogou-lhes pelo sugeito, e ellas cheias de admiração protestam contra as arguições de sua mãi. A velha parou no meio da sala, assuou o nariz; tomou uma pitada de tabaco, e depois de haver reflectido por algum tempo, disse com ar de mysterio: – macacos me mordam se aqui não adnam artes do Sacy. Com effeito no dia seguinte foe a velha observar o vio o rastinho da cobra que seguia pela estra fóra. Bem; deixou passar a semana, e quando foi na sexta-feira seguinte, passou a espreitar debaixo da janella, armada com um cabo de vassoura, e resando no seu rozario. Quando foi de madrugada saltou o Sacy, e a velha deu-lhe uma forte bordoada; o Sacy deu uma grande risada, tomou o pão, e agarrou na velha pelo nariz, ia suspendel-a pelos ares: em taes assados a velha não tendo com que dar-lhe valeu-se do rosario, e já estava dois palmos acima da terra quando lançou o Sacy pelo pescoço; logo que este sentiu o rosario cahio de joelhos diante da velha, dizendo-lhe que era seu captivo.

A velha prendeu-o dentro de uma garrafa, porque o Sacy cresce e diminue segundo a sua vontade. Nesse estado teve-o por muito tempo até que o seu confessor mandou que soltasse, dizendo-lhe que não era prudente ter o inimigo tão perto da cabeceira; a velho soltou, mas antes de o fazer mergulhou a garrafa em água benta, com que o Sacy muito sofreu.

Esta tradição é quasi igual a uma dos Escandinavos, em que Odim apaixona-se pela filha de uma velha, é igualmente preso por ella com a differença que, em vez de ser preso com um rosário é-o com palavras mágicas.

O Sacy apaixona-se as vezes pelas bellesas terrestres, e ha, diz ainda o povo, algumas moças que com elle tem vivido. O resultado desta união é o começar a moça ficar muito triste e pallida, até que a final morre, é o que prova esta quadrinha de canto popular:

Menina, minha menina,
Quem voz fez tão triste assim,
De certo que foi o Sacy
Que te deu uma boquinha

Os amores do Sacy
Trazem a morte a seu bem;
Resai a Nossa Senhora
Que te livre do mal, amém.

Por esta altura do artigo mais ou menos o leitor faz uma pausa e diz: – A fé! tudo isto são petas.

Eu que já estou cançado de escrever digo-lhe de passagem: que meta-se um dia a viajar pelos nossos centros, alta noute, deserto quasi infinito, luar claro, corujas a cantarem, morcegos e voarem-lhe em torno da cabeça tão silenciosos como os maos pensamentos; e então me dirá se o negócio cheira ou não a phosforo.

Adeos querido leitor ou leitora; até a proxima tarde em que me der a pachorra ousploon escreverei se for do vosso agrado a historia dos Lobishomens, Surupira e quejandos.

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