Programa de terror na Rádio Tupi dos anos 40 estreou com história de saci

Figura 10 - Em seu programa de rádio na época da rádio Nacional[5]

Por Andriolli Costa

“Você não acredita no sobrenatural?”, desafiava a voz, irradiada para todos os lares do Rio de Janeiro pela Rádio Tupi em ondas médias e pela Tamoio em ondas curtas. “Então ouça!”. O irresistível imperativo marcava a locução do apresentador Henrique Foréis Domingues, mais conhecido o Almirante – a “maior patente do rádio”, que iniciava em 21 de outubro de 1947 um dos grandes sucessos de sua carreira: “Incrível! Fantástico! Extraordinário!”.

O hiperbólico nome fez sucesso imediato, e era a grande audiência das noites de terça-feira. Segundo o próprio Almirante, o objetivo não era convencer ninguém da existência do sobrenatural, questionar religiões ou praticar o sensacionalismo. Queriam apenas contar, “timtim por timtim”, as narrativas de terror e mistério vividas por cada ouvinte.

As quatro histórias transmitidas no programa de estreia serviriam para pautar os ouvintes. “Com base nelas vocês saberão em quais casos estamos interessados”, recomendava Almirante. Cada uma recebia um título breve e bastante sugestivo: A aranha, O comandante, O Baile e, é claro, O Saci Pererê.

As histórias transitavam em diversos níveis do insólito, desde o horror fantasmagórico ao puro engano causado pelo medo das assombrações. É o caso da história do Saci. Nela, um botânico – no alto de sua intelectualidade – resolve botar em descrédito a história de um funcionário da fazenda que dizia que não se podia chamar o Saci pelo nome para não atrair o diabinho.

O homem da cidade abre então a janela da casa e grita à plenos pulmões: “Saci Pererê!”. E eis que é respondido: “Estou aqui!”. Todos na casa ficam em choque, mas o botânico não se dá por vencido e berra outra vez: “SACI PERERÊ!”. E a resposta vem ainda mais alta: “Estou chegando!”. Um tropel de cavalos se aproxima, todos ficam tensos, a porta se abre. Corações param.

Era um funcionário do horto que buscava pelo botânico com urgência. Sem entender o grito, achava estar sendo esperado e gritava de volta da mata.

Você pode ouvir a história completa abaixo. 

Aqui há outros casos: O endiabrado Saci da picada da Madalena, e O Saci Pererê que apareceu nessa cidade, ambos também frutos de enganos dos narradores das histórias.

O Programa

Uma matéria publicada na Revista do Rádio de 1951 revelava os bastidores do programa. Dizia a publicação que o próprio Almirante fazia a seleção das cartas do programa, passando por um processo de checagem do nome da pessoa e das testemunhas exigidas. A exposição do nome real do ouvinte era uma forma de conferir fé ao relato.

Depois da seleção, o roteiro era decupado, encomendavam-se os artistas e os efeitos de sonoplastia, como latas velhas, tropel de cavalos, disparos de revólver. Os ensaios precisavam ser precisos, pois tudo era transmitido ao vivo. A música entreligava as falas, os efeitos e vozes dos personagens deveriam entrar milimetricamente após o fim da locução do narrador.

No auge do programa, em 1951 as histórias foram reunidas e publicadas numa coletânea homônima, Incrível! Fantástico! Extraordinário! pelas edições O Cruzeiro. Uma nova versão, com outras narrativas, foi reunida em publicação da Editora Francisco Alves de 1989 com o subtítulo “outros casos verídicos de terror e assombração”.

O Fim

O sucesso era grande, mas as relações de Almirante com a Tupi – onde também era diretor artístico, não andavam das melhores. Em 1952 ele deixou a emissora, e o programa passou por idas e vindas entre várias outras redes, estreando inclusive em São Paulo.

No final da década de 50, Almirante retorna para a Tupi onde retoma o programa de terror e cria vários outros programas, incluindo um chamado Recolhendo o Folclore, dedicado a relembrar ditados, crendices e medicina popular. Em 1958, entretanto, um derrame interrompe a carreira do locutor que, acamado, abandona a rádio para se dedicar ao seu próprio acervo.

Diferente do que aparece em vários sites na rede,  Incrível! Fantástico! Extraordinário! não foi interrompido com a saída de Almirante. Acompanhando a programação da Revista do Rádio, no Acervo da Biblioteca Nacional, é possível verificar que ele ainda foi transmitido durante alguns anos da década de 1960. Após algumas mudanças, quem assumiu de vez a locução dos casos insólitos foi Edélzia dos Santos, estrela das rádio-novelas.

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Almirante, a maior patente do rádio

Os Casos

Em entrevista à Revista O Cruzeiro, Almirante foi incapaz de selecionar um caso como o seu favorito. Sempre havia outra história fantástica que a memória puxava. A publicação acabou escolhendo um para servir de exemplo, que é uma típica história da cultura popular. O caso ocorreu no Sergipe.

Manuel Barbosa, homem destemido, preferia viajar de noite quando ia trabalhar em algum lugarejo distante do local onde morava. Numa dessas noites, ao passar junto ao cemitério perto de sua casa, pareceu ouvir uma voz:

— Manuel, vá em casa e volte que eu quero falar com você!

Corajoso como sempre, o carpinteiro não teve dúvidas em cumprir a estranha ordem. Estugou o passo e, chegando a casa, disse à esposa:

— Mulher, boa noite. Você desculpe, mas só vim largar a ferramenta porque vou voltar à capela do cemitério onde há alguém me chamando.

A esposa quis demovê-lo do intento, mas ele insistiu e foi. Daí a uns vinte minutos estava de volta. A mulher, ansiosa e preocupada, correu ao seu encontro. Mas Manuel já não parecia o mesmo. Pálido, fitando um ponto longínquo, sua figura era profundamente impressionante.

A mulher procurava saber o que tinha havido. Inútil. Nunca mais ninguém ouviu a voz de Manuel, que daí a três dias morreu.

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