Tapetes de serragem enfeitam Corpus Christi em Flores da Cunha há mais de 50 anos

Por Andriolli Costa

Aproveitei o feriado desta última quinta-feira, 31 de maio, para subir a Serra Gaúcha e conhecer a cidade de Flores da Cunha/RS, município distante 150 km da capital Porto Alegre. Desembarquei da rodoviária na quarta-feira, bem a tempo de ver toda a movimentação dos voluntários que preparavam os mais de 40 tapetes de serragem que enfeitariam a Praça da Bandeira para a celebração do Corpus Christi.

A data, instituída no calendário católico desde o século XIII, é festejada 60 dias depois do domingo de páscoa e representa o que na igreja se conhece por transubstanciação: é a transformação do corpo de cristo no pão da eucaristia, e do seu sangue no vinho da missa. Dizem que o preparo dos tapetes de serragem é uma tradição portuguesa que chegou ao Brasil colonial ainda durante o período colonial.

Na região dos Açores a tradição acompanha a procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres, quando um andor acompanha uma peça de arte sacra cultuada no Convento de Nossa Senhora da Esperança. Ainda hoje os tapetes por onde passam os devotos são feitos de flores e folhas verdes. Há também quem misture incenso e erva-doce para perfumar a rua quando as telas forem pisadas durante a procissão.

Flores da Cunha

A cidade de Flores da Cunha, que até os anos 30 era conhecida como Nova Trento – e até hoje é chamada assim por alguns dos moradores – é de colonização italiana, mas se tornou referência na tradição portuguesa na região Sul. Os tapetes de Corpus Christi encantam turistas desde 1964, movimentando vários grupos da cidade.

Conforme essa matéria do jornal O Pioneiro, a criação dos desenhos começa já em fevereiro. A logística é grande: Os moldes para os tapetes são confeccionados moldes de madeira em lojas de móveis. A serragem vem São Francisco de Paula, e a anilina que dá cor às telas é comprada em São Paulo. A marcação do entorno da praça começa uma semana antes do feriado. A montagem final é feita na véspera, e os tapetes ficam expostos até o domingo.

Dizem que no passado, era usada borra de café, tampinhas de garrafa pintadas, sabão em pó e cal para preencher os desenhos. Hoje grande parte é serragem, mas é curioso observar os objetos que dão vida as peças. Bolinhas de gude viram olhos para pombas brancas feitas de sal grosso, sementes vermelhas enfeitam o manto de Nossa Senhora Aparecida.

Mensagem

A variedade da temática também chamou atenção. Muitas mensagens religiosas e representando o amor de Deus, como era de se esperar. Mas também havia tapetes inteiros dedicados a mensagens contra a corrupção no Brasil.

Em um deles, o país era atacado por ratos feitos de bombril. Em outro, luvas cirúrgicas manchadas de sangue atravessavam uma representação da bandeira nacional. Não poderia ser diferente: a missa aconteceu em meio à crise do desabastecimento gerada pela greve dos caminhoneiros e à inabilidade do governo de a gerenciar.

Folclore não é alienação, e o tapete nos lembrava disso.

Havia também representações do Galo, o símbolo da cidade. Flores da Cunha ficou conhecida afinal como a Terra do Galo desde que, ainda em 1934, um suposto “mágico” enganou boa parte da cidade dizendo conseguir decapitar a ave e depois colar a cabeça ao corpo novamente.

O homem fugiu levando o dinheiro dos moradores, deixando para trás o galo mais do que morto. O apelido “Terra do Galo” era motivo de briga por parte dos moradores, o que só fez a brincadeira pegar de vez até ser finalmente abraçada pela cidade.

Confira abaixo nossas fotos.

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