5 mitos brasileiros que batizaram operações da Polícia Federal

Por Andriolli Costa

Tudo começou em 2002. Uma operação da Polícia Federal foi organizada para desmantelar o esquema do jogo do bicho em Mato Grosso, que era comandado pelo bicheiro Arcanjo Ribeiro. O nome do investigado e os animais da cartela foram suficientes para batizar aquela que seria considerada a primeira investigação registrada: Arca de Noé.

Desde então passou a ser uma tradição nomear as operações, inclusive como uma estratégia de divulgação das ações da PF para o público. Em matéria da Revista Piauí, sugere-se que o grande responsável pelo batismo das operações no início era o então diretor-executivo da Federal, Zulmar Pimentel – ironicamente afastado de suas funções por uma investigação de nome próprio; a Navalha.

Como não poderia ser diferente, o folclore brasileiro serviu de inspiração para diversas ações da PF. Neste post, vamos conferir algumas delas e buscar entender qual a relação entre a investigação e o mito. Assim, poderemos entender qual característica dos nossos seres folclóricos mais se destaca no senso comum. Confira abaixo!

1)

41811686_2110536515632451_7347411711592235008_n.jpg

Operação Curupira (2005)

Deflagrada em Cuiabá/MT, a operação prendeu mais de 80 pessoas em 2005. Dessas, quase 60 eram funcionários do Ibama. A quadrilha, que já atuava há 14 anos, era composta também por empresários madeireiros e despachantes especializados na extração e transporte ilegal de madeira, que era exportada principalmente para a China. Levantamentos dizem que o volume de madeira ilegal transportado pelos integrantes da quadrilha, avaliado em R$ 890 milhões, daria para encher 66 mil caminhões, que, enfileirados, atingiriam a distância entre Salvador e Curitiba. (fonte)

Operação Curupira (2018)

Em fevereiro a PF realizou a operação ‘Curupira’ contra suspeitos de pescar e vender peixes de forma ilegal durante o período da piracema e de caçar ilegalmente no interior do estado. Durante a ação foram encontrados peixes congelados e até um crânio de jacaré. Os casos se concentram na região de Miracema do Tocantins e Palmas. Mais de 60 agentes da PF cumpriram os mandatos. A Polícia diz que teve acesso a imagens de pescadores e caçadores exibindo os animais mortos como troféus. (Fonte).

Por que Curupira?

Ente protetor das matas, o Curupira é sempre tido como guardião da natureza. Na operação de 2005 temos a sua relação com a ação ilegal madeireiros e na de 2018 com a de caçadores, ambos botando em risco a fauna e flora local. Uma de suas atribuições seria a de verificar se as árvores permanecem firmes em suas raízes e de castigar aqueles que violam a mata sem pedir permissão e sem seguir o código de conduta de matar apenas para alimentação própria.

2)

41900321_226290471576696_4046819629123764224_n.jpg

Operação Jurupari (2010)

Mais uma operação realizada no Mato Grosso, com 64 pessoas presas. A Jurupari buscava reprimir a extração, transporte e comércio ilegal de produtos florestais na Amazônia mato-grossense, principalmente aqueles provenientes de Terras Indígenas e Parques Nacionais. Dentre os presos, além do ex-secretário de Estado de Meio Ambiente, Luiz Henrique Daldegan, estavam madeireiros, proprietários rurais, engenheiros florestais e servidores da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema), responsáveis por produzir e aprovar licenciamentos e Planos de Manejo Florestal fraudulentos. Sete anos depois, algumas denúncias foram arquivadas por prescrição. (Fonte)

Por que Jurupari?

A relação aqui parece ser principalmente por conta do ambiente afetado pelas fraudes terem sido áreas indígenas. O Jurupari é um mito nativo que durante muitos séculos foi interpretado pelos colonizadores como o equivalente indígena do demônio cristão. Ao ponto em que o imaginário se transformou, dando a ele o domínio sobre os pesadelos.. Em verdade trata-se de um mito legislador que ensinava códigos de conduta que deveriam ser seguidos e eram transmitidos em rituais sigilosos de maturidade.

3)

41784514_1095667960608547_1304521085512843264_n

Operação Matinta Perera (2005)

A operação investigou envolvimento de auditores da Delegacia Regional do Trabalho (DRT) do Pará num esquema com empresários que tinha por objetivo fraudar as fiscalizações e evitar o pagamento de multas por infrações trabalhistas. Entre os detidos estavam sete auditores da DRT de Belém acusados de, em troca de suborno, alterar os resultados de fiscalizações empreendidas. Também foram presos dois intermediários do esquema – que cediam suas contas bancárias para os depósitos da quadrilha. Foram identificadas mais de 15 empresas que se beneficiaram do esquema

Por que Matinta?

O nome da operação é uma referência a uma lenda muito conhecida na Amazônia, sobre uma velha que se transforma em pássaro durante a noite e atormenta as pessoas com um grito estridente de seu próprio nome: Matinta Perera. Quem tem o infortúnio de cruzar com ela só se livra de uma maldição se pagar, no dia seguinte, uma oferta de fumo para a bruxa. Matinta tem poderes sobrenaturais e pode causar sérios prejuízos àqueles que não cumprem o prometido.

4)

41750536_2113071438947445_7323533033456271360_n

Operação Saci (2010)

Na operação, realizada em Vitória da Conquista no sudoeste da Bahia, foram fechados sete pontos de drogas e apreendidos cocaína, maconha, substâncias químicas, vários instrumentos utilizados para o preparo, embalagem e consumo da droga e 144 pedras de esmeralda provavelmente utilizadas para golpes e dinheiro. Na fralda de um bebê estavam escondidos 70 papelotes de cocaína e R$ 978,50 em dinheiro. Cinco crianças encontradas nos locais foram entregues ao Conselho Tutelar. (Fonte)

Por que saci?

A relação aqui parece ser com o saci e o uso de drogas, graças ao inseparável cachimbo do duende brasileiro. O artefato vem tanto de uma tradição africana e dos pretos velhos de senzala quanto da cultura indígena, onde o fumo, as ervas e o sopro são instrumentos ancestrais de pajelança e magia. Algo muito anterior aos cachimbos de crack e outras drogas que muitas vezes são comparadas ao fumo do saci.

5)

41730904_268037470716320_335646024825569280_n.jpg

Operação Boitatá (2017)

Deflagrada no Tocantins, a operação busca desenvolver ações estratégicas para conter os casos de violência e rebelião em presídios no Norte do país. Foi criada após os acontecimentos nos quais cem presos foram assassinados no sistema penitenciário dos estados do Amazonas (AM) e de Roraima (RR). (Fonte)

Por que Boitatá?

O próprio Conselho Nacional de Procuradores-Gerais de Contas esclareceu a escolha do nome. Boitatá, a serpente de fogo do folclore brasileiro, seria um mito que protegia a floresta dos incendiários. O objetivo seria então de evitar que esses “focos de incêndio” das rebeliões se espalhassem.

screen-shot-2015-06-17-at-9-29-11-am

Menção Honrosa:

A ideia para essa postagem veio ao descobrir sobre a existência do livro O Brasil na Rota do Tráfico Internacional de Animais Silvestres – A História da Operação Boitatá e a Serpente de Um Milhão de Dólares. O autor é Carlos Magno Abreu, então fiscal do Ibama que ajudou a PF em uma investigação para tentar resgatar uma jiboia albina com valor exorbitante que havia sido vendida para um criador de serpentes dos EUA pela ex-diretora do Zoológico de Niterói, Giselda Candiotto por R$ 500 mil.

Infelizmente, quando fui verificar a história, o único local onde a Operação é nomeada Boitatá é no livro de Carlos (escrito na forma de uma auto-entrevista feita com um repórter fictício). Em todos os veículos a Operação sempre foi chamada Lucy in the sky with diamonds, referência ao nome que a Jiboia recebeu lá fora: Princess Diamond. Como não foi possível verificar a autenticidade do nome Boitatá, fica aqui como mera curiosidade especulativa. (Fonte 1 / Fonte 2)

Anúncios

Uma resposta para “5 mitos brasileiros que batizaram operações da Polícia Federal

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s