Sacy e Cia. – Dalmo Belfort de Mattos (1935)

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Der naturen bloeme – Jacob van Maerlant

Dalmo Belfort de Mattos
Presidente da Academia de Letras da Faculdade de Direito de S. Paulo
Publicado no Correio Paulistano
Em 12/12/1935

– Sacy Pererê!…

O assobio ecoou penetrante, na escuridão de terrores pastosos. Nhô Juca apertou a barriga do tordilho. O chicote estalou. E os cascos tiniram nos pedruços, em rápida desfilada. Mas quando, na manha seguinte, Nhô Juca foi encilhar o animal abombado, notou que o alazão tinha os olhos mansos cheios de pavor e uma ferida vermelha no pescoço, avivando a marca de uns dentes finos e penetrantes. E o caboclo estremeceu involuntariamente, balbuciando o nome temido por toda a redondeza:

Il n’a plus qu’n seul pied et haut d’ne coudée,
ce gnome noir des bois et des carrefour hantés,
aux yeux de jade et aux lévrès d’amaranthe.
Son corps est bien celui d’un crapaud nouveau
que s’est développé sans en perdre la forme.
Son esprit enfanté a un soir de sabbat,
par la cerveau d’une sorciére hallucinée
cut reçu le baptême au bras d’un loup-garou,
au bénitler fangeux d’un étang plein de vase,
ou couvalent des víperes endormes.

Foi assim que o viu a objetiva gauleza de Charles Lucifer¹, o insirado autor das “Ballades brésiliennes”. Retrato de contornos poucos nítidos, para ser apreciado por leitores franceses, ávidos de cenários exóticos, dos países tropicais de “lá-bas”.

Faltam-lhe no entanto inúmeros detalhes. A leveza. A graça. A carapuça vermelha, que o sacy não pode perder. E que o escravizará aquele que lhe arrancar, num gesto de destreza.

Quanta emoção na caça ao perneta pelos redemoinhos da estrada, garotos empunhando peneiras velhas de cruzeta, o meio único de rete-lo entre as malhas desconjuntadas…

Falta-lhe o assobio agudo e zombeteiro, a espantar cavaleiros em meio dos varjões…

Origem do sacy
Ele é negro e retinto. Parece uma “cria” de senzala, bamboleando nas picadas, assombrando sinhôs moços nos atalhos transviados.

Nada lhe trai a origem amerindia: não se assemelha ao bugre manco, de um só pé com feridas nos joelhos, atarantando sertanistas nas alturas de Aquitauna ou nos ranchos do Arariguaba.

Tem uma individualidade bem caracterizada: foi ele o saperê das monsões; o taperê das grotas assombradas; o macachera do padre Simões de Vasconcellos, “aquele homem feio, de cabelos vermelhos”, a passear pelos sertões em companhia da mulher, preta e velha, – a tatamanhá – de que fala Bilac.

Depois, o preto velho foi vendido, no leilão do Valongo… E o sacy tornou-se o sererê que brinca, o saterê que arremeda, o siriri que provoca, o saperê, o pererê, o maty-taperê das taperas ermas, o Matinta Pereira das casas solarengas da Conquista…

Encarna-se aqui, no “diplopterus sevius”, resurge além na forma ladina de capeta e, talvez, resurja no corpo de Pedro Malasartes, o terrível vigarista dos séculos passados.

Emigra para o sul. Torna-se o “Generoso” dos fandangos das Missões. E aparece, inconfundível, sob a forma de “Negrinho do Pastoreio”. Aquele vaqueiro dos serros, – nume protetor de transviados e de coisas perdidas… Nume paulista, levado ao Viamão pelos “Voluntários reais de São Paulo”. E que hoje, os escritores gaúchos reivindicam como divindade autoctone, nascida nos “pagos” das fronteiras…

Sacy, nume brasileiro?
O trasgo buliçoso aparece nos cafezais de São Paulo, nos chapadões goianos ou vai assombrar os “retirantes” nas “ribeiras do Ceará.

Os folcloristas, na ância de brasilidade, ao darem com o mito, estremeceram de júbilo. Ai estava o gênio nacional, por excelência… O símbolo daqueles selvagens, de kanitar e batóque, que séculos antes haviam descido dos montes sagrados do Peru para a conquista da Terra das Palmeiras…

Cassiano Ricardo transformou-o no Martim Cererê, – escoteiro, jogador de futebol, quebrador de vidraças. O mais cosmopolita dos símbolos nacionais.

E ele foi aparecer, depois, nas páginas de Plínio Salgado, como protetor da nacionalidade, contra o imigrante invasor.

Nada mais falso, entretanto. O saci pererê não acompanhou as hordas tupis na arrancada do Oeste. É um tipo misto, esquisito e esquivo. Parece ora o índio tapuia. Que não atravessa os rios à semelhança dos aymorés ferozes, ou como os Gês do Madeira, que não sabem nadar.

E, ao deparar com as caudais instransponíveis, as suas artes tornam-se ineficazes e ele serve-se na piróga cabocla, que o jeca deixou abandonado à beira rio, deixando-a na outra margem a fazer água, quase alagada, devido ao peso excessivo e incrível de seu corpo minúsculo.

Tapui esquivo, aparece apenas entre os “goianás” de Piratininga, gente estranha que desconhece a “língua geral” e que mantém entre raças hostis usanças desconhecidas e costumes próprios…

Aparece depois entre os Guarani do Prata, fantasiado na denominação castelhana de Yati-Yaterê…

O saci deixou o sertão. O litoral não o conhece. E se foi entrevisto no “hinterland”, é que levaram-no as “bandeiras” paulistas de Raposo Tavares e Moreira Cabral…

O Troll
É possível mesmo que o saci pererê não seja exclusivamente americano. Talvez errem os que procuram filiá-lo ao Caipora. De resto, a crendice europeia apresenta-nos personagens identicas, no meso farandular de diabruras cômicas.

Plínio, o Antigo, nos fala dos sciápodos – anões de um pé só, desmesuradamente grande, a cuja sombra repousavam nas horas de mormaço amodorrante.

E além, na Escandinávia dos Vikings, aparecem os trolls – anões pernetas e vadios à borda dos fiords. Para enquadrarem os zotterais, gnomos errantes nos burgos rhenanos, denteados de ameias…

Simples casualidade, ditada pelo mesmo apetite do sobrenatural, como quer a escola antropofágica?

Não é a única dificuldade que encontramos no estudo do saci. De onde teria provindo o capuz encarnado, enfeito desconhecido pelos índios da América, e que não é encontrado nem mesmo entre as tribos totêmicas do Golfo da Guiné?

Provirá, talvez, da Frígia distante, de onde nos veio também a cruz de São Jorge, símbolo coevo de Thor, e atualmente do Reino Unido?

Pé de Garrafa e Cabeça de Cuia
O mito extravasou, porém, dos limites de São Paulo. Assimilou-se ao meio. Revestiu-se de formas dispares, num mimetismo de cores e de tons. E surgiu nos chapadões de Mato Grosso, revestido de folhas, a única perna terminada por um pé disforme, deixando nas areias pegadas redondas, nítidas, precisas.

É o “Pé de garrafa”, temor dos “capangueiros” e extratores de borracha no sertão dos Parecis…

Enquanto que, em Vila Velha do Poty, seis quilômetros além de Teresina, os práticos de bordo arregalam os olhos, vendo surgir borbulhante entre as águas – o Cabeça de Cuia – a boca disforme arreganhada num riso, o crânio achatado sobrenadando entre flores de espuma. Mito pouco conhecido no folclore do país – braços substituídos por nadadeiras, ágil e esquivo – misto de sacy e stormkarl das estepes lapônias, resto talvez das 60 fazendas de gado que o paulista Domingos Afonso semeou nos campos do Piauí…

E hoje, nos domingos ensolarados, o caboclo sai da “colônia” levando cuidadosamente a peneira velha de cruzeta e a garrafa preta – a mais escura que pode encontrar. Para, à tocaia, nas encruzilhadas, horas a fio, esperando que um torvelinho traga consigo o saci. O saci que vai aprisionar e que o servirá como escravo, tornando menos penosa a luta fatigante de todos os dias…

 


Nota do editor:

¹Charles Lúcifer não tinha nada de gaulês. Era o pseudônimo do escritor capixaba Tavares Bastos.

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