Notas de viagem de Oswald de Andrade Filho

Filho do escritor modernista Oswald de Andrade, era conhecido também como Nonê de Andrade. Pintor, escritor, jornalista e música, esteve envolvido com diversos movimentos culturais. No texto abaixo, publicado no Correio Paulistano em 07 de maio de 1950, ele traz algumas versões curiosas dos mitos brasileiros. Chama atenção também a forma como trata os informantes: dotados de “cultura nula” e dos quais duvida até da idade que alegam ter. Confira o texto abaixo.

Por Oswald de Andrade Filho

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Nonê de Andrade, por Anita Malfatti

As presentes notas foram tomadas durante uma viagem que fizemos a uma fazenda nas proximidades de Águas de São Pedro.

Os informantes são: Nhô Bastiãozinho, homem de nível cultural nulo e que pensa ter 50 anos; nasceu na região onde mora. O segundo, J… Manuel Alves, pensa ter 62 anos e mora no local há mais de seis anos.

Conversamos com os mencionados informantes na casa de um dos trabalhadores da fazenda, sendo que as histórias nos foram contadas sem restrição nem constrangimento.

Mãe do Ouro
É uma pomba que mora sempre na terra. Se benzerem ela, ela mata a pessoa que benzeu (conforme o jeito de benzer). Se benzer com oração, ela dá riqueza, mas acaba tudo em sangue. Se benzerem com faca, fazendo o sinal da cruz por baixo dela quando ela passa, ela cai na pessoa e crava de ouro. A pessoa morre.

É a mesma coisa que uma lua cheia.

Um dia, quando uma Mãe do Ouro passou, uma véia viu ela. No outro dia a véia foi tocá uma vaca e viu que o paredão da serra estava virando ouro. Foi correndo buscar um baláio e quando voltou todo ouro tinha desaparecido.

Saci
“É um bichinho atoa que deixa a gente esquecido na cama Quando está brincando no terreiro, forma um purgueiro danado na cama da gente”.

Assombração
“De tardezinha, vinha a avalo um homem sem cabeça e um animal também sem cabeça. Fomo vê e não tinha rastro nenhum. Mais adiante eu escutei ele gritando com o gado.

Não conheci ele e nem pude saber quem era e nem o que é. Gente não era. Com certeza deve ser assombração.

Automóvel assombrado
“Vinha de Santa Maria quando acendeu uma luz atrás de mim, depois acendeu adiante de mim. Assim nós viemos nesse jogo de empurra até as Três Cruis. Ali ele sumiu. O automóve mesmo eu não vi, só vi a luz”.

Visão
“No caminho do Zé Elias, eu vi dois cortadores cortando pau com machado. Vi quando o pau caiu, mas não vi os dois homens.

Trecho de Reza
Missão de Ramos
Três missa do Natal,
Livrai dos coisa ruim batizado,
e o que tá pra batizá.

Informante: Nhô Lico Albino. Mora num sítio nas proximidades da fazenda acima mencionada. Nível cultural nulo. Aparenta cinquenta e poucos anos. Vive isolado num rancho. Há muito tempo não toma parte em festas, mesmo religiosas, pois acha que hoje não se sabe mais cantar. É rezador de “incelencia”. Apesar de nossa insistência, recusou-se a nos dar qualquer exemplo dessas rezas.

Diz nunca ter visto coisa que o assustasse. Tudo que viu até hoje são as “maravia da natureza”.

Mãe do Ouro
“É uma pata de ouro que vai de um encanto a outro e que não faz mal a ninguém. Os antigos diziam que eram almas de gente que não era batizada. Quando chegava na casa dela (mora sempre em tocas na serra) dava três estrondos que é o encanto dela. Depois de 30 dias, saia em forma de lagarto que voava e vinha amarelando. Sempre de noite. Ela morda onde tem ouro só.

Os três estrondos só se ouvia quando ela abria morada nova.

Currupira
“Rebenta pedra – nós via uma cidadezinha corrê por dentro d’água. Carrega criança, mora num buraco. Passa como Deus deixou. O rastro parece de uma criança. Come cebola roxa”.

O Boi
“Contam que ele tinha uma novilha na papada”

Brilhante
“Encanto que Deus deixou no mundo. Se puder dentro de um prato d’água, não precisa lamparina. Para ele não fugir, precisa batizar”.

Cururu
(Dança de bate-palma e dança do bate-pé)
“Antigamente cantavam com “segunda” em volta do altar. Enquanto isso, tinha gente que ia cumprindo promessa. Um ia de vela na mão, outro ia com água na cabeça.

Hoje, com essa moda de cantar, é até perigoso. O santo pode não gostar e abrir o chão e a gente sumir. Depois de cantarem o Cururu eles pediam licença pro santo, cantavam moda bonita”.

Alguns exemplos de Cucuru
“Abre a porta do céu
E alegou-se o mundo inteiro
Quero pedir licença
Para São João verdadeiro

Vamo certo rapazeada
Nesta carreira do a
São João é santo de massa
Perigoso de quebrá.

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