Sobre abóboras e peixes

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Imagem: Jonas e a Baleia, por Pieter Lastman, 1621

Por Andriolli Costa

Quando era pequeno ouvia de minha avó muitas histórias de peixes devoradores de gente. A mais famosa era sobre o Jaú. Dizia ela que pelos rios de Mato Grosso do Sul, havia versões gigantes desse peixe, que normalmente já pode chegar a até 1,5 m de comprimento. Eram tão grandes que podiam engolir crianças pequenas com uma bocada só!

Quando havia um peixe monstro desses por perto, ela dizia, só havia um jeito de matá-lo: ferver uma abóbora inteira bem quente e lançar ao rio. A criatura voraz abocanharia a abóbora de uma vez achando ser uma presa e queimaria por dentro até morrer.

Fiquei muito surpreso quando, lendo O Xangô de Baker Street, de Jô Soares, encontro um relato muito parecido! Dizia ser esta uma técnica tradicional de matar tubarões no Recife.

“[Holmes] estava absorto, concentrado nos afazeres dos pescadores de tubarões, que rodeavam o Aquitania em suas pequenas embarcações. Tinham um sistema de pesca invulgar, Traziam, nos botes, caldeirões de ferro onde ferviam abóboras enormes. Assim que as abóboras ficavam escaldantes, lançavam-na no mar.

Os tubarões, como focas amestradas, recolhiam-nas em suas goelas, engolindo sem mesmo mastigar, e mergulhavam. O calor insuportável das abóboras explodia as entranhas dos animais, que voltavam à superfície, boiando, já mortos. Os pescadores, então, recolhiam os imensos peixes em seus barcos. 

Para eles, toda essa operação era monótona. Tratava-se de uma técnica primitiva e eficaz, passada, havia gerações, de pai para filho. Trabalhavam em silêncio, em respeito, talvez, às caças dos bichos que matavam”. 

A técnica, pude averiguar, tem um lastro folclórico muito forte. Paiva Carvalho, ao comentar o Dicionário dos Animais do Brasil, publicado pelo naturalista Rodolpho von Ihering em 1940, menciona o mesmo modus operandi no verbete dedicado ao Tubarão Anequim. Sendo muito vorazes, escreve, “engolem com rapidez abóboras quentes que os marujos lhes lançam para caça-los. Queimados internamente, morrem e ao darem à tona são apanhados”.

Há ainda uma referência nas pesquisas de memória caiçara em Angra dos Reis, feita por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense. Nela conhecemos seu Valdemar, um dos mais idosos pescadores da praia de Provetá. E ele relata:

Nos seus tempos de jovem, portanto de barcos precários, para poderem se deslocar pelo mar, certas vezes, era necessário se armarem com abóboras quentes, que eram cozidas inteiras pelas suas esposas. Depois de cozidas eram enroladas em lençóis para preservarem a temperatura para, em caso necessidade, serem atiradas nos peixes grandes que se aproximavam dos barcos pequenos e frágeis.

Já conhecia essa técnica? Tem alguma história assim? Comente conosco!

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