“No Brasil, meu pai pagava para ser lido”, critica filho de Mário Souto Maior

mariosoutomaior

Por Xico Sá
Publicado na Folha de S. Paulo
Em 01/12/2001

Morreu em Olinda, no último domingo, de complicações pulmonares, urinárias e de tristeza, como lembra o filho Jan, o pernambucano Mário Souto Maior, 81, o mais representativo etnógrafo brasileiro da era pós-Câmara Cascudo (1896-1986).

O autor do “Dicionário do Palavrão“, espécie de lado B do Aurélio, bancou praticamente do seu salário de funcionário público da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, a pesquisa e produção de 80 livros que formam um “museu de tudo” dos costumes e sabedorias populares.

Souto Maior pagou para escrever e distribuir seus livros em bibliotecas de todos os Estados do país. Seguia um conselho do mestre Câmara Cascudo, que o aconselhou a escrever com a grandeza e perspectiva de quem escreve para o “século 50 e tantos”.

Em uma das suas últimas conversas com este repórter, há um mês, o etnógrafo se queixava, com a graça nietszchiana – característica nordestina por excelência-, de quem ironiza o próprio infortúnio: “A sede editorial é grande, porém o dinheiro de ‘barnabé’ anda curto e a vida parece breve, meu filho”.

Não esquecia de cutucar, nessas ocasiões, o governo do “intelectual”, ou do “príncipe”, como se referia ao presidente Fernando Henrique Cardoso, seu “patrão” no serviço público.

“O dinheiro até que tem dado para tomar água de coco, mas preciso publicar e espalhar meus livrinhos nas escolas públicas”, afirmava.

Chateado com a tristeza do pai, Jan, responsável pela divulgação da vasta obra do etnógrafo via internet (criou e administra o sítio soutomaior.eti.br), fez um desabafo ao sentir que agora, depois de morto, o etnógrafo tende a ser celebrado pelo poder público: “Homenagens? Para quê? Não serão aceitas”.

Segundo Jan, as autoridades pernambucanas, depois da morte do pai, apareceram de forma muito elegante, “na hora dos flashes e na hora de dizer as frases feitas”, mas foram incapazes de compreender a importância da sua obra enquanto vivo. “Felizmente eu não preciso da literatura ou da pesquisa para viver, trabalho com informática. Mas tenho vergonha de responder um e-mail de um pesquisador estrangeiro e contar que no Brasil um homem como meu pai pagava para ser lido”, disse.

Aldeia
A obra de Souto Maior dá sequência à linha de Câmara Cascudo, sempre marcada pelo ensinamento do velho Leão Tolstói – quanto mais enfiado no mundo da sua aldeia, mais universal é o tal do bicho homem.

Pernambucano dos cafundós de Bom Jardim, o etnógrafo passou a vida como apanhador de cacos e discursos populares.

Com um agravante, segundo os amigos mais chegados: o homem reuniu um dicionário de 3.000 palavrões e era incapaz de gastar um desses verbetes até mesmo na hora trágica de uma topada em uma pedra; o homem fez o “Dicionário Folclórico da Cachaça”, em 73, e nunca chegou em casa sem acertar a fechadura.

Seguia, certamente, nos xingamentos e na pinga, a escola de Gilberto Freyre, a quem auxiliou por muitos anos na Fundação Joaquim Nabuco: “Serei eu contraditório? O mais contraditório dos homens”, recitava o autor de “Casa Grande & Senzala“, em um dos seus raros poemas.

Outro amigo da mesma repartição recifense, o poeta Jaci Bezerra, admirava-se da capacidade de Souto Maior brincar com a “Mulher da Foice” -uma das 250 expressões colhidas pelo etnógrafo para o livro “A Morte na Boca do Povo” (74). As locuções debochadas, de troça ou de pouco caso, lembra Bezerra, são uma forma de ironizar a própria cerimônia de adeus.

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