Almoço de Semana Santa na América Latina tem porquinho da índia e até jabuti

MARCOS ZAPATA

Por Andriolli Costa

Para muita gente, o típico almoço de Sexta-Feira Santa só tem uma estrela: o peixe. Não pode acaso, para muitas famílias, é o único dia que o pescado toma o lugar das outras carnes ao longo do ano inteiro. “Eu acho que esse negócio de não comer carne durante a Semana Santa foi invençãozinha de São Pedro, que era pescador…”, brincava um informante do folclorista Mario Souto Maior.

Fato é que durante muito tempo quem seguia a risca a fé católica abolia o consumo da carne vermelha durante todos os quarenta dias que compõe a Quaresma.  Em respeito ao sacrifício de Jesus, o fiel deveria se recolher em casa – uma forma de se manter a salvo dos lobisomens e assombrações que ficam a solta. Também não deveria cantar, assoviar e muito menos dançar para evitar ofender o nazareno. Não se podia comer doce nem chupar cana, pois durante a semana o Senhor só estava bebendo fel.

Os interditos foram por fim sendo abrandados até se concentrar apenas na Sexta-Feira da Paixão, e especialmente na recusa à carne vermelha. Muito por tradição portuguesa se espalhou pelo país a bacalhoada, mas o pintado, piabas e traíras cumprem muito bem o seu papel na mesa dos comensais.

Só que a cultura popular é muito mais plural do que esse retrato panorâmico pode deixar transparecer. Cada região possui seus próprios pratos que muito mais que qualquer peixe não podem faltar no almoço destes dias santos.

Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, o carro chefe é a sopa paraguaia – uma torta salgada de queijo, cebola e milho. Durante muitos anos esse foi o almoço de minha família, servido com um nada evidente acompanhamento de arroz e feijão. No Espírito Santo o sucesso é uma outra torta, a Capixaba, que é feita com frutos do mar. Camarão, sururu e siri desfiado compõe o recheio, que leva ainda palmito,

No Ceará é o pão de coco que toma a frente, superando inclusive o pão francês nas padarias do estado. O sucesso é tanto que várias versões foram criadas para atrair todos os paladares, incluindo uma low carb.

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Pastel de Morrocoy, o jabuti, tradição venezuelana

A variação da mesa se torna ainda maior quando observamos os demais países da América Latina.  Na Venezuela a Capivara – por viver na água – é considerada mais “peixe” do que carne vermelha, por isso se tornou o prato principal da sexta-feira santa, com criadouros especializados na criação, abate e preparo do animal, conhecido por lá como Chiguire, que é servido seco e desfiado.

Outro prato típico da quaresma é o “pastel de morrocoy”, que é na verdade um empadão feito da carne de uma espécie conhecida no Brasil como Jabuti Piranga. A tradição também vem do período colonial, como uma forma de “burlar” o interdito da carne da religião católica imposta aos nativos e acabou se tornando costume.

No Peru, por outro lado, temos como animal típico da semana santa o porquinho da índia, chamado Cuy. O prato é tão comum que você encontra várias pinturas barrocas que retratam a Santa Ceia com o porquinho ao centro. Lá o normal é servir o cuy chactado, assado inteiro, com cabeça e tudo.

O prato preparado dessa maneira não é tão comum na capital, Lima, mas ainda pode ser encontrado em certos restaurantes no centro. Já no interior, especialmente em Cuzco, existem inclusive festivais gastronômicos dedicados ao consumo do cuy.

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Cuy inteiro em Lima, no Peru

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