O Folclore do Chimarrão (1966)

Dentro da formação étnica brasileiro, o gaúcho é, talvez um dos seus tipos humanos mais definidos. Gaúcho é o homem do pampa, mistura de português e espanhol com índias. Originalmente, vivia na campanha e era conhecido, simplesmente, como gaúcho-dos-campos. Depois, adquiriu o termo a generalidade de filho do Rio Grande do Sul: porque aqui o homem era o que se dedicava à pecuária, era o que vivia nas coxilhas, ponteando gado, domando potros, livre e herói pela sua coragem.

Com o desenvolvimento dos meios de comunicação e com a era do audiovisual, o gaúcho passou a fazer parte dos roteiros de turismo, como um símbolo de uma região que teve a ousadia, até, de tornar-se país independente. Os tempos mudam, entretanto. E se hoje o gaúcho se acomodou nas cidades, trocou seu pingo por um carrinho nacional e cria seu gado seguindo as técnicas modernas, não é verdade que se tornou menos gaúcho. Somente perdeu quase todos os seus símbolos. Um deles talvez o mais significativo de todos, continua. Gaúcho que se preza continua fiel ao seu chimarrão.

Temperamento

Cantado em décimas, trovas e quadrinhos, o chimarrão identifica-se, por si mesmo, ao temperamento gaúcho. Talvez seja o mais antigo nas tradições gauchescas, e o mate-amargo serve o homem do Rio Grande desde que eram desconhecidas as atuais noções de Estado e sempre foi o companheiro das alegrias pouco expandidas, das tristezas abafadas, dos amores arrebatados de um povo hospitaleiro. O mate-chimarrão tem segredos para ser feito, segredo que pai passa para filho. Para ficar bom, tem de ser despachado e roncador, a erva tem de ser especial, a temperatura deve beirar os 80º, a bomba deve ser de metal branco ou prata. Acima de tudo, o chimarrão tem de ser tomado em grupo, porque “por boa que seja a erva, nunca sai bom o mate tomado só”.

Mate e Feitiço Guarani
A história da erva mate é a própria história da colonização hispano-americana. Começa com o Paraguai que, em 1554, tinha como representante da coroa espanhola o General Domingo Martínez de Irala. Este enviou soldados às terras do Guaíra para desbravar e conhecer as riquezas da região. Lá, os soldados dos reis católicos encontraram 300 mil índios, os mais hospitaleiros, fortes e alegres indígenas conhecidos.

Além de costumes diferentes de outras tribos, tinham o estranho hábito de tomar uma bebida feita de folhas trituradas de erva num pequeno porongo, e através de um canudo de taquara. Na ponta desse canudo havia um traçado de fibras que impediam fossem ingeridas as partículas da erva. Os Guarani da região de Guaíra chamavam a sua bebida de caá-í.

A lenda indígena contém o humanismo e a solidariedade do próprio mate dos gaúchos. Contavam os Guarani que Tupã concedeu o uso do caá-í aos pajés da tribo, a fim de que esses recebessem a sua inspiração e proteção. Em um tempo de guerra, a bebida foi concedida aos guerreiros para que esses se inspirassem na luta. Depois, o uso generalizou-se.

Como lembrança de uma viagem que durou quase um ano, os soldados de Irala levaram a erva para Assunção onde, em pouco tempo, tornou-se a bebida mais difundida e com um comércio forte. Como as próprias expedições dos soldados de Espanha, o mate conquistou Buenos Aires, estendeu-se às margens do rio da Prata e transpôs os Andes. O chimarrão indígena foi integração nas colônias ibero-americanas.

Mas havia a Inquisição e os padres sabiam da origem pagã da erva. O mate foi banido por vir de um falso deus. Talvez, o mate tenha servido de pretexto para a primeira guerra fria em América: os padres contavam que os índios punham veneno na erva por eles colhidas em Guaíra, sob o chicote de Irala que gostou da riqueza verde que a erva trouxe à sua colônia.

Quando Fernando Arias de Saavedra, ministro do rei espanhol, chegou à Assunção, a erva-mate teve novo alento. Com pena dos ervateiros, Saavedra impôs novas condições na vida que levavam e fixou um máximo de arrobas para comercialização. Na mesma época, descobriu-se que a erva curava inchações, feridas e contusões, quando usada como emplastro. Ingerida, era ótima para diarréia e, mastigada, curava dor de dentes.

Com o apoio oficial, a erva-mate entrou nos salões de aristocracia e serviu até de moeda corrente. Conta Barbosa Lessa, em ensaio que escreveu sobre o chimarrão, que “cada arroba de erva beneficiada valia um peso oco; e três desses pesos correspondiam a um peso de prata”. Realmente, a erva-mate foi o dinheiro mais utilizado na colônia espanhola durante o século XVII.

Nos Sete Povos das Missões, o padre Burges, superior dos jesuítas na América, recomendou o uso da erva para combater bebedeiras. E foram os jesuítas que cultivaram, pela primeira vez, a erva-mate. Até aquele momento era colhida em ervais nativos e, em Imembuí, atual cidade de Santa Maria, nasceu o primeiro pezinho de erva cultivada. Em 1638, quando os bandeirantes chegaram às Missões, sentiram a mesma curiosidade dos soldados de Irala. E prontamente levaram para São Vicente o uso do mate.

A procura da erva generalizou-se mais ainda. Fazia parte, agora, de dois reinos. Espanha e Portugal integraram-se com a erva-mate. Os tropeiros que compravam mulas em Campos Gerais, para lá levaram o mate. Descobriram-se ervais nativos em Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina. Por ser mais saborosa devido a condições climáticas, o Brasil começou a negociar sua erva com as colônias do Prata. Em 1755, o mate é enviado à Europa, juntamente com os utensílios que índios e “gaúchos do campo” utilizavam-se para tomá-lo. Em 1820, escrevia Auguste de Saint’Hilaire:

— O uso dessa bebida é geral aqui. Tomara-se ao levantar da cama e, depois, várias vezes ao dia. A chaleira de água quente está sempre ao fogo e logo que um estranho entra na casa, se lhe oferece o mate.

Sain’Hilaire escreveu essa nota quando estava no Rio Grande do Sul. O costume continua inalterado até o presente.

Amargo-doce é chimarrão
Na roda do mate há sempre alegria e muitas histórias para contar. No interior, contam-se os causos da peleada, da doma do dia, da marcação. Contam-se histórias de assombração, discute-se a política, fala-se de gente. Na Cidade, comenta-se o preço das coisas, a condução lotada, o fato ocorrido no escritório. Mas a roda é sempre a mesma. Eugênio Severo, poeta gaúcho, disse que:

Enquanto a gente mateia
E acende um pito palheiro,
Quanta história vem, ligeiro,
À roda do chimarrão!
Se a cousa é mesmo de graça
Se solta cada risada,
Como gaita debochada
Em polca de relação.

Chimarrão vem do espanhol, cimarrón, e significa xucro, bárbaro, rude. E rude é a própria bebida dos gaúchos. É amarga-doce, e consiste na infusão da erva-mate sem mistura dentro de um porongo – que os gaúchos chamam de cuia – e que é sorvida dentro da bomba, canudo com 20 a 30 cm, de prata ou metal branco, achatada no bocal e com um bojo de furinhos no outro lado. Desses instrumentos depende o sucesso do chimarrão e o homem do Rio Grande do Sul, para comprá-los, examina com tanto cuidado como a moça ao comprar seu vestido. E até nos aviamentos do mate o gaúcho gosta de mostras as qualidades de trovador, pois:

“Quanto os furos de uma bomba
calibre não muito estreito;
do contrário, se o sujeito
se prende louco a chupar,
quando menos se dá conta,
de tanto que chupa e chupa,
o pobre diabo, num upa,
pode do avesso virar!”

Chimarão dia-a-dia do gaúcho

O Rio Grande do Sul produziu, em 1963, quase 26 milhões de quilos de erva-mate. O consumo, controlado pelo Instituto Nacional do Mate, foi de 25,8 toneladas. Isto sem contar os ervais nativos e a erva que vem de Santa Catarina e Paraná. Porque o gaúcho toma mate de manhã cedo, antes do almoço, depois do almoço, à tarde, depois do jantar e, às vezes, antes de dormir. O uso veio da grande quantidade de carne comida pelos homens do campo e o mate é corretivo. Mas também é vício, suavizado como medicina caseira, porque na infusão se misturam outras ervas que curam fígado, estômago e intestinos.

O guri aprende a tomar mate mal saído das fraldas. Depois, é promovido a cevador – aquele que serve o mate. E para fazer o chimarrão, a tradição é tão grande como a própria erva. Diz Glaucus Saraiva:

Palmeio o velho porongo
derramo a erva com jeito
encosto a cuia no peito
batendo a erva prá um lado;
com os quatro dedos curvados
formo um topete bem feito.

Com um poquito de água morna
bem devagar despejado,
tenho o amargo ajeitado
que ponho a um canto pra inchar;
e espero a água esquentar
pitando o baio sovado.

O primeiro mate é cuspido fora, para tirar o pó que sobe à bomba e esquentar a erva. Mesmo que o gaúcho tenha à sua roda de chimarrão a visita mais importante, o cevador sempre toma o mate em primeiro lugar. Nesse ato, ainda está a ideia do veneno lançada pelos padres espanhois. E dentro da superstição, se o chimarrão tiver quebranto, sai a feitiçaria cuspindo-se fora o primeiro mate. Isso faz parte da tradição, tanto que Martin Fierro ouviu de um ancião: “Hermano, le han hecho dano, y se lo han hecho en un mate”.

Para o gaúcho, todas as decisões importantes foram tomadas junto com o chimarrão. Com ele, dá vasão ao seu humorismo e compara todas as coisas ao seu mate. Diz, por exemplo, que casamento é que nem mate servido para visita de cerimônia: a gente tem de acompanhar e aguentar até o fim, mesmo depois de enfarado. Diz, também, que não se deve casar com moça muito nova, porque é “como mate com cachaça: embebeda ou estraga o estômago”. No ato de tomar chimarrão, vai também a honra e a hospitalidade do gaúcho. Nunca se deve agradecer um mate, é sinal que não se quer mais. E quando se agradece depois de tomar o primeiro, é desfeita enorme para o dono da casa.

Mas se o dono da casa, na hora de a visita ir embora, disser: “Tome mais um mate”, é sinal de bem-querer e o homem está pedindo para a visita ficar mais um pouco. Dentro dessa tradição – que ficou até no gesto de estender a cuia, porque se entrega o mate só com a mão direita – está o âmago e a essência do gaúcho. Casmurro e fechado, até conhecer as pessoas. Depois, hospitaleiro e alegre. Gaúcho que sabe ser amigo e sabe conformar-se. E que explica, como causa da evoluções dos tempos que lhe deixou apenas o chimarrão como prova de sua raça, com a filosofia popular do Rio Grande:

— Não há mate que não se vire, por melhor erva que tenha.

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