[Clipping] Universo de Monteiro Lobato é recriado por fãs ilustres

Visconde, por Janaina Tokitaka

Publicado no O Globo em 14/07/2018

Com ideias que parecem saídas da cabeça privilegiada de Emília, o universo do escritor é virado de pernas para o ar por fãs ilustres de seus personagens imortais.

CONCEIÇÃO EVARISTO, autora do romance “Ponciá Vicêncio”

“Das personagens de Lobato, me apropriaria de Nastácia. Seria uma personagem com dotes maternais, com capacidade de guardar os outros em si. Uma conselheira, ‘uma mais velha’ que tivesse influência na própria Dona Benta. Entretanto, não seria passiva às agressões das crianças, como a original de Lobato, personagem dominada por todos e sobretudo por Emília. Livraria Nastácia do imaginário da mãe preta que compõe a personagem, aquela que a escravização de africanos nas Américas permitiu criar. E daria a ela a possibilidade de completar seu ato de criaçãono que diz respeito a Emília. Seria ela que daria à boneca o dom da fala.”

RODRIGO SANTOS, autor do romance “Macumba”

“Gostaria de mostrar a continuidade da vida do Pedrinho. Ele cresce, vira um empresário em São Paulo, exemplar típico da ‘selva de pedra’. Já grisalho (jovem idoso, com um papo de 50 anos), tem que voltar ao Sítio para fazer um inventário. Chegando lá, afogado em lembranças de infância, ele acha uma pequena arca e, dentro dela, o Visconde. Juntamente com Emília, eles partem em busca dos outros personagens. Tenho outras ideias também, como histórias de terror com a Cuca. Uma parada de magia, como ela ser filha da Nastácia, às voltas com uma maldição.”

BABY DO BRASIL, cantora e compositora de “Emília (a boneca gente)”

“Lobato merecia um musical para rodar o país e tocar a criança que existe em nós. Seria uma honra se eu pudesse fazer as músicas, mas, não tem jeito, também ia querer atuar. Quando estávamos conversando sobre o programa (o especial infantil ‘Pirlimpimpim’, que a Globo exibiu em 1982), desatei a falar, e o (diretor Augusto César) Vannucci disse: ‘A Emília é ela!’. Nunca gostei de fazer música por encomenda, mas quando fui convidada não tive dúvidas, porque aquela Emília eu conhecia bem. Fui dormir pensando nela e acordei de madrugada com os versos prontos. Aquela canção estava muito em mim.”

Emília, por Juliana Tokitaka

LUCIA BETTENCOURT, autora do livro de contos “A secretária de Borges”

“Faria mudanças circunstanciais: costurar um pouco a boca da Emília, por exemplo, para ela não ser tão ofensiva em nossos tempos politicamente corretos. Talvez em minha releitura de Lobato já não tivesse mais nem Dona Benta, nem Tia Nastácia. Seria uma Dona Lúcia, agora avó, com um sítio moderno, em luta contra sementes transgênicas, tentando uma agricultura orgânica. Emília, que tinha virado gente, fez carreira política, e ajuda sua grande amiga. Eu me sinto a própria Narizinho, que, além de tudo, se chama Lúcia, minha xará!”

SIMONE CAMPOS, autora do romance “A vez de Morrer”

“A série poderia ser adaptada para a ficção científica. O papel da mágica e da mitologia nos originais — o pó de pirlimpimpim, as varinhas mágicas, os santos — seria deslocado para a química, a física e a engenharia. Emília e Visconde seriam robôs steampunk — ela com papel mais (anti)social, ele, mais enciclopédico. Dona Benta seria a cientista que criou os dois como experimentos, em colaboração com Tia Nastácia, que poderia ser uma alquimista. Pedrinho poderia ser um craque em mecânica e engenharia. E eu ainda apostaria em uma adaptação caprichada para algo como um jogo virtual.”

LUIZ ANTONIO SIMAS, autor do livro de crônicas “Coisas Nossas”

“Os personagens embarcariam no pó de pirlimpimpim, que transportava os personagens para qualquer tempo e espaço, e visitariam novas paragens: grandes reinos africanos, como o do Mali de Sundiata Keita, o imperador capaz de arrancar do chão um baobá e impressionar Pedrinho, civilizações pré-colombianas, amazônicas etc. Aprenderiam que a fabulosa cultura helênica, que Lobato tanto amou e difundiu, é apenas mais uma; que não existe universo, mas pluriversos, diversos, sofisticados, instigantes.”

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