O Cabeça de Cuia – Relato publicado em 1901

Estátua do Cabeça de Cuia

Fonte: O Nortista, 1901

Reza a tradição uma lenda bem curiosa na capital do Piauí. É uma delícia dos velhos e um temor religioso das crianças que ouvem-na por entre a modorra das noitadas cheias de tibieza, quando o pálido crescente da lua faz relampejar de raios as sonolentas águas do Parnaíba. Reza a tradição que no lugarejo Potí Velho, uma espécie de aldeiola meio abandonada, cujas casas esboroadas pela ação plúvea das águas atestam uma florescência pesada, houve outrora uma pequena família cujo arrimo era um rapaz pescador.

Aconteceu que uma vez o rapaz voltou da pescaria impressionado e macambuzio. Atirou a um canto o seu arpão, a sua tarrafa, os seus anzóis e uma cambada de curimatãs e, como fosse hora de jantar, sentou-se na esteira, no meio de sua família e começou a comer.

A refeição versava sobre carne de vaca. Encontrando um enorme corredor (osso da canela do boi) que devia bater para tirar o tutano, mas como na ocasião não tivesse um lugar apropriado, procurou fazê-lo na cabeça de sua velha mãe. Esta, então, enfurecida, foi para o terreiro do quintal e rogou-lhe uma praga, amaldiçoando-o também.

Era meio dia, e o sino da igreja repicava apressadamente. A velha, de joelhos na areia ardente do terreiro, batia nos peitos e pedia ao Santíssimo Sacramento a punição do amaldiçoado Dizem que o remorso apoderou-se do coração do filho desnaturado, que correu doidamente para a foz do rio Potí e ali lançou-se e desapareceu nas águas. Desde então, nas águas do Potí e nas águas do rio Parnaíba, anda errante com uma enorme cabeleira de lodo assentada sobre uma cabeça de cuia, d’onde lhe vem o nome.

Aparece nas grandes cheias e é mais terrível nas noites de sexta-feira. Só se quebrará seu encanto depois que ele houver comido sete Marias Virgens.

As amas, acalentadeiras de crianças, fazem medo a estas com a aparição do Cabeça de Cuia, que é uma espécie de Matintaperê do Pará e Amazonas, porém mais valente, mais traiçoeiro e mais terrível.

Há muitos velhos ouvi conar a história com todos os visos de verdade, dizendo-me alguns que tê-lo visto muitas vezes e que já se acha muito envelhecido e descontente por não ter filado uma só Maria.

As crianças e mesmo muitos homens temem o lendário ente que serve de entretenimento nas noitadas cheias de tibieza, quando o pálido crescente da lua faz relampejar de raios as sonolentas águas do Parnaíba.

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