Matintas, botos e mães. Relatos folclóricos do Pará (1883)

Transcrição de trechos do artigo Tradições, crenças e superstições amazônicas, de José Veríssimo, publicado na Revista Amazônica n. 6, de 1883.

O selvagem brasileiro, quer a grande família Tupi-Guarani, quer a tapuia, estava, em religião, no período fetichista, quando teve lugar a descoberta. Possuía apenas um supernaturalismo ou animismo inicial, vago, sem crenças definidas. Ainda aos mitos, que o medo, a má observação dos fenômenos, a explicação por força mal dirigida das causas, faziam nascer no seu espírito infantil, não revelava votar outro culto senão o do terror, esse mesmo momentâneo, pois que cessada a causa dele, tratava-os com profunda indiferença.
(…)

MATINTA PEREIRA

Dos pretentidos deuses Tupi, nenhum sobrevive na imaginação desta gente a não ser o Jurupari, o Curupira e o Matintaperê, já confundidos com as crenças católicas e todos como gênios malfazejos. O primeiro é, para ela, a forma em que se incorporou o demônio católico; o segundo tem o papel menos bem definido, mas é ainda um demônio, e o terceiro, uma espécie de duende, tão vago como as formas que lhe emprestam. Segundo uns, o Matim-Taperê é um tapuinho, de uma perna só, que não evacua, nem urina, sujeito a uma horrível velha, a quem acompanha as noites de porta em porta a pedir tabaco.

A influência estrangeira, e sem dúvida portuguesa, pôs-lhe na cabeça um barrete vermelho e confundiu-o com os “Pesadelos” da grande corrente mitológica indo-germânica, representando-o como tal. Quem na luta noturna conseguir arrancar-lhe o barrete terá conquistado a felicidade. A velha que o acompanha canta na toada de um passarinho a que me vou referir, esta canção, que não compreendo, mas que deve evidentemente ser o resto de um mito:

Matinta Pereira,
Papa-terra já morreu:
Quem te governa sou eu.

Como se vê, na cantiga o nome está adulterado. Existe nas nossas capoeiras uma avezinha que à noite canta triste e monotonamente o seu assobio fino, na mesma toada do Matin-Taperê; não podemos saber se foi essa avezinha a origem dessa crença entre os índios; a sua existência ainda hoje justifica a persistência dela, pois que se ouvem o passarinho por horas mortas, fazendo-lhes os esconjuros cristãos: Cruz, credo! Benzem-se e dizem que “é o Matintapereira”.

Outros figuram-no como um homem velho, a cabeça amarrada com um pano ou lenço, como pessoa doente, também a pedir tabaco.

Em Manaus, o último e já decrépito ramo da tribo ou família desse nome, o velho Paulico, ali muito conhecido, disse-me que o Matin-Taperê é um feiticeiro (são suas próprias expressões) que usa uma flauta na qual toca “matin-taperê”, flauta que o faz voar, e referiu-me ter conhecido um tal Julio que era Matin-Taperê e andava por toda a parte graças a sua flauta – o que não o impediu (reflexão minha) de ser preso por cabano e enviado ao Pará, depois do que Paulico nunca mais soube dele.

O que concluir disso tudo? Por hora, e sem ulteriores indagações, nada, senão que a crença existe, vaga e sem forma definida. O nome de Matin Taperê, segundo me foi observador por alguém, é talvez corrupção de Mati – Uatá – Pereré, isto é, Matin anda gritando. Mas,quem será ou o que quererá dizer este Mati? Não sei, o que me parece é que a tradução nada tem de inaceitável e que, até certo ponto, se coaduna com as diferentes versões expostas sobre esse tipo mítico, pois em todas elas ele é um indivíduo nômade, que anda a gritar, ou o seu assobio de pássaro, ou a pedir tabaco, ou na sua flauta.

Tupã, Uaraci, Jaci, Caapora, morreram. O famigerado pajé, o piagá dos cantos dos poetas, o feiticeiro, o médico (e para o selvagem médico e feiticeiro são a mesma coisa), o adivinho dos tupi-guarani, auxiliado pela rudeza desta gente, sobreviveu ao deus de quem o quiseram fazer sacerdote.

(…)

De envolta com uma inteira carência de conhecimento do sistema solar, eles tem uma crença astrológica, aliás, partilhada por todos os povos no estado teológico, da influência poderosa e direta da lua sobre as coisas terrestres. Durante o eclipse deste astro, em 23 de agosto de 1877, o povo da capital do Pará fez um barulho enorme com latas velhas, foguetes, gritos, bombas e até tiros de espingarda “para afugentar ou matar o bicho que queria comer a lua”, como explicavam semelhante cena.

BOTO

O boto, o uyara do índio, ocupa largo espaço na sua imaginação e o nosso interiro está cheio de contos maravilhosos sobre este animal. O boto, como a sereia antiga, canta, e qual o dela, o seu canto tem o dom de seduzir. Ai da donzela que o ouve por noite de luar! Os índios acreditavam que o boto aproveitava-se das ocasiões em que as mulheres se banhavam para seduzí-las e gozá-las e, ainda mais, que revestindo formas de um mancebo gentil, vinha às vezes por noite alta partilhar a rede das virgens das florestas, não raro atribuindo a este Don Juan fluvial a gravidez de muitas. Esta crença, o último fato parece comprová-lo, é filha da imaginação da mulher, que por ventura procurou assim encobrir uma falta que ao menos em algumas tribos atraia sérios castigos. Entretanto, não se devem, nem sem leviandade se pode, acusar as gerações que se sucederam àquela com a qual ela nasceu, nem talvez a esta mesmo, porque é um fato observado que na infância do mundo as crenças, ainda as que nos parecem mais grosseiras, são perfeitamente sinceras. Seja como for, esta ainda existe. Não há muito tempo que ouvi dizer de um boto que, sob formas humanas, foram alta noite render finezas à uma rapariga, e os que narravam o fato faziam-no com a maior boa fé.

Eis outras versões que obtive sobre o boto ou uyara. Ele zomba da gente trazendo objetos à flor da água. Paulico assegurou-se ter visto um trazer nos dentes uma faca. Fazem também naufragar canoas em que há moças, para se apossarem destas. Segundo o mesmo Paulico, reveste igualmente as formas de mulher para seduzir os homens que arrasta consigo para a água.

Os olhos deste animal sao considerados preciosos amuletos para abrangar corações de amantes, seus dentes preservativos excelentes contra as dores destes órgãos e contra os perigos da primeira dentição.

Um indivíduo desta mesma família, o tucuxí, é segundo acreditam, bastante amigo do homem a quem socorre e livra quando este está por desgraça a ser vítima do boto, com o qual trava luta até lhe tirar a presa, que leva aos empurrões do focinho até a margem.

DOENÇAS FOLCLÓRICAS

Desta crença no boto resulta uma enfermidade nervosa, que acomete homens e mulheres, sob a denominação de uyára. Em um dos meus passeios ao sertão, ofereceu-se-me a ocasião de observá-la em um rapaz. O acesso nada tem de notável ou de particular, vem com todos os sintomas de um ataque de nervos e é originado, segundo eles, de ter o indivíduo acomedito sido vítima da uyára, se é homem, e por isso diziam ante o sujeito de que falo: é a uyára, é a uyára, conquanto algumas pessoas menos crédulas me observassem que era antes aguardente a causa mais próxima daquilo.

Fato idêntico a este se dá com a ave acauã, que é ela também objeto de uma abusão de agoureira de máus acessos e notícias, donde se origina igualmente certa doença nervosa que acomete principalmente as mulheres como uma manifestação do histerismo. Durante o ataque, o paciente imita o canto daquela ave, do que veio ser a moléstia conhecida pelo nome de “acuã”. (p. 209).

Acreditam em pessoas curadas de cobra, e o processo de curar, isto é, de tornar alguém invulnerável aos dentes destes répteis, e até de preservá-lo de ser atacado por eles, é segredo de alguns pajés,que por coisa nenhuma do mundo o ensinariam. Entre esses meios há, porém, uma receita fácil e ao alcance de todos, que faz parte das suas crenças e tem aqui lugar – é comer cruas a cabeça e a extremidade da cauda das cobras ainda semi-vivas. Lembro-me perfeitamente de ter visto, na minha meninice, um tapuio que matara uma comer-lhe incontinente as extremidades.

A respeito de cobras tem mais abusão de que não se lhes pode errar um tiro, e creêem na metamorfose da surucucú em paca. A surucucú, contam eles, tem o sono muito pesado; os pajés aproveitam-se dele para cercarem-na com uma pequena sebe de varas e cobridno a serpente com uma porção de formigas de certo gênero, esperam que o truculento réptil se torne em nédia paca. O fato real é que a surucucú acolhe-se ao buraco destas formigas, de que talvez faça alimento, onde também se entoca a paca que, segundo acreditam mais, vive em boa camaradagem com a cobra.

A sucuri, com o nome de cobra grande, traduzido do mboiaçú Tupi-Guarani é objeto de uma crença supersticiosa que a faz aparecer nos grandes lagos, nos igarapés retiradas, e em alguns rios, a noite, enorme e feroz, amedrontando os mais resolutos pescadores que fogem espavoridos diante dos seus olhos de fogo, distantes dois palmos um do outro, donde eles concluem a enormidade do vulto.

A espingarda com que se matou um urubu fica inutilizada. O pássaro uirapuru é considerado como eficaz talismã para acarretar ventura a quem o possui. Não há muitos anos, rara era a taberna do interior que não tinha um desses pássaros enterrado à entrada ou suspenso dos umbrais das portas. Cumpre notar que a maior parte destes taberneiros eram europeus, portugueses. A procura deste pássaro é grande, principalmente porque é difícil apanhá-lo vivo, como é mais estimado, e o sr. Couto de Magalhães refere que comprou um morto aqui no Pará por trinta mil réis.

A pele da ave notívaga Urutau,(pequeno pássaro fantasma) preserva as donzelas das seduções e faltas desonestas. Conta-se que antigamente matavam, para isso, uma dessas aves e tiravam-lhe a pele que, seca ao sol, servia para nela assentarem as filhas justamente nos três primeiros dias do início da puberdade. Parece que esta posição era guardada por três dias durante os quais as matronas da família vinham saudar a moça como apta para ser mãe, aconselhando-a a ser honesta. No fim desses três dias, a donzela saia curada, isto é invulnerável à tentação das paixões desonestas a que o seu temperamento, destarte modificado, a pudesse atrair. Semelhante crença, preciosa por confirmar o que disseram alguns cronistas sobre a moralidade da família selvagem do Brasil, foi-me primeiro comunicada pelo sr. Tenente Coronel V B de M, de Santarem, cavalheiro de mais de setenta anos e muito versado, pelo ouvir à sua respeitável mãe, nas tradições indígenas. Hoje, segundo pude por mim mesmo averiguar, parece que limitam-se apenas a varrer o chão sob a rede da noiva com as penas da cauda do urutau para conseguir o mesmo fim, isto é, a tranquilidade de ânimo, como garantia da honestidade da futura esposa.

Encontra-se entre eles uma crença vaga e informe de que o macaco foi homem e que é sem dúvida eco perdido de um mito genésico tupi, que vem do livro do sr. Couto de Magalhães com o título “Como a noite apareceu”, no qual certos indivíduos são, por castigo de uma infidelidade, transformados em macacos dos quais dizem ainda hoje “que não falam para não remar”.

(…)

AS MÃES

Dos Tupi-Guarani, conservara a crença geral de que tudo tem uma mãe, a Ci do selvagem. E estes católicos dizem com da a ingenuidade de uma fé, senão profunda e atilada, ao menos sincera: a mãe do rio, a mãe do mato, etc. Em uma ocasião, tendo eu indagado donde provinha o estranho rumor que me chegava aos ouvidos, respondeu-me uma velha mameluca: É a mãe da mamorana. A mamorana (Carica) é uma planta que cresce em extensas toiças à beira d’água. O vento passando por elas, próximo do lugar onde me achava, vergava-as como juncos e suas folhas largas e fortes, batendo umas nas outras, produziam o ruído que eu ouvia e que, segundo a opinião daquela mulher, era uma manifestação da mãe deste vegetal.

Algumas moscas há que são mães de certas plantas, em morrendo aqueles insetos morrem também os vegetais…

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