Hora Folk conecta festas juninas, cangaço e cultura pop

Episódio exibido em 2021 discutiu o Saci no universo da DC, a transformação de Lampião em personagem de mangá, as celebrações durante a pandemia e outras formas de circulação da cultura popular

Em uma página dupla de quadrinhos, o Saci apareceu ao lado de Superman, Batman e outros heróis da DC. A identificação era imediata, mas havia algo fora do lugar: o gorro, tradicionalmente vermelho, estava marrom. A mudança podia ser apenas uma decisão de paleta para não competir com as cores dos personagens ao redor. Para os apresentadores do Hora Folk, no entanto, a imagem dizia muito sobre o que acontece quando uma figura popular atravessa fronteiras e entra em outro sistema de referências.

O mesmo episódio passou por um mangá protagonizado por Lampião, uma fantasia de alebrije levada ao Miss Universo, festas juninas realizadas pela internet, uma animação filipina e um filme independente sobre capivaras mutantes. Em comum, as notícias mostravam que o folclore não permanece isolado em livros de pesquisa. Ele circula pela televisão, pelos quadrinhos, pela moda, pela música, pelo turismo e pelas redes — e muda ao longo desse percurso.

Transmitido em 6 de junho de 2021, o Hora Folk #12 reuniu o ilustrador Anderson Awvas, o jornalista Andriolli Costa e a ilustradora Lorena Herrero. O concept artist Mikael Quites entrou no programa durante o bloco dedicado aos quadrinhos. Em pouco mais de duas horas, o grupo tratou as obras como notícias culturais, mas também perguntou o que elas preservam, apagam ou recriam quando transformam referências coletivas em entretenimento.

Um gorro marrom no universo da DC

O Saci apareceu na primeira edição da série mensal dedicada a Yara Flor, personagem brasileira criada pela DC como uma nova Garota-Maravilha. Na mesma imagem estavam Cuca, Iara, Caipora e outras figuras apresentadas como parte do caminho que a heroína percorreria para conhecer seu passado.

Antes dessa fase, Yara havia protagonizado uma cena que se tornou símbolo dos receios do grupo: ela e Superman cavalgaram mulas sem cabeça pelo espaço em uma corrida até Plutão. “Depois de Mula sem Cabeça disputando corrida da Terra até Plutão, não tem como piorar”, ironizou Anderson.

A nova série oferecia, porém, uma justificativa narrativa para a distância cultural. Yara não falava português e retornava ao Brasil para descobrir suas origens. “Por mais que a escolha venha de ‘eles não sabem nada’, pelo menos é mais honesto”, avaliou Lorena. A personagem poderia aprender com as pessoas encontradas no caminho, em vez de chegar ao país com um conhecimento pronto e generalizado.

O grupo reconheceu a importância de uma editora internacional colocar personagens brasileiros diante de um público amplo. Também criticou a expectativa de que esse reconhecimento externo fosse necessário para legitimar o tema. “Precisou os Estados Unidos olharem para o folclore daqui para a gente dar valor”, resumiu Anderson ao reproduzir um argumento frequente nas redes.

O problema, para os participantes, não era uma empresa estrangeira trabalhar com essas referências. Estava na diferença de escala. Uma editora com décadas de história, marketing mundial e grandes recursos inevitavelmente chamaria mais atenção do que artistas brasileiros que já produziam sobre o mesmo universo. Criar uma rivalidade entre os dois lados apagaria essa desigualdade e reforçaria a falsa impressão de que nada existia antes da chegada da DC.

Lampião entre o documento e o encantamento

O bloco dedicado ao cangaço partiu de um mangá de Lampião publicado pelo ilustrador Heitor Amatsu. A obra havia circulado nas redes com uma estética japonesa aplicada aos chapéus, às roupas de couro e às paisagens do sertão. A cabeça decepada do cangaceiro também foi convertida em elemento sobrenatural dentro da história.

A adaptação surgiu no mesmo momento em que um artigo do historiador Durval Muniz de Albuquerque questionava a celebração dos cangaceiros na cultura pop. Lampião e seu grupo cometeram roubos, assassinatos e violências sexuais. Transformá-los em heróis sem enfrentar esse passado poderia romantizar ações que ainda permaneciam na memória de famílias e comunidades.

Lorena chamou atenção para o papel da distância histórica. Piratas, samurais, ninjas e mafiosos também foram transformados em personagens atraentes, muitas vezes separados das pessoas que feriram. “Quando a gente escolhe um pirata para um RPG, não está pensando: ‘Estou apoiando um grupo que praticava o mal’. A gente está fazendo muito mais uma escolha pela estética”, explicou.

O cangaço ainda está próximo o suficiente para provocar desconforto, mas distante o bastante para que sua imagem seja convertida em aventura. Até o chapéu associado a Lampião ultrapassou esse vínculo. O uso feito por Luiz Gonzaga ajudou a transformá-lo em signo mais amplo de uma identidade nordestina.

“A cultura pop é esse rompimento de vínculos”, afirmou Andriolli. Quando a referência se separa de seu contexto inicial, surge outra pergunta: que sentidos estão sendo construídos em seu lugar? A imagem pode reproduzir um estereótipo, mas também servir a uma população que reconhece nela força, resistência e expressão de uma dor histórica.

O debate distinguiu o Lampião documentado pela historiografia daquele que passou a circular pela oralidade. “Ao mesmo tempo que você fala de um, está evocando o outro”, observou Andriolli. Relatos sobre valentia, proteção sobrenatural e feitos impossíveis transformaram a pessoa histórica em personagem mítico. As duas formas de conhecimento se aproximam do mesmo nome por métodos diferentes.

“Não é mentira, não é que o povo contou uma história mentirosa”, reforçou. A narrativa oral responde à força simbólica adquirida pelo cangaceiro e às maneiras pelas quais as comunidades elaboraram sua passagem. Isso não apaga os crimes registrados, assim como a documentação não encerra aquilo que Lampião passou a representar.

Anderson recusou uma conclusão baseada apenas em aprovação ou condenação. “Não dá para dizer que é herói ou vilão, amar ou odiar. Você tem caminhos para abrir o diálogo”, afirmou. Para ele, referências ao cangaço em obras como Bacurau precisam ser lidas também pelo que produzem como potência para grupos marginalizados.

Festas juninas atravessaram a pandemia

Em junho de 2021, o Brasil chegava ao segundo ciclo de festas populares afetado pela pandemia de Covid-19. Apresentações presenciais, viagens e eventos que sustentavam artistas, trabalhadores da cultura e cadeias de turismo haviam sido suspensos ou reduzidos. Lives, arraiais virtuais e transmissões especiais tentavam manter parte dessa movimentação.

O programa mencionou uma apresentação de Gilberto Gil dedicada aos clássicos juninos, uma programação virtual de Campina Grande e uma edição adaptada do Festival Folclórico de Parintins, anunciada para transmissão pela TV A Crítica. Anderson recordou que o FolcloreBR havia planejado acompanhar presencialmente os três dias de disputa entre Garantido e Caprichoso. O projeto foi interrompido com a chegada da pandemia.

As restrições expunham um conflito difícil. Festas populares não são apenas eventos que podem ser desligados por decreto. Elas organizam calendários, compromissos religiosos, trabalhos e relações construídas durante décadas. “Você impede uma pessoa mais idosa, que está há anos fazendo o mesmo movimento, de fazer alguma coisa. Isso é muito forte”, observou Anderson.

O grupo defendeu a manutenção dos cuidados sanitários, mas evitou tratar festeiros como pessoas simplesmente irresponsáveis. A força da tradição ajudava a explicar por que grupos de bate-bolas haviam ido às ruas no Carnaval daquele ano e por que pequenas celebrações juninas continuavam atraindo participantes apesar dos riscos.

A conversa também diferenciou festa religiosa e festa folclórica. Santo Antônio, São João, São Pedro e, no Maranhão, São Marçal compõem o calendário, mas não é preciso compartilhar a fé católica para participar de um arraial. “Ela tem esse braço religioso, mas também tem um braço popular”, explicou Andriolli.

Não havia uma fronteira perfeitamente visível entre os dois campos. “Não é uma coisa simples em que você fala: ‘Aqui acabou, aqui começou’. Tem lugares em que fica tão entrelaçado que você não sabe onde dividir”, afirmou Anderson. Religião e folclore não são a mesma coisa, embora troquem narrativas, ritos, músicas e formas de celebração.

Um alebrije na passarela e capivaras mutantes no cinema

As notícias rápidas mostraram outras escalas dessa circulação. No concurso Miss Universo realizado em 2021, a candidata mexicana que conquistou o título havia desfilado com uma fantasia inspirada nos alebrijes. As criaturas coloridas, muito presentes no artesanato e em animações ligadas ao México, ganharam uma versão monumental na passarela.

O contraste apareceu no traje da representante brasileira, inspirado nos campos de algodão. A escolha levou os apresentadores a perguntar o que se reconhece como representação nacional e quais atividades econômicas ganham espaço quando um país precisa ser resumido em poucos minutos.

Em Juiz de Fora, outro projeto assumia sem pudor sua escala independente. O Monstro do Rio Paraibuna transformava a poluição do rio em origem para capivaras mutantes que atacavam seres humanos. As criaturas eram produzidas com grandes cabeças e materiais simples, numa estética deliberadamente trash.

“Se você sabe que não tem recursos para fazer um filme de terror que não pareça trash, assume o trash e faz dele a obra-prima que deveria ser”, aconselhou Lorena. O absurdo das capivaras assassinas não impedia que o filme tratasse de degradação ambiental. A liberdade de invenção podia caminhar junto de uma questão local.

O exemplo ajudou a esclarecer a crítica feita pelo grupo a outras obras. Ninguém defendia fidelidade literal ou proibia mudanças. “Você pode fazer um filme de capivaras mutantes por causa da poluição do rio”, comparou Lorena. A pergunta era por que certas produções escolhiam imagens racistas ou representações genéricas de povos indígenas quando existiam outros caminhos criativos.

Mikael resumiu o princípio em uma responsabilidade básica: “Qualquer conteúdo, seja uma palavra, uma fala ou uma imagem, tem responsabilidade. Você é responsável pelo que faz, fala ou escreve”. A liberdade artística não desaparece, mas o autor também não controla sozinho as consequências daquilo que coloca em circulação.

Uma produção grande abre ou fecha o mercado?

O sucesso de Cidade Invisível, lançado pela Netflix poucos meses antes, atravessou várias notícias do episódio. A banda Fogo Corredor havia produzido uma música inspirada nos personagens da série. Escritores, jogadores de RPG e artistas retomavam projetos relacionados ao folclore diante do interesse renovado do público.

O movimento também gerava insegurança. Criadores que preparavam investigações sobrenaturais ou histórias com personagens semelhantes temiam ser acusados de copiar a série. “Saiu alguma obra na gringa ou uma série que resolveu pegar coisas do Brasil e a pessoa pensa: ‘Fudeu, porque eu estava com isso aqui. Agora vou ter que mudar tudo’”, descreveu Lorena.

Os apresentadores contestaram a ideia de que um lançamento ocuparia definitivamente o tema. “Ideia não é nada. A execução da ideia é que custa”, afirmou Anderson ao recordar uma máxima ouvida na faculdade de Publicidade. Diferentes autores podem partir de uma investigação criminal com seres folclóricos e produzir histórias completamente distintas.

Na avaliação do grupo, Cidade Invisível abriu a demanda, embora pudesse fechar portas em setores específicos. Uma editora, por exemplo, havia recusado o jogo de cartas proposto por Andriolli sob a justificativa de que já possuía um livro de folclore. Em outros segmentos do entretenimento, porém, o sucesso costuma produzir o efeito contrário: quando super-heróis vendem, várias empresas procuram novos projetos com super-heróis.

“A gente já não fazia sucesso. Agora, pelo menos, tem uma chance”, brincou Lorena ao falar das produções independentes. Para artistas com poucos recursos, o aumento do interesse representava uma oportunidade de apresentar trabalhos que antes nem chegavam ao público.

O lançamento da animação filipina Trese também foi citado como exemplo do acesso oferecido pelas plataformas. Até o anúncio da Netflix, Lorena não conhecia os quadrinhos que deram origem à série. A distribuição mundial permitia que espectadores brasileiros entrassem em contato com seres, costumes e histórias das Filipinas, país que também carrega marcas da colonização espanhola.

A pesquisa abre portas para a criação

Uma notícia sobre um boto-cinza encontrado morto com uma peça de roupa presa à nadadeira terminou em uma conversa sobre o boto-cor-de-rosa. O episódio poderia ter ficado apenas na associação cômica entre o animal e a fama de sedutor. Em vez disso, os participantes discutiram as diferenças entre espécies marinhas e fluviais, a coloração, a articulação do pescoço, a ecolocalização e a adaptação às florestas alagadas.

Mikael mostrou como essas informações alteram o trabalho de um artista. Um boto capaz de movimentar a cabeça de modo diferente, nadar entre árvores e caçar de cabeça para baixo oferece gestos, poderes e cenas que dificilmente surgiriam de uma imagem genérica encontrada na internet. “A pesquisa abre portas”, resumiu Anderson.

O mesmo princípio orientou a indicação do projeto Brasil Vivo, do Sesc Ribeirão Preto. A série de encontros apresentaria manifestações das cinco regiões do país, entre elas os bois de Parintins, o Maracatu de Baque Solto de Nazaré da Mata, as Cavalhadas de Pirenópolis, a Semana Farroupilha de Porto Alegre e a Procissão das Almas de Mariana.

“O folclore não se limita a mitos e lendas”, afirmou Anderson ao apresentar a programação. Festas, trabalhos, comidas, formas de vestir e modos de ocupar as cidades também oferecem matéria para quadrinhos, jogos, filmes e outras produções culturais.

Lorena comparou esse repertório aos episódios de animes em que os personagens participam de festivais, usam roupas especiais e encontram alguém importante para a história. “Se fosse uma história aqui, esse episódio da festa seria uma festa junina”, observou. A manifestação popular não precisaria aparecer apenas como cenário decorativo. Poderia organizar encontros, conflitos e mudanças na narrativa.

Ao reunir notícias tão diferentes, o Hora Folk mostrou que o folclore não entra na cultura pop por uma única porta. Pode aparecer no gorro de um personagem, na fantasia de uma candidata, na memória de um cangaceiro, na transmissão de um arraial ou em uma capivara mutante de filme independente. Cada passagem produz deslocamentos e exige novas perguntas.

A questão central não era impedir que as referências mudassem, mas acompanhar o que muda com elas. Entre o arquivo histórico, a oralidade, a criação artística e o mercado, o trabalho crítico começa quando a imagem deixa de ser apenas reconhecível e volta a carregar relações, conflitos e histórias.

Assista à íntegra de Cangaço, Miss, Saci na DC, Juninas | Hora Folk #12, no canal do FolcloreBR no YouTube.

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