Na abertura do Somando Visões 2019, pesquisadores e artistas defenderam a escuta das comunidades, o cruzamento de fontes e a liberdade de criação sem apagar a diversidade das narrativas populares
Um homem cresceu ouvindo a avó dizer que havia visto um “lobisomem-jegue”. Durante anos, pensou que ela estivesse doida. Só mudou de ideia depois de encontrar na internet a pesquisa do jornalista Andriolli Costa sobre as formas assumidas pelo lobisomem no Brasil. O relato da família ganhou valor quando apareceu legitimado pelo trabalho de um pesquisador.
A história, compartilhada durante a live O guia definitivo (ou não) das lendas brasileiras, serviu de alerta: na cultura popular, a fala de uma avó não é um ruído a ser descartado em favor dos livros. É uma fonte. O desafio está em ouvi-la, situá-la e colocá-la em diálogo com outros relatos, sem transformar uma experiência local na única versão possível de uma lenda.
Transmitida em 8 de agosto de 2019, a conversa abriu a terceira edição do Somando Visões, evento virtual do FolcloreBR. O ilustrador Anderson Awvas conduziu o encontro com Andriolli, a ilustradora e quadrinista Lorena Herrero e o concept artist Mikael Quites. Entre perguntas sobre livros, escolas, adaptações e pesquisa, os participantes chegaram a uma conclusão que já estava sugerida no “ou não” do título: nenhum guia consegue encerrar uma tradição que permanece viva.
Um Mapinguari não cabe na fita métrica
Lorena levou para a conversa o livro que produziu como trabalho de conclusão do curso de Design Gráfico. A publicação foi inspirada em dois desafios de desenho nos quais criou, durante o mês de outubro, 31 seres ligados ao imaginário brasileiro. Para o TCC, ela organizou esse repertório como um guia de campo: cada personagem recebeu mapa, descrição, tamanho, temperamento e orientações para um eventual encontro.
A proposta esbarrou rapidamente em uma pergunta simples: qual é a altura de um Mapinguari? “A gente está lidando com um tipo de literatura oral, então vai ter uma variedade infinita”, explicou Lorena. Em uma das versões usadas no perfil principal, a criatura não era muito maior do que uma pessoa. Em outros relatos, aparecia como um ser maior do que as árvores. A artista registrou a possibilidade de exemplares com mais de 20 metros, mas reconheceu que a medida traduzia para uma escala objetiva aquilo que os narradores expressavam pela comparação e pelo espanto.
Quem enxerga uma criatura à noite, de baixo para cima e em meio à mata não a descreve como quem preenche uma ficha técnica. Memória, perspectiva, medo e repertório também participam da narrativa. A variação atinge ainda aparência, comportamento e função: o Caboclo-d’Água pode ser pequeno e musculoso em um relato e tão grande, em outro, que sua cabeça é confundida com uma casa flutuando.
“É impossível existir um definitivo na cultura oral”, afirmou Andriolli. Uma pessoa pode contar a mesma história em momentos diferentes e acrescentar um detalhe lembrado ou criado naquela ocasião. “Não tem verdadeiro no sentido de único e definitivo. Se a gente for pensar que todo relato baseado em crença é verdadeiro, aí sim”, completou. As diferenças revelam os caminhos pelos quais a narrativa circula e se transforma.
A oralidade também é fonte
O ponto de partida do debate foi o livro Abecedário de personagens do folclore brasileiro, da escritora Januária Cristina Alves. Anunciada como convidada especial, ela não pôde participar por motivo de saúde. Sua obra, no entanto, permaneceu no centro da live como exemplo da importância — e da dificuldade — de reunir em um volume personagens espalhados por diferentes regiões e tradições.
Os participantes elogiaram a linguagem acessível, os textos curtos e as ilustrações, capazes de apresentar seres pouco conhecidos a crianças, professores e leitores iniciantes. O livro foi descrito como porta de entrada, não como ponto final. A própria dimensão do projeto revela o problema: antes de Januária, a proposta teria sido oferecida ao escritor e pesquisador Ricardo Azevedo, que a recusou diante do tamanho da tarefa.
Para distinguir uma criação literária de uma narrativa com circulação popular, Januária adotou como método a confirmação por pelo menos duas fontes. Segundo o relato de Andriolli, o critério era: “Eu tenho que ter pelo menos duas fontes diferentes que corroborem essa mesma versão”. O jornalista observou que o procedimento é útil, mas tem limites. Quando um autor se torna muito influente, trabalhos posteriores podem apenas repetir aquilo que ele escreveu. A aparente multiplicidade de referências esconde, nesse caso, uma única origem.
O jornalista contou que procura ampliar a verificação com artigos de Antropologia, estudos etnográficos, livros locais e registros em que a voz das comunidades foi transcrita. Vídeos publicados no YouTube, com pessoas mais velhas narrando encontros com lobisomens, assombrações ou encantados, também podem oferecer acesso à oralidade. “Não desdenhem das tiazinhas e dos vovozinhos. No folclore, essa oralidade faz parte da pesquisa”, resumiu durante a conversa.
Cruzar fontes não significa obrigar todas a concordarem. Data e lugar ajudam a entender por que uma versão se diferencia das outras. A live citou o caso do Boto: um registro do século XIX falava na transformação em mulher; relatos posteriores apresentaram formas femininas e masculinas, até a figura do sedutor assumir maior presença. Sem indicar a época da fonte, um livro pode congelar no presente aquilo que pertencia a outro momento da narrativa.
Um mito não é apenas o desenho da criatura
O lobisomem-jegue citado no início não seria uma exceção extravagante. Segundo Andriolli, narrativas brasileiras e portuguesas contam que o amaldiçoado rola no lugar onde um animal se espojou e adquire suas características. Pode haver, assim, lobisomens com traços de cachorro, porco, cavalo, touro e até marreco — animais próximos da casa, da fazenda e da vida cotidiana.
Essa proximidade é mais importante do que a semelhança visual com o lobo-guará, frequentemente escolhido em adaptações contemporâneas por parecer uma solução “brasileira”. O medo central está na possibilidade de alguém familiar — o pai, o marido, o irmão — revelar uma natureza violenta. O animal doméstico participa da mesma lógica: o que estava ao lado da pessoa torna-se ameaça.
Em um ensaio fotográfico, Andriolli representou o lobisomem com características de touro e cavalo. Um leitor protestou que homem com cabeça de touro seria Minotauro e homem misturado a cavalo, Centauro. “O que faz o mito do Minotauro ser o Minotauro não é o homem-touro. Não é tudo estética; é o todo que envolve a narrativa”, respondeu o pesquisador. A forma isolada não define o mito. É preciso considerar os conflitos, a crença e o contexto em que aquela imagem ganha sentido.
O mesmo cuidado vale para comparações usadas como atalho. Chamar o Boitatá de “dragão brasileiro” pode aproximar um público acostumado à fantasia estrangeira, mas também pode apagar aquilo que torna o personagem singular. A comparação deixa de ser ponte quando passa a substituir a história.
Entre a invenção e a falsa tradição
Os participantes defenderam a liberdade de adaptar e reinventar. Um artista pode criar um Saci mecânico, uma armadura inspirada em cerâmicas indígenas ou um universo fantástico alimentado por manifestações populares. O problema surge quando uma escolha estética é apresentada como tradição documentada, sem que o público consiga distinguir criação autoral de pesquisa.
Andriolli citou a narrativa dos “sete monstros lendários”, divulgada na internet como tradição Guarani. Segundo ele, a genealogia que reúne os personagens como filhos de Tau e Kerana deriva de uma obra literária do século XX, embora os seres possam existir separadamente em outros relatos. A história se tornou atraente para criadores por oferecer um grupo pronto, poderes e uma origem comum — estrutura familiar à cultura pop — e passou a circular sem a marca de sua autoria.
O episódio levou a uma pergunta importante: a repetição na internet basta para criar um mito? Para o jornalista, mito envolve crença, rito e uma comunidade que o atualiza. Escritores urbanos compartilhando uma ficha de personagens não equivalem automaticamente às pessoas que vivem e narram uma tradição. A circulação digital pode formar novos imaginários, mas não autoriza atribuí-los retroativamente a um povo.
Outra consequência da escassez de material é a formação de um “cânone virtual”. Uma ilustração bonita pode aparecer entre os primeiros resultados de busca e fixar como regra uma liberdade tomada por um artista. Quem pesquisa depois encontra a imagem, repete seus elementos e aumenta a impressão de que aquela sempre foi a aparência do personagem.
Por isso, a recomendação aos criadores foi direta: “O criador de conteúdo tem que ir além da primeira página do Google”. Uma lista ou um compêndio pode ser o início da procura, desde que cada informação seja validada por outras referências. “Se não bater, quem está errado provavelmente não é o povo”, provocou Andriolli ao sugerir a comparação entre textos disponíveis na internet e relatos de quem vive nos lugares pesquisados.
O mergulho nas fontes também pode mudar a percepção de que determinados seres seriam ingênuos ou pouco interessantes. “Talvez você não conheça o suficiente e por isso está achando que é bobo. Vai ler, vai pesquisar”, aconselhou Andriolli. Em outro momento, resumiu a questão: “Não existe um mito, uma lenda sem pé nem cabeça. O que acontece é que a gente não entendeu como ler”.
Culturas vivas não são “faz de conta”
A discussão ganhou outra camada quando os participantes abordaram povos indígenas. Falar em “mitologia Guarani” como se a palavra designasse uma cultura única apaga diferenças entre povos, territórios, línguas, gerações e grupos internos. Mesmo dentro de uma comunidade, histórias de criação podem apresentar versões distintas.
Os participantes sugeriram que artistas e escritores procurem autores indígenas, pesquisadores locais e trabalhos produzidos nas próprias comunidades. “Por que não vai conversar com um indígena Guarani? O que te impede de falar com o povo que está vivo e é acessível?”, questionou um dos debatedores. O diálogo direto não deve ser conduzido como extração de informações: é preciso escutar, reconhecer limites e aceitar que a resposta pode contrariar a ideia original da obra.
A live indicou livros de escritores indígenas, feiras literárias, encontros e instituições como caminhos para essa aproximação. Andriolli relatou trocas com autores como Olívio Jekupé e Yaguarê Yamã, além da disposição de colocar sua própria prática em debate diante de críticas ao uso de narrativas indígenas por criadores não indígenas. “Não é um monólogo, é um diálogo. A função, inclusive neste momento, é ouvir e ser ouvido”, afirmou.
Anderson alertou para o dano produzido quando culturas indígenas e afro-brasileiras são empurradas para uma categoria de folclore entendida como mentira, fantasia ou coisa sem importância. Povos vivos, religiões e conhecimentos não podem ser reduzidos a um depósito de personagens disponíveis para qualquer aventura. Trabalhar com esses repertórios exige distinguir narrativa popular, experiência religiosa, identidade coletiva e criação ficcional.
Folclore não termina quando agosto acaba
Na educação, o debate criticou a concentração das atividades no chamado mês do folclore. Em muitas escolas, agosto se resume aos mesmos personagens, desenhos para colorir, encenações e fantasias. O Saci ocupa quase todo o espaço, enquanto tradições regionais e manifestações que atravessam o ano permanecem desconectadas da sala de aula.
A redução do tema ao universo infantil cria outro bloqueio. “Folclore para a escola tem que ser coisinha de criança”, ironizou Andriolli ao comentar as restrições impostas a algumas obras. Livros destinados a estudantes mais velhos podem ser recusados por trazer ilustrações consideradas assustadoras, palavras proibidas ou narrativas sobre demônios e assombrações. Ao tentar proteger as crianças de qualquer estranhamento, a escola perde justamente histórias capazes de despertar curiosidade — e abandona o assunto quase por completo no Ensino Médio.
Os participantes defenderam materiais capazes de dialogar com diferentes faixas etárias e linguagens. A arte pode ser a primeira entrada: uma ilustração marcante, um podcast, uma história em quadrinhos, um jogo ou uma obra de fantasia podem instigar o público a buscar o contexto depois. A tecnologia não precisa afastar as pessoas da cultura popular; pode tornar fontes, vozes e bibliografias mais acessíveis.
Isso também significa valorizar personagens e festas que não integram o pequeno grupo mais repetido pelos livros escolares. Durante a live, mascarados de Pirenópolis, a Procissão do Fogaréu, bonecos de mamulengo e seres conhecidos apenas em determinadas cidades apareceram como matéria para novas narrativas. “A gente precisa de um Cavaleiros do Zodíaco dos mitos brasileiros”, sugeriu um espectador no chat. A comparação não propunha copiar o desenho japonês, mas criar obras populares que despertem a vontade de pesquisar aquilo que apresentam.
O “guia definitivo” terminou, assim, como um convite a continuar procurando. Livros, mapas e compêndios são necessários porque oferecem acesso e despertam interesse. Tornam-se problemáticos apenas quando escondem suas fontes, apagam variações ou se apresentam como autoridade capaz de encerrar a conversa.
Pesquisar lendas brasileiras é aceitar que a informação pode mudar de forma ao atravessar tempos, territórios e narradores. Para quem cria, o desafio não é escolher entre fidelidade absoluta e invenção sem limites. É construir com responsabilidade: indicar de onde vieram as referências, ouvir quem mantém as histórias em circulação e deixar espaço para que outras versões continuem existindo.
No encerramento, Anderson Awvas mediu o alcance desse trabalho não pela promessa de uma definição final, mas pela curiosidade despertada no público. “Cada vez que uma pessoa fala ‘eu não conhecia’, ‘eu não sabia’, isso já dá um alimento na alma”, afirmou. Em uma live dedicada a desfazer certezas, descobrir que ainda há muito a conhecer apareceu como o resultado mais importante.
Assista à íntegra de O guia definitivo (ou não) das lendas brasileiras, no canal do FolcloreBR no YouTube.