“O cachorro nunca vai querer te dar azar”: Carol Barros confronta superstições sobre os cães

Um cachorro que uiva pode estar anunciando a morte do dono. Se cava jogando terra na direção da casa, traz dinheiro; se empurra para a rua, prepara uma sepultura. Dormir de barriga para cima é mau agouro, enquanto urinar diante da porta promete sorte. O folclore brasileiro transformou gestos cotidianos dos cães em sinais de fortuna, perigo e contato com o sobrenatural.

Nesta entrevista, a comunicadora de comportamento e bem-estar animal Carol Barros, a Pet Lady, comenta essas crenças a partir de sua experiência profissional. Ela explica por que os cães uivam, cavam, comem fezes, expõem a barriga e reagem a sons ou cheiros imperceptíveis para os humanos, além de discutir os cuidados necessários ao se aproximar de um animal desconhecido.

A conversa passa ainda pela alimentação oferecida aos cães do interior, pelas cirurgias estéticas hoje proibidas, pela raiva, pelos animais comunitários e pela associação entre o cão e o Diabo. Entre um aviso sobre a responsabilidade dos tutores e histórias de seus anos como cuidadora, Carol procura separar práticas perigosas da sabedoria que pode existir por trás da observação popular.

O conteúdo a seguir é uma transcrição editada do episódio 108 do Poranduba, apresentado por Andriolli Costa e publicado originalmente em 13 de dezembro de 2021. Para tornar a leitura mais fluida, foram retiradas hesitações, repetições involuntárias, interrupções técnicas e outras marcas excessivas da oralidade, sem alterar o sentido das falas. As referências a preços, políticas públicas, redes sociais e à programação do Pet Lady no Ar correspondem ao momento original da entrevista. As informações sobre saúde e alimentação animal não substituem a avaliação de um médico-veterinário.

“Eu sou a Pet Lady e está tudo bem”

Andriolli Costa: Olá, bem-vindos à nossa Poranduba, o podcast sobre as histórias fantásticas da cultura brasileira. Eu sou Andriolli Costa, o Colecionador de Sacis, e serei seu guia. No programa de hoje, tenho o prazer de receber Carol Barros, a Carol Pet Lady, comunicadora de comportamento e bem-estar animal e apresentadora do podcast Pet Lady no Ar, que já passou dos cem episódios. Tudo bem, Carol?

Carol Barros: Oi, Andriolli. Tudo bem? Muito obrigada pelo convite e por me receber aqui. Acho que vai ser muito gostoso bater este papo sobre bichinhos.

Andriolli Costa: O prazer é nosso. Para começar, quero que você se apresente aos ouvintes. De onde você vem e quem é Carol Barros, a Pet Lady?

Carol Barros: Carol Barros, Pet Lady, Carol the Lady… Já tive vários apelidos. Mas o dia em que me assumi como Pet Lady, quando entendi que eu e ela éramos a mesma pessoa, foi um alívio. Eu sou a Pet Lady e está tudo bem.

Trabalho com comportamento e bem-estar animal. Tenho o podcast Pet Lady no Ar, que nasceu justamente do meu trabalho cotidiano com questões comportamentais de cães e gatos.

Sou mineira por usucapião. Nasci no interior do Paraná, mas minha família é mineira há uns duzentos anos. Eu me identifico muito mais como mineira. E o sotaque também não me deixa mentir.

Animais de trabalho e animais de afeto

Andriolli Costa: Na infância, você já tinha contato com cães, gatos e outros bichos ou essa relação veio mais tarde?

Carol Barros: Minha experiência foi um pouco diferente porque, até os dez anos, cresci numa fazenda no interior do Paraná. Quando a gente mora numa fazenda, a relação com os animais tem muito mais a ver com trabalho e função do que necessariamente com afeto.

Tínhamos dois pastores-alemães, mas eles eram cães de guarda, não cães de companhia. Passavam o dia presos e eram soltos à noite para vigiar a propriedade. A ideia de fazer carinho, deixar o bicho dentro de casa e tratá-lo como parte da família só apareceu mais tarde.

Eu convivia com periquitos, coelhos e outros animais, mas demorei a entender o que era ter um pet, um animal de estimação. Meus pais não eram exatamente contra, mas compreendiam uma coisa que repito para clientes e ouvintes: quando uma criança pede um bichinho, quem precisa decidir se pode assumir a responsabilidade é o adulto. No fim das contas, a criança não será a única responsável por aquela vida.

Andriolli Costa: Essa experiência da fazenda ajuda a entender uma relação muito comum no interior. Câmara Cascudo registra no Dicionário do Folclore Brasileiro a frase “quem tem dó de angu não cria cachorro”. Antigamente, o cão recebia angu, caldo e restos de comida. Não havia ração superpremium.

Carol Barros: Na nossa fazenda era exatamente assim. Os cães comiam angu, carne, ovos, ossos e aquilo que sobrava. E ainda era uma alimentação considerada boa, porque muitos animais nem recebiam isso. Comiam só o resto raspado do prato.

Andriolli Costa: Minha avó falava também em “arroz de cachorro”. Era aquele arroz quebradinho, que não passava pelo controle de qualidade para ser vendido como o arroz branco comum.

Carol Barros: É o fragmento do arroz, misturado às vezes com outros grãos. Durante muito tempo, foi vendido como alimento para animais. Naquele período, com o aumento da fome no Brasil, já havia gente comprando esse produto para comer.

Do resto de comida à ração

Andriolli Costa: Que outras comidas tradicionais as pessoas ofereciam aos cães?

Carol Barros: É importante lembrar que as rações industrializadas demoraram a chegar ao Brasil. Se não me engano, começaram a se espalhar por volta dos anos 1970. Durante muito tempo, o brasileiro se acostumou a oferecer comida de verdade, principalmente restos, miúdos de frango e partes menos nobres da carne.

Muita gente também dava arroz. Para mim, não faz tanto sentido porque não é um carboidrato muito rico para o cachorro. Existe aí uma confusão ligada ao mito de que cachorro come qualquer coisa.

Conheci uma pessoa que dizia que o cachorro era o “lixo orgânico” da casa. Terminava a refeição, juntava tudo o que havia sobrado no prato e jogava para ele. Mas isso não nutre adequadamente um animal.

O cão é um onívoro oportunista. Consegue comer carboidratos, grãos e outros alimentos, mas precisa de uma dieta equilibrada e rica em proteína. A ideia de que devemos nos preocupar com a alimentação do cachorro é relativamente recente. Durante muito tempo, o que havia era o costume de dar o resto.

Andriolli Costa: Hoje também encontramos pessoas que deixam recipientes com água e ração para animais que vivem nas ruas.

Carol Barros: Existe aí uma responsabilidade comunitária. Na minha rua, algumas pessoas colocam potinhos para uma colônia de gatos. Preparam tudo para que eles possam comer e não passem necessidade. Acho muito válido.

Quando o cão vira personagem da comunidade

Andriolli Costa: Às vezes, o cachorro de rua fica tão conhecido que se transforma numa espécie de personagem folclórico. Perto de minha casa, por exemplo, havia o Negão da Praça da Biblioteca. Todo mundo o conhecia. Quando fiz o mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina, havia também o famoso UFSCão. Era um cão comunitário tão querido que, depois de sua morte, recebeu uma homenagem no campus.

Carol Barros: Isso é muito legal. O cachorro ganha outro estatuto. Ele não é cuidado por uma única casa, mas pela comunidade inteira.

Viajei para o Nordeste e, numa das praias, encontrei um cachorro que claramente morava ali. Era um animal de rua, não estava com nenhuma família, mas era gordinho, tranquilo e feliz. Parecia que todo mundo cuidava dele. Fazia parte daquela praia e daquele ambiente.

O que o cachorro diz quando uiva

Andriolli Costa: Separei alguns fatos folclóricos, muitos deles retirados do Dicionário do Folclore Brasileiro, para comentarmos a partir do comportamento animal. Vamos começar pelo uivo. Por que o cachorro uiva?

Carol Barros: O uivo é uma herança dos lobos e uma das formas de comunicação dos cães. Eles se comunicam pelos latidos, mas também por sinais não verbais: movimento de cauda e orelhas, posição corporal e direção do olhar.

O uivo pode sinalizar perigo, dor ou chamar outro cachorro que está por perto. Não existe uma resposta única. Eu brinco que é um latido premium, um latido melhorado.

Quando um cão uiva, os outros podem responder. A gente escuta um mais longe, depois outro mais perto e, daqui a pouco, a vizinhança inteira está conversando. Provavelmente estão falando mal da gente.

Andriolli Costa: As histórias dizem que o cão uiva quando vê alguma coisa de outro mundo ou percebe um perigo sobrenatural. Ele estaria avisando a comunidade.

Carol Barros: Existe uma explicação natural para aquilo que parece sobrenatural. Muita gente pergunta se cães e gatos veem espíritos. Não sabemos nem se os espíritos existem, então não dá para responder.

O que sabemos é que esses animais percebem coisas que nós não percebemos. O cão tem um olfato excepcional e o gato possui uma audição muito mais sensível. Às vezes, o gato fica parado olhando para a parede e a gente imagina que há um fantasma. Ele pode estar ouvindo a água dentro do cano ou um bichinho minúsculo se movimentando.

O cachorro também pode uivar porque sentiu o cheiro de uma fêmea a quilômetros de distância. Para nós parece sobrenatural, mas é apenas natural numa intensidade que não conseguimos experimentar.

Andriolli Costa: Meu pai dizia que, quando o uivo termina num ganido, é porque o cão está acuando o saci. O saci desce a paulada e o cachorro começa a chorar. Em Parintins, conheci a história do Homem da Calça Molhada, uma visagem que ninguém vê. O que se escuta é o barulho de uma calça encharcada batendo enquanto ele caminha. Os cães latem enlouquecidos e depois começam a ganir, porque a assombração também bate neles.

Carol Barros: Coitados dos cachorros. Não basta enfrentar a assombração, ainda apanham dela.

Andriolli Costa: Existe também a crença de que o uivo anuncia uma desgraça para o dono. Para devolver o agouro ao animal, deve-se gritar: “Todo agouro para o teu couro”.

Carol Barros: O cachorro nunca vai querer te dar azar, ainda mais se você é a família dele. Do ponto de vista do comportamento, seria justamente o contrário. Se houver um perigo, ele está tentando avisar. Então nada de mau agouro: o cachorro está mandando boas energias.

Terra para dentro, dinheiro em casa

Andriolli Costa: Outra crença diz que, quando o cão cava empurrando a terra na direção da casa, está trazendo dinheiro. Se joga a terra para a rua, prepara a sepultura do dono.

Carol Barros: Essa eu nunca tinha ouvido. Agora vou ficar de olho na cachorra do meu irmão. É uma pastora enorme e, outro dia, estava abrindo um buraco no jardim. Não reparei para que lado a terra ia.

Cavar é um comportamento muito comum. O cão faz isso por vários motivos. Pode ser brincadeira, uma forma de expressão ou uma maneira de gastar energia acumulada. Um cachorro entediado também cava.

É como quando ficamos batucando os dedos porque estamos ansiosos ou estressados. Para o cão, abrir um buraco pode cumprir essa função. Mas ele nunca está cavando para trazer a morte do dono.

Andriolli Costa: E quando o cachorro come as próprias fezes olhando para o tutor? Eu sempre interpretei como um desafio.

Carol Barros: O nome desse comportamento é coprofagia. É muito mais comum do que imaginamos, mas os tutores têm vergonha de falar porque, de fato, é nojento.

Existem várias explicações possíveis. Pode haver vermes, tédio, disputa por recursos ou problemas de possessividade. Alguns cães entendem as fezes como alguma coisa valiosa que será retirada deles.

Em muitos casos, o manejo do ambiente e a orientação comportamental oferecem bons resultados. Mas é importante conversar também com um médico-veterinário para investigar causas de saúde.

Barriga para cima não é mau agouro

Andriolli Costa: Quando o cachorro dorme de barriga para cima, isso é bom ou ruim?

Carol Barros: Eu apostaria que é uma coisa boa.

Andriolli Costa: Pois o folclore diz que é mau agouro. Se encontrar o bicho assim, precisa acordá-lo porque ele está trazendo azar.

Carol Barros: Deixem o cachorro dormir. Quando ele fica de barriga para cima, demonstra muita confiança. Está relaxado e se sente seguro na presença das pessoas da casa.

A barriga protege os órgãos vitais. Por isso, muitos cães dormem enroladinhos, como uma rosquinha. Quando deixa toda aquela região exposta, o animal está dizendo que está tudo bem. Não é um mau agouro; é um cachorro tranquilo.

E isso não significa necessariamente que ele queira carinho na barriga. Significa apenas que se sente seguro para dormir naquela posição.

Andriolli Costa: E o cão deitado com as patas dianteiras cruzadas? A crença diz que traz sorte.

Carol Barros: Essa eu não sei explicar. Tenho uma cliente que sempre cruza as patas, mas, no caso dela, existe uma questão física. Talvez os outros façam apenas porque fica bonito.

Andriolli Costa: Lembra o maneki-neko, aquele gato japonês com a pata levantada. A figura teria surgido porque um gato verdadeiro atraía pessoas para um estabelecimento e aumentava o movimento. Quem sabe também existiu um cachorro de patas cruzadas que fez a sorte de alguém.

Carol Barros: Pode ser. É tão bonitinho que as pessoas devem parar para olhar. Vamos considerar um bom agouro.

Andriolli Costa: Se o cachorro urina diante da porta, também dizem que é sinal de boa sorte.

Carol Barros: Acho que a maioria das pessoas ficará com muita raiva dessa sorte. A urina faz mal ao portão e a outras ferragens. O cachorro da minha mãe urinava sempre no mesmo lugar e começou a enferrujar o metal. É uma marcação de território que não faz bem para a casa.

O nome de peixe e a proteção contra a raiva

Andriolli Costa: Vamos falar da hidrofobia, a raiva. Como o cão contrai a doença?

Carol Barros: Antes de responder, preciso reforçar que não sou médica-veterinária. Meu trabalho está ligado ao comportamento animal.

A raiva é transmitida pelo contato com um animal infectado. Um cão pode ser mordido por um morcego, por exemplo, e contrair o vírus. Aos poucos, é como se ele deixasse de ser quem era. O vírus atinge o sistema nervoso e muda seu comportamento.

Além da salivação excessiva, pode aparecer a hidrofobia, uma dificuldade ou aversão intensa à água. O animal está com sede, mas não consegue beber.

O São Bernardo de Cujo, de Stephen King, é contaminado pela raiva. No livro e no filme, o cachorro aparece como o grande vilão, mas, para mim, o verdadeiro vilão é o vírus, que destrói aquele animal.

A raiva não tem cura depois que os sintomas aparecem e também pode atingir seres humanos. Por isso, a vacinação de cães e gatos é indispensável, salvo alguma contraindicação indicada pelo veterinário responsável.

Andriolli Costa: O folclore oferece outra proteção: batizar o cachorro com nome de peixe. Se o cão se chamar Linguado, Pacu ou Sardinha, não pegará hidrofobia.

Carol Barros: Olha a relação imediata: se o peixe vive na água, seu nome protegeria contra o medo de água. Mas, mesmo que o cachorro se chame Linguado, precisa ser vacinado.

Existe, sim, uma escolha que facilita a comunicação. Nomes com duas sílabas costumam ser mais simples porque conseguimos pronunciá-los rapidamente e enfatizar o som. Pacu é um bom exemplo. Linguado já pode embolar um pouco.

A pessoa pode até registrar o animal com 16 nomes, desde que tenha um apelido curto e claro. O importante é que ele consiga entender quando está sendo chamado.

Andriolli Costa: Na fazenda de meu avô, o cachorro preferido se chamava Rompe-Ferro, nome que parece saído de um cordel. Ninguém dizia tudo isso para chamá-lo. Bastava gritar “boia” e ele vinha. Já a cachorra de meu irmão se chama Priscila, mas recebe tantos apelidos, incluindo “demônio”, que talvez nem saiba o próprio nome.

Carol Barros: Esse é um problema. Será que o cachorro sabe seu nome? E será que entende todos os apelidos? No caso dela, talvez ainda tenha dúvidas sobre a própria identidade.

Orelhas, caudas e o quinto dedo

Andriolli Costa: Outra antiga forma de proteger o cão contra a raiva era cortar a ponta das orelhas. Nos anos 1990, vimos muito isso em raças como boxer e pit bull. A justificativa nem sempre era estética; dizia-se que o corte protegia a saúde.

Carol Barros: Hoje, as cirurgias puramente estéticas são proibidas. Isso inclui cortar orelhas, caudas e dedos sem necessidade clínica. Basta pensar nos pinschers: muita gente nunca viu um com a cauda inteira porque o corte era feito logo depois do nascimento.

Durante muito tempo, afirmava-se que esses procedimentos evitariam doenças. As pesquisas mostraram que não é assim. Se algum problema aparecer, o veterinário avalia e trata. Não faz sentido submeter um filhote a uma intervenção preventiva que não traz benefício.

Andriolli Costa: Você mencionou o quinto dedo, também chamado de pezinho. O que é essa estrutura? Seria uma sobra da evolução, como o apêndice humano?

Carol Barros: É mais ou menos isso. A maioria dos cães possui cinco dedos nas patas dianteiras e quatro nas traseiras. Alguns nascem com um dedo extra atrás, numa posição mais alta e afastada dos outros.

Ele é chamado de ergô, dedo rudimentar ou, num nome muito bonito, garra de orvalho. Os dedos dianteiros ajudam a segurar objetos e a cavar. Esse dedo traseiro tinha uma função maior para os ancestrais dos cães, que precisavam correr e se equilibrar em terrenos irregulares.

Os lobos ainda possuem estruturas que ajudam nesse tipo de movimento. Nos cães domésticos, o dedo pode não ter utilidade evidente e, às vezes, nem possui ligação óssea completa. Mas, se não causa nenhum problema, não precisa ser retirado.

Andriolli Costa: Dizem que o cachorro com esse dedo consegue identificar lobisomens e, por isso, é um grande perseguidor. A sua sobrinha canina possui um.

Carol Barros: Possui, mas acho que ela identificaria o lobisomem e sairia correndo de medo.

Antigamente, esse dedo era cortado junto com outras intervenções estéticas. Hoje, só se cogita a retirada quando há machucado, enrosco frequente ou outra indicação veterinária. Se o cachorro tem, não há motivo para preocupação; se não tem, também não está faltando nada.

Como se aproximar de um cachorro

Andriolli Costa: Há ainda alguns conselhos de manejo. Não se deve puxar o cachorro pelas orelhas porque isso o deixa covarde, nem pela cauda porque se tornará ladrão.

Carol Barros: Naturalmente, não devemos fazer nenhuma dessas coisas porque provocam dor. Além de machucar, você cria um problema na relação. O cachorro deixa de confiar em quem o trata dessa maneira.

Ao se aproximar de um cão desconhecido, nunca chegue por cima, numa postura ameaçadora. Fique na altura dele, não encare diretamente e espere que o animal tome a iniciativa.

Não force amizade. Pense naquela pessoa que tenta ser íntima de todo mundo imediatamente e acaba incomodando. Não seja essa pessoa para o cachorro. Abaixe-se, olhe para outra direção e deixe que ele se aproxime se quiser. A interação precisa respeitar os limites do animal.

Os cães de São Lázaro

Andriolli Costa: Outra recomendação folclórica é nunca cuspir num cachorro. Existe aí uma relação religiosa: quem mata um cão deve uma alma a São Lázaro. São Lázaro é representado com feridas que os cães lambem. Por isso, os animais se tornam seus companheiros. Quem mata um cachorro fica em dívida com o santo; quem cospe no animal será atacado pelos cães de São Lázaro no caminho para o céu.

Carol Barros: Podemos completar com uma recomendação muito simples: não cuspa e não mate. Cuspir é desrespeitoso, e matar um cachorro, além de errado, é crime.

Andriolli Costa: Curiosamente, cuspir dentro da boca de um lobisomem seria uma maneira de desencantá-lo.

Carol Barros: Eu não sabia disso. A pessoa precisa ter muita coragem para esperar o lobisomem abrir a boca e acertar o momento. É uma cena de filme.

A lambida que cura — ou infecciona

Andriolli Costa: Outra crença muito difundida diz que a lambida do cachorro cura feridas. No interior, recomendava-se até colocar o cão para lamber uma frieira entre os dedos.

Carol Barros: Existe um fundo de observação aí. Os cães lambem as próprias feridas, e a saliva participa do processo de limpeza e cicatrização deles.

Isso não significa que devemos oferecer um machucado humano para o animal lamber. A boca de cães e gatos possui bactérias próprias, contra as quais nosso corpo pode não ter defesa adequada. A chance de infecção é grande.

Eu já fui mordida por cães e gatos, e as feridas infeccionaram justamente porque a mordida inocula bactérias. Então não deixem o animal lamber cortes ou outras lesões.

Andriolli Costa: A crença ainda impõe uma condição difícil: a lambida só funcionaria se o cachorro nunca tivesse comido carniça. Como descobrir uma coisa dessas?

Carol Barros: É impossível conferir. São muitas exigências para cumprir.

O chá de Jasmim do Campo

Andriolli Costa: Agora chegamos a uma prática típica de minha região, mas que Mário de Andrade também registrou em Namoros com a medicina. É o famoso chá de Jasmim do Campo, também chamado de chá de Flores do Campo. “Jasmim do Campo” é o nome dado às fezes do cachorro quando secam e ficam esbranquiçadas. A pessoa recolhe aquilo, prepara um chá e toma como remédio para diferentes doenças.

Carol Barros: Eu nem sei o que comentar. Nunca tinha ouvido falar nisso. É uma prática muito peculiar.

Quando as fezes secam, perdem água e ficam com o material fecal concentrado. Não conheço nenhuma propriedade medicinal que isso possa oferecer. E não aconselho ninguém a experimentar.

Andriolli Costa: Eu transformei o chá de Jasmim do Campo numa carta do meu jogo, justamente para apresentar essa maravilha ao restante do Brasil.

Carol Barros: Então a tradição estará documentada, mas é melhor ficar apenas na carta.

Leite não é antídoto

Andriolli Costa: Na casa de minha avó, o grande remédio para cães e gatos era o leite. Comeu um rato envenenado? Dê leite. Está com dor de barriga? Dê leite. Ele parecia um bálsamo universal.

Carol Barros: Nós somos os únicos mamíferos que continuam tomando leite depois da infância e ainda bebemos o leite de outras espécies. A maioria dos gatos adultos não digere bem o leite de vaca. O mesmo pode acontecer com os cães.

Quando oferecemos leite, o animal pode vomitar ou ter diarreia. A pessoa olha e pensa que ele está colocando o veneno para fora, quando, na verdade, também está passando mal por causa do leite.

Não existe remédio caseiro para envenenamento. Alguns medicamentos humanos comuns, como paracetamol e ibuprofeno, podem ser extremamente tóxicos para cães e gatos. Se o animal ingerir veneno, remédio ou outra substância perigosa, procure atendimento veterinário imediatamente. Até medidas como o uso de carvão ativado precisam de orientação profissional, porque não substituem o tratamento.

O caso do lagarto sem cabeça

Andriolli Costa: Antes do último fato folclórico, quero voltar à sua carreira como cuidadora e consultora. Você começou a trabalhar na área em 2015. Lembra de algum causo relacionado aos instintos que discutimos?

Carol Barros: Como hoje falamos sobretudo de cães, vou guardar para outro programa os muitos gatos pretos maravilhosos que conheci. Eles nunca me deram azar e merecem um episódio só para eles.

Com cachorros, vivi muitas situações inesperadas. Vou contar uma história absurda que mostra como o instinto de caça continua presente.

Eu cuidava dos cães de uma família colombiana que morava num condomínio fechado na região metropolitana de Belo Horizonte. Eram uma golden retriever bem grande e dois lulus-da-pomerânia pequenininhos. Os três eram muito amorosos.

Um dia, estava com eles no quintal quando vi um teiú parado perto do muro. Era um lagarto enorme e escuro. Tomei um susto e me aproximei devagar. Então percebi que havia apenas o corpo: a cabeça tinha sido arrancada.

Entrei em pânico e comecei a ligar os pontos. O lagarto provavelmente entrou no quintal e os cães partiram para cima dele. Imaginei que a golden tivesse liderado o ataque porque era a maior. Quando cães e outros canídeos caçam, costumam buscar pescoço e cabeça, as regiões mais vulneráveis.

O problema seguinte era descobrir o que fazer com o corpo. A casa ficava no meio do mato, dentro de um condomínio enorme, e eu não podia deixá-lo ali para os cães comerem. Passei uns 40 minutos debatendo comigo mesma.

No fim, peguei uma pá de lixo, coloquei o lagarto e joguei por cima do muro, num terreno baldio. Talvez não tenha sido a solução mais ética, mas resolveu o problema naquele momento.

O que mais me marcou foi perceber que aqueles animais continuavam sendo caçadores. Até um lulu-da-pomerânia daquele tamanho carrega esse instinto.

Raça não determina violência

Andriolli Costa: Quando pensamos em caça e agressividade, surgem muitos estereótipos de raça. As pessoas olham para um pit bull e o consideram naturalmente violento. Ao mesmo tempo, circulam histórias dizendo que um husky ou até um golden seria muito mais perigoso do que parece.

Carol Barros: Existem muitas ideias erradas. O pit bull não é um cão naturalmente violento. Na verdade, nenhum cachorro nasce destinado à violência.

O pit bull é forte e musculoso. O mesmo vale para dobermann, rottweiler e outras raças. Eles possuem grande poder de causar dano, mas isso não significa que atacarão sem motivo.

A criação faz muita diferença. Em rinhas, os animais são privados de comida, maltratados e treinados para atacar. A violência é produzida. Um cachorro criado com cuidado terá outra relação com as pessoas e com outros cães.

Também precisamos observar a comunicação. Os cães usam sinais de apaziguamento para evitar ou encerrar conflitos. Desviam o olhar, baixam as orelhas, viram o corpo e mostram que não querem brigar.

Alguns animais têm maior dificuldade nessa comunicação. O chow-chow, por exemplo, pode ser difícil de interpretar e adestrar. É um cão grande, forte e com sinais menos claros. Parece um urso de pelúcia, mas não é uma raça que eu recomendaria para alguém sem experiência.

Por que os cães pequenos parecem tão nervosos

Andriolli Costa: Muita gente diz que cachorro pequeno é o mais nervoso. Minha avó tinha o Vulcão, um cão branco e castanho, pequeno e peludo. Ele mordia o calcanhar de todo mundo.

Carol Barros: Existe uma implicância enorme com pinscher, chihuahua e outros cães pequenos. Fazemos piadas dizendo que são metade olhos e metade tremedeira, mas existe uma explicação para o comportamento.

Primeiro, eles vivem num mundo em que tudo é muito maior. Imagine ser minúsculo e estar cercado por pessoas e objetos gigantescos. Isso já produz insegurança.

Além disso, ninguém respeita os limites de um cachorro pequeno. O animal demonstra que está desconfortável, rosna ou tenta se afastar. A pessoa acha engraçado, pega no colo, sacode e diz que ele é bravinho.

Se um pit bull avisar que não quer contato, ninguém o levantará à força para fazer carinho. Com o pinscher, as pessoas fazem isso porque não têm medo. Como seus sinais nunca são respeitados, o comportamento fica cada vez mais difícil.

Eles não são necessariamente complicados de treinar. O desafio é entender que também são cães e precisam ter seus limites respeitados.

Como o cão virou nome do Diabo

Andriolli Costa: Não poderíamos encerrar sem falar do cão como sinônimo de Diabo. Dizemos que alguém “é o cão”, falamos no “cão chupando manga” e usamos a palavra para nomear uma força maligna. Como o melhor amigo do homem ganhou esse sentido? Câmara Cascudo sugere algumas possibilidades, sem procurar uma origem única. Na literatura medieval, o cachorro ganhou nobreza por acompanhar reis nas caçadas. Em épocas anteriores, nem sempre recebeu o mesmo prestígio. Nos Açores, de onde vieram muitos colonizadores para o Brasil, o cão preto ou coxo podia ser associado ao Diabo. Cascudo também menciona tradições de influência árabe nas quais o cachorro aparece como animal impuro, capaz de violar aquilo que é sagrado. Diferentes caminhos teriam ajudado a formar essa imagem no país.

Carol Barros: Para mim, essa associação está completamente errada. O cão é um animal maravilhoso e não tem nada a ver com o Diabo ou com uma força do mal.

Eu nunca tinha parado para pensar na expressão. As pessoas dizem que alguém “é o cão”, mas aquilo não faz sentido na minha cabeça.

Existem lugares em que a ideia do cão como animal impuro ainda afeta diretamente a vida das pessoas. Naquele período, por exemplo, havia notícias sobre restrições à presença de cães domésticos no Irã. Organizações tentavam resgatar animais e levá-los para outros países. Eu procuro compreender as diferenças culturais, mas confesso que é uma realidade muito difícil para mim.

Da carrocinha aos animais abandonados

Andriolli Costa: A menção aos animais recolhidos lembra outra história muito conhecida no Brasil: a carrocinha que capturava os cães de rua para transformá-los em sabão. A imagem apareceu até na Turma da Mônica.

Carol Barros: Acho que a história do sabão nunca correspondeu à prática real, embora eu também tenha curiosidade sobre sua origem. Os cães recolhidos eram sacrificados, mas transformar a gordura em sabão provavelmente pertence ao imaginário.

Hoje, muitos centros de controle de zoonoses nem conseguem recolher animais. Em alguns lugares, no máximo castram e devolvem o cão à rua. Isso impede o crescimento da população, mas não resolve a situação daquele indivíduo.

Os serviços públicos estão esgotados, cheios de animais e sem recursos. As organizações e os voluntários também já não têm onde colocar novos resgates.

O Brasil possui uma população enorme de animais abandonados. É vergonhoso e muito triste. Boa parte do problema nasce da falta de responsabilidade das pessoas. Se puder cuidar de um animal comunitário ou oferecer uma adoção responsável, faça isso.

“Bicho não é enfeite”

Andriolli Costa: Se você conhece alguma história sobre cães no folclore, envie para nós. Queremos ampliar esse repertório de narrativas inspiradas em nossos bichinhos. Carol, agradeço muito sua participação. Deixe um recado final aos ouvintes — e lembre o pessoal de vacinar o cachorro, além de colocar nome de peixe.

Carol Barros: Primeiro, quero agradecer demais pelo convite. Foi muito divertido. Adoro falar sobre bichos e gostei de reunir duas coisas tão interessantes: o folclore, as lendas e os nossos animais.

Meu recado é: cuidem dos seus bichinhos com responsabilidade. Bicho não é enfeite. Se você leva um animal para casa, precisa entender que é uma criatura viva. Ele sente fome, sede, dor e frio e precisa de cuidados.

Vacine, mantenha o animal seguro e pratique a guarda responsável. Naquele momento, o Pet Lady no Ar saía semanalmente nos agregadores, normalmente às quintas-feiras, com informações sobre comportamento e bem-estar animal e conversas com convidados. Eu também publicava vídeos no canal Pet Lady, inclusive sobre coprofagia.

Muito obrigada pelo espaço.

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