“O belo é que me move”: Anderson Cunha registra os ternos de Reis do Alto Sertão da Bahia

Compositor e idealizador do Antiquis conta como retornou às próprias origens para documentar cantos, trajetos e memórias transmitidos entre gerações de reiseiros

À meia-noite do primeiro dia de janeiro, os reiseiros deixam suas casas e iniciam uma caminhada que só termina no dia 6. Durante o giro, atravessam comunidades rurais do Alto Sertão da Bahia, cantam diante das portas e pedem licença para entrar. Podem chegar às sete da noite ou às três da manhã. Quem recebe o terno interrompe o que estiver fazendo, acolhe a bandeira, dança e oferece comida, bebida, animais ou dinheiro para a festa que encerrará a peregrinação.

Nascido em Bom Jesus da Lapa, ligado familiarmente a Caetité e criado em Guanambi, Anderson Cunha deixou o sertão ainda jovem e construiu sua carreira musical em Salvador. Tocou rock, integrou bandas de baile, compôs para o Carnaval e abriu um estúdio de gravação. Décadas depois, refez o caminho de casa e passou a registrar os cantos que escutava desde a infância.

Nesta entrevista, o compositor e produtor musical descreve a religiosidade, a música e as relações comunitárias dos ternos de Reis do Alto Sertão. Também fala sobre a simplicidade material dos grupos, a transmissão oral, o protagonismo das mulheres e o trabalho do Antiquis, organização dedicada ao estudo e ao registro da memória cultural da região. “Eu sou um músico movido pela beleza”, afirma. “O belo é que me move nesse momento.”

A entrevista a seguir é uma transcrição editada do episódio 103 do podcast Poranduba, apresentado por Andrioli Costa, publicado em 2 de agosto de 2021. O conteúdo foi reorganizado e recebeu ajustes de clareza, concisão e pontuação, sem alterar o sentido das falas.

Andriolli Costa — Para começar, quem é Anderson Cunha e qual é sua relação com o Alto Sertão da Bahia?

Anderson Cunha — Eu sou produtor musical, compositor e moro em Salvador há mais de 30 anos. Vim para cá ainda muito novo. Nasci em Bom Jesus da Lapa, mas minha família toda é de Caetité: meus pais, meus tios, meus avós. Eu me criei em Guanambi. São cidades muito próximas e todas pertencem à região que chamamos de Alto Sertão da Bahia, no Sudoeste baiano. Politicamente, hoje, o governo do estado chama parte dessa região de Sertão Produtivo.

Andriolli Costa — Como começou sua relação com a música? Você já trabalhava com cultura popular?

Anderson Cunha — Comecei muito jovem como guitarrista. Quando cheguei a Salvador, comecei a dar aulas para conseguir me virar na cidade grande. Em Guanambi eu já tinha banda, mas ouvia rock. Aqui toquei na noite por muito tempo, integrei banda de baile e comecei a compor para bandas de Carnaval. Essa parte da composição deu muito certo. Depois montei meu estúdio e hoje tenho uma produtora de áudio. Trabalho com desenho de som e trilhas para publicidade, teatro e cinema.

Um belo dia, achei que deveria voltar às minhas raízes e fazer o caminho de volta para a minha terra. Isso começou a partir de uma produção com Elomar Figueira Mello. Fui fazer uma entrevista com ele, que só aceitou gravar no sertão. Passamos duas noites sem energia elétrica, dormindo num casebre da fazenda. Foi uma experiência mística e muito determinante para eu retomar os laços com a minha região.

Andriolli Costa — Os ternos de Reis já faziam parte das suas memórias de infância?

Anderson Cunha — Sim. Reisado é uma coisa que eu escutava desde criança. É uma música muito forte e, de alguma forma, eu queria mexer nessas memórias. Em 2009, convidei amigos ligados à produção de áudio e vídeo e disse: “Vamos lá entre o primeiro e o dia 6 de janeiro, quando eles saem em peregrinação. Vocês vão gostar. Tem muito trabalho para pesquisar e muita coisa para registrar”.

Foi uma viagem em que captamos um material muito rico. Desde então, nunca parei de voltar. Estamos sempre produzindo e gravando. Hoje temos um acervo muito interessante sobre os ternos de Reis.

Andriolli Costa — Você veio do rock e passou a registrar uma música tradicional e religiosa. Ainda existe um olhar preconceituoso que trata essa música como menor?

Anderson Cunha — Existe preconceito, mas também existe muito orgulho quando as pessoas ouvem e veem o trabalho que fazemos com os ternos de Reis. O problema é que essa não é uma música que cabe na música popular de hoje. Estamos falando de uma música sacra. Uma louvação pode durar meia hora, quarenta minutos ou uma hora.

A música que as pessoas consomem atualmente tem um formato ditado pelos meios e pelas redes sociais. Caminhamos para uma sociedade cada vez mais veloz em relação à informação, e a música entra nisso também. As coisas são muito rápidas. Muitas canções se resumem a uma batida que fica se repetindo em loop. Introdução, desenvolvimento e refrão vão entrando em desuso. O Reisado caminha justamente na contramão disso.

Andriolli Costa — Mesmo quem nunca assistiu a um terno de Reis ao vivo pode se emocionar com a gravação. Por que isso acontece?

Anderson Cunha — É uma experiência muito forte, principalmente quando você está presente. Só posso falar diretamente dos ternos da minha região, porque a tradição muda muito de um lugar para outro. No Alto Sertão, é uma experiência muito ligada à fé e à tradição religiosa. É impossível aquilo não mexer de alguma forma com você. Pode mexer de um jeito ou de outro, mas é uma música que mexe. É como ouvir um canto gregoriano: algum sentimento vai despertar.

Andriolli Costa — O que é o Reisado e quais narrativas estão por trás dessa peregrinação?

Anderson Cunha — A tradição do terno de Reis no Alto Sertão chegou ao Brasil por meio dos portugueses e do povo ibérico. Temos duas linhas que ajudam a pensar essa formação. Uma é a tradição católica dos Reis Magos. No Evangelho de Mateus, eles veem a estrela, peregrinam até a manjedoura e entregam presentes ao menino Jesus.

A outra linha vem das janeiras portuguesas, que guardam uma herança das antigas festas do Deus Sol. Eram celebrações realizadas no Hemisfério Norte no fim da colheita e na entrada do inverno. As pessoas agradeciam por aquilo que a terra havia oferecido, comiam, bebiam e pediam saúde para o ano seguinte. Com a cristianização, o 25 de dezembro passou a ser associado ao nascimento de Jesus, e essas práticas foram sendo reorganizadas.

Nas janeiras, as pessoas saíam de casa em casa cantando, bebendo, levando presentes e recebendo ofertas. Celebravam a vida em comunidade, agradeciam pelo ano que havia passado e pediam saúde para o ano que viria. É algo muito próximo do que encontramos no Alto Sertão.

Andriolli Costa — Em algumas regiões, as folias têm palhaços, bastiões, bichos e fantasias. Por que esses personagens não aparecem nos registros que você fez?

Anderson Cunha — No Alto Sertão não tem palhaço. O isolamento foi determinante para que a tradição se mantivesse viva de uma maneira específica. Estamos falando de uma região que fica praticamente à mesma distância de Brasília, Belo Horizonte e Salvador. Durante muito tempo, era um lugar de acesso muito difícil.

Também é preciso compreender o universo da precariedade. São comunidades rurais muito pobres. A parte alegórica não aparece tanto porque a parte religiosa e a fé estão sempre acima. Quando você vê as pessoas com uma camisa polo simples, um boné e o nome do grupo, aquilo é um retrato da escassez.

Às vezes surge alguém com um projeto de incentivo e diz: “Vamos criar uma indumentária para os ternos”. Mas eles não têm uma indumentária ou um figurino como se espera em outras regiões. Muitas vezes, aquela camisa foi doada por um vereador ou patrocinada pelo dono de um supermercado. Isso não diminui o valor da manifestação. É consequência da desigualdade e da pobreza material dessas comunidades.

Andriolli Costa — Como funciona o giro realizado entre o primeiro e o dia 6 de janeiro?

Anderson Cunha — Os ternos mais tradicionais saem à meia-noite do dia primeiro e não voltam para casa até o dia 6. Antigamente faziam todo o percurso a pé ou a cavalo. Hoje muitos viajam de carro ou de moto, mas continuam passando de casa em casa pela zona rural.

Eles cantam, louvam e agradecem pelo ano que passou. Também recebem aquilo que chamam de ofertas ou esmolas. Pode ser dinheiro, bebida, comida, uma galinha ou um porco. Tudo é guardado para a festa final.

É uma celebração comunitária. Eu passo pela sua casa, canto, danço, agradeço pela saúde e peço proteção para o próximo ano. Depois, no dia da minha festa, todos os que visitei vão à minha casa consumir aquilo que foi oferecido durante o giro.

Andriolli Costa — Nada do que foi arrecadado fica com os integrantes do grupo?

Anderson Cunha — Nada fica para eles. Estamos falando de comunidades de extrema escassez, mas ninguém toca nas ofertas. Tudo é destinado à festa. E, no final, não pode sobrar nada. Ninguém leva aquele pratinho para casa. Tudo o que está na festa precisa ser consumido.

Nem eles sabem explicar exatamente por quê. Dizem: “É assim porque sempre foi assim”. Obviamente, estou falando de alguns dos grupos mais tradicionais que pesquisamos. A região é grande, existem muitas famílias e a tradição vai se transformando. Mas algumas ainda mantêm esse costume.

Como há muitas festas, elas não acontecem todas no dia 6. Uma família marca para o dia 18, outra para o dia 20, porque, se todos celebrassem na mesma data, ninguém conseguiria visitar os outros. Forma-se uma rede de festas. É um momento em que você vê o sertão inteiro agradecendo, dançando e cantando.

Andriolli Costa — E o que acontece quando o terno chega a uma casa?

Anderson Cunha — Pode ser às sete da noite ou às três da manhã. Você pode estar dormindo ou fazendo comida. O Reis começa a cantar na porta e tudo para. Existe uma liturgia para cada momento. Primeiro há uma música para pedir licença e entrar.

Hoje existe uma presença pentecostal muito forte na região, então nem todas as casas abrem mais a porta. Quando não abrem, o grupo respeita e segue para a casa seguinte. Quando a família recebe o terno, os reiseiros entram, entregam a bandeira à dona da casa, louvam o presépio — que chamamos de lapinha —, comem, bebem, cantam e dançam. Aquilo dura mais ou menos uma hora e meia. Depois, a dona da casa devolve a bandeira com muito respeito.

Andriolli Costa — A bandeira também se parece com as utilizadas nas festas do Divino. Qual é sua importância para o terno?

Anderson Cunha — A bandeira é a marca do Reisado. Se você olhar apenas para os materiais, pode ver um farrapo de pano, um monte de coisas presas e um cabo de vassoura. É algo extremamente simples, como tudo nesse universo de escassez. Mas aquilo é sagrado.

Ela passa o ano inteiro na casa do bandeirista. Existe uma pessoa responsável pela bandeira, assim como há quem toque a gaita ou o pandeiro. Quando a responsabilidade muda, a comunidade vai à casa do bandeirista anterior, recebe a bandeira e a leva até o novo responsável. Tudo tem uma liturgia.

Durante a visita, ela é entregue à dona da casa numa referência a Maria diante da manjedoura. Fica com ela até o fim dos festejos realizados naquela residência.

Andriolli Costa — Existem outras regras que precisam ser cumpridas mesmo quando ninguém sabe explicar a origem?

Anderson Cunha — Existem. Os distritos rurais costumam se organizar em círculos, com uma praça e as casas ao redor. Quando o terno começa a visitar as casas numa determinada direção, não pode cruzar o círculo. Eles mantêm essa regra, embora nem sempre saibam explicar o motivo.

Também existe o compromisso de sete anos. Muitas vezes um Reisado começa porque alguém estava doente e recebeu uma graça. Quando a pessoa inicia o terno para cumprir a promessa, não pode parar antes do sétimo ano. Se começar o oitavo, precisa continuar até o décimo quarto.

É muito ligado ao sagrado e à família. O pai passa para o filho, que passa para o neto e para o bisneto. É um saber oral. São pessoas que muitas vezes tiveram pouco acesso à escolarização, mal escrevem o próprio nome, mas sabem de cor meia hora de louvação. Jogam versos, improvisam e sabem uma ladainha que pode durar quarenta minutos. Tudo vai passando de pai para filho.

Andriolli Costa — Você descreve uma tradição transmitida entre os homens. Qual foi o papel das mulheres nesse processo?

Anderson Cunha — No Alto Sertão, era uma tradição predominantemente masculina. Os homens saíam de casa no primeiro dia de janeiro e só voltavam no dia 6. As mulheres ficavam para receber os ternos e preparar as festas. Se imaginarmos o sertão de um ou dois séculos atrás, compreendemos por que muitos pais não deixavam as filhas passarem seis dias viajando a pé ou a cavalo.

Mas houve mulheres que romperam essa regra. O primeiro CD que fizemos foi com o Terno de Reis da Fazenda Boa Sorte, comandado por Dona Vande. Ela contava que sempre foi louca para participar, mas o pai dizia que “mulher não sai”. Depois que ele faleceu, ela montou seu próprio terno, formado quase inteiramente por mulheres.

Fizemos questão de começar por ela porque era uma personalidade de muita força. Dona Vande comandou um dos ternos mais importantes e celebrados do Alto Sertão. A morte dela deixou uma lacuna muito grande.

Dona Leonídia foi outra reiseira muito importante. Já estava com o corpo curvado pela idade e caminhava devagar, mas, quando o terno começava, cantava, sambava e rodava. Parecia que a música a revigorava. Ela dizia que queria o Reis saindo mesmo depois de sua morte.

Andriolli Costa — O que essas performances despertam em você como músico e produtor?

Anderson Cunha — É aí que o meu olhar de artista se encontra com esse trabalho. Eu não me considero um sociólogo nem um estudioso das tradições. Mesmo quando me convidam para palestras, digo que sou um músico movido pela beleza.

O que me leva a registrar esse material e permanecer perto das famílias é o belo. Não tenho uma intenção técnica de fazer um “resgate”. O que nos move no Antiquis é o registro de algo muito belo. A performance de Dona Leonídia, por exemplo, era muito linda de ver.

Andriolli Costa — E como as matrizes africanas aparecem nos reisados da região?

Anderson Cunha — Musicalmente, não percebo uma diferença simples que permita separar um Reisado quilombola dos outros. Caetité foi um polo econômico e político muito importante na formação da Bahia. Teve senhores de engenho, pessoas escravizadas e comunidades negras que permanecem na região.

A tradição católica foi absorvida por essas populações, porque Caetité também era sede da diocese. A Igreja teve força para levar essa música até comunidades muito difíceis de acessar. Quando você chega a um lugar distante e encontra a tradição acontecendo, percebe que existiu uma estrutura que ajudou a disseminá-la.

Ao mesmo tempo, os cantos que chegaram com portugueses e espanhóis foram atravessados pelas culturas indígenas e africanas. O resultado é uma expressão própria daquela região.

Andriolli Costa — Você mencionou o crescimento pentecostal. Como essa mudança afeta os grupos?

Anderson Cunha — Muitos reiseiros se convertem ao protestantismo e abandonam a tradição. Algumas famílias passam a olhar o Reisado como algo pagão porque tem dança, bebida ou determinados símbolos. Há esposas que não querem que os maridos saiam. Existem vários motivos.

Por outro lado, percebo que a Igreja Católica já não abraça e defende a manifestação como antes. O Reisado fica meio boiando: enfrenta resistência de um lado e não encontra sustentação do outro. Isso se soma à pobreza e ao descaso com a educação. É uma população desprovida de muitas coisas e que faz das tripas coração para manter o Reis.

Talvez a tradição tenha permanecido também porque as pessoas precisam da graça, precisam acreditar no futuro. A vida é muito penosa. A fé e a esperança são fundamentais.

Andriolli Costa — Há quem diga que nenhuma cultura precisa de salvaguarda, porque todas mudam. Como você responde a esse argumento?

Anderson Cunha — Não existe como falar da cultura daquela região sem falar do terno de Reis. Ele está integrado à identidade cultural do sertanejo do Alto Sertão da Bahia e também do norte de Minas. É obrigação da sociedade cuidar dessas pessoas.

Claro que as coisas mudam. Algumas tradições vão se fragmentar ou desaparecer. Não podemos impedir esse processo. O que está ao nosso alcance é registrar, discutir e mostrar. Quando olhamos para uma cultura, estamos olhando para as pessoas que a produzem. E são populações muitas vezes desassistidas pelo Estado e pelas instituições.

Andriolli Costa — O trabalho de pesquisa também influenciou sua produção autoral?

Anderson Cunha — Foi determinante para a formação da Sertanília, banda que nasceu junto dessas viagens. Lançamos dois discos, fomos finalistas do Prêmio da Música Brasileira e viajamos várias vezes pela Europa levando e mostrando a música de Reis.

Não fazíamos exatamente como os grupos executam no sertão. Criávamos uma roupagem de música brasileira. Quando chegávamos à Europa, a maneira como as pessoas recebiam aquilo nos deixava com uma pulga atrás da orelha: como elas percebem a beleza dessa música, valorizam, querem ouvir e nos convidam novamente, enquanto quem deveria cuidar das comunidades não tem a mesma sensibilidade?

Essa foi uma das razões para criarmos o Antiquis. Queríamos deixar o registro daquilo que tende a se perder ao longo do tempo.

Andriolli Costa — O que já foi registrado pelo Antiquis?

Anderson Cunha — A Série Reisados tem três discos. O primeiro é o Terno de Reis da Fazenda Boa Sorte, de Dona Vande. O segundo apresenta o terno de Seu Alziro, de Morrinhos, um dos reiseiros mais antigos e respeitados da região. O terceiro é dedicado ao terno da comunidade de Curral de Varas.

Buscamos registrar grupos significativos e antigos. Não é um trabalho fácil. Envolve investimento, transporte e acesso a comunidades distantes. Mas é o que gostamos de fazer. Temos disposição para conversar, produzir e falar sobre a tradição.

Andriolli Costa — As plataformas digitais podem ajudar os jovens a olhar de outra maneira para a tradição da família?

Anderson Cunha — Esse é um dos nossos principais objetivos. Queremos sensibilizar os mais novos para que o sertanejo não olhe a tradição do avô como uma coisa cafona ou menor. Colocamos os discos nas plataformas digitais para que o jovem que está ouvindo outros artistas no celular também encontre o grupo do avô no Spotify ou no Deezer. Ele olha com outros olhos e pensa: “Caramba, isso aqui tem valor”.

Uma das maiores queixas dos reiseiros mais velhos é que os jovens não querem saber. Eu sou uma voz dissidente. Vejo festivais em Caetité, Morrinhos, Guanambi e Igaporã reunindo muitos grupos e muitos jovens. Tenho esperança. Mas precisamos de pesquisa para compreender de onde veio e para onde vai a tradição. Sem isso, o que existe de profundo vai erodindo aos poucos.

Andriolli Costa — Como registrar sem tentar impedir que a cultura se transforme?

Anderson Cunha — Muitas coisas vêm de fora, são consumidas e passam a fazer parte da vida das pessoas. Elas adaptam aquilo e tornam seu também. Isso vai acontecer. Mas o Reisado é só de vocês. Esse Reisado do Alto Sertão é só de vocês.

Já vi terno de Reis no Sul de Minas, no Rio Grande do Sul, na Paraíba e no Rio de Janeiro. Mas esse som, essas melodias, esses ritmos e essa maneira de executar eu só encontrei ali. Às vezes a melodia se repete de um grupo para outro, mas o arcabouço está naquela região. É preciso fazer as novas gerações entenderem que isso é um tesouro.

Cada ancião que morre leva coisas que não conseguiremos gravar. Podemos ter horas e horas de registros, mas não capturamos cem por cento da essência. Quem se sensibiliza tem a obrigação de registrar para que as próximas gerações saibam: “Isso aqui foi do meu tataravô. É uma coisa que me diferencia do sujeito que está do outro lado”.

Andriolli Costa — O isolamento ajudou a preservar a tradição, mas também produziu muitas dificuldades. Como lidar com essa contradição?

Anderson Cunha — O isolamento tem todas as suas mazelas. É muito difícil viver numa região isolada. Há dificuldade de acesso à saúde, à educação, aos mantimentos, à comunicação e ao transporte. Não podemos romantizar isso.

Por outro lado, o isolamento contribuiu para a manutenção de uma tradição. Quando olho da capital, penso: “Que tesouro foi preservado ali. Não podemos deixar isso ser dilapidado”. Hoje os meios de comunicação estão cada vez mais fortes. Qualquer menino da zona rural já tem internet, WhatsApp e Instagram. Ele é bombardeado por tudo, enquanto a tradição oral é extremamente frágil.

O sertanejo é o elo mais fraco dessa disputa. Não vou dizer que o Estado não faça nada, mas poderia fazer muito mais. Precisamos perguntar o que só aquela comunidade tem, o que dá sua identidade e o que pode desaparecer se ninguém criar condições para que ela continue escolhendo o próprio caminho.

Assista à íntegra de Poranduba 103 — Terno de Reis, com Anderson Cunha, no YouTube.

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