[Resenha] O Senhor do Vento

requiem

A primeira vez que ouvi falar de O Senhor do Vento, de Gabriel Requiem, foi durante a gravação do podcast Mitografias especial sobre o Colecionador de Sacis. Num dos blocos finais do programa, quando passávamos indicações para os ouvintes sobre boas obras de literatura ligadas a “ficção folclórica”, a querida Nilda Alcarinque resgatou este conto da memória com a melhor linha guia possível: “Gabriel junta o saci pererê com o Sítio do Picapau Amarelo e a Guerra do Paraguai”.

A sincronicidade me pegou de primeira. Minha introdução aos estudos folclóricos foi fazendo pesquisa na graduação sobre Monteiro Lobato e o sítio. No mestrado, o folclore paraguaio – especialmente o da Guerra – foi um dos temas principais. Ter tudo isso ligado ao saci prometia uma história fabulosa. E a promessa realmente foi cumprida.

Gabriel narra com perfeição uma história intrigante, que chama atenção pelos inovadores paralelos que constrói com o texto fonte do Picapau Amarelo. As referências, diferente do que acontece nas mãos de escritores menos maduros, não estão ali gratuitamente. Todas funcionam de maneira orgânica.

Lembro que quando li A Barca de Gleyre, uma coletânea das cartas escritas por Lobato ao longo de sua vida, ia percebendo detalhes de sua vida que o autor incorporou ao Sítio. Lendo O Senhor do Vento, me peguei fazendo o processo contrário. A história funcionou especialmente bem para mim, porque conhecia a história de Lobato em profundidade. Sua vida em Taubaté, seu nome de batismo, sua família e a importância da figura de seu avô, o Visconde de Tremembé. Isso, no entanto, não é nenhum impeditivo para os que demais leitores. É apenas o famoso plus a mais.

O Saci

Evitarei contar a história para não estragar a experiência de quem ainda vai ler o conto. No entanto, não posso deixar de comentar sobre a inventividade da representação do diabrete no conto. A palavra, Saci, nunca é escrita – apenas sugerida – o que por si só já vale grande destaque. Mas a descrição dos monstros ainda assim consegue ser uma capítulo a parte. Os “senhores do vento” são monstros humanóides, só que meio escorpiões. Possuem carapaça negra, apenas com os membros superiores e uma cauda bulbosa que assemelha-se a um ferrão. A cauda pode ser girada, formando pequenos furacões, ou utilizada para lacerar o inimigo.

O dorso assemelha-se ao de um humano, permitindo a criatura assoprar zarabatanas com setas envenenadas cuja toxina transforma as vítimas em árvore. Para finalizar com chave de ouro, o líder da tribo dos “senhores do vento” usa na cabeça uma coroa de pau-brasil, em um vermelho carregado que contrasta com sua carapaça. Sensacional!

Nota: 05/05

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