O racismo, o saci e o monstro do BBB15 – Entrevista com Angélica Ramos

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No dia 24 de fevereiro de 2015, a auxiliar de enfermagem Angélica Ramos foi eliminada do Big Brother Brasil com 69% dos votos. Negra, careca e cheia de atitude, ela angariou altos índices de rejeição após protagonizar cenas de bate boca e desentendimento com outros participantes do programa.

No entanto, ela provoca: “Eu não fiz metade do carnaval que a Ana Paula faz no BBB deste ano. Mas ela é a lacradora, a rainha da casa, e eu sempre fui tida como a barraqueira. Será que se eu fosse loira e de olhos claros, teria sido diferente?”.

Quando Angélica estava na casa, o blog do Colecionador de Sacis ainda não existia. No Twitter, no entanto, nosso perfil já retweetava automaticamente tudo que se fala de saci nas redes. Na data de sua saída tivemos que desativar o algoritmo de RTs devia à grande quantidade de mensagens racistas comparando ela com o duende, negro e perneta do folclore brasileiro.

“Que nojo dessa filhote de saci da Angélica, querendo desestabilizar o Cezar!”, grita um usuário. “Meu voto vai para a Angélica por falta de afinidade. Ela parece o saci”, justifica outra. Apenas exemplos de uma enxurrada de mensagens que se condensaram naquele momento.

Vale lembrar que, durante o programa, o participante Marco Marcon foi obrigado a se vestir de saci devido ao castigo do “Monstro” – uma das brincadeiras do jogo. No entanto, comparações ofensivas com o mito folclórico continuavam tendo Angélica como alvo.

31jan2015---apos-escapar-da-cuca-aline-o-saci-marco-e-pego-pela-sister-e-levado-ate-ao-caldeirao-na-area-externa-da-casa-o-teologo-precisa-ficar-sentado-no-local-ate-o-toque-1422723607390_956x500Entre as várias versões registradas, dizem que o saci era um escravo que arrancou a perna em que estava acorrentado e fugiu pulando para a mata. Uma narrativa de liberdade e superação. “A história do saci é muito bonita para quem conhece. Mas as pessoas sem cultura o enxergam como uma história negativa no folclore. E eles não vão assimilar o branco com uma história ruim”, aponta.

O saci podia ser o monstro dentro da “casa mais vigiada do Brasil”, mas fora dela a verdadeira monstruosidade era o racismo. Nessa entrevista exclusiva ao Colecionador de Sacis, Angélica conta sobre as montagens que recebeu, sobre o preconceito sofrido pelos próprios filhos – que deixaram de ir a escola por mais de um mês, e sobre as dificuldades de ser negro em um País que não reconhece sua mestiçagem.

“Eu sempre repito a frase que diz: ‘Enquanto a cor da pele for mais importante que brilho nos olhos, sempre haverá guerra’”, reflete Angélica, citando Luther King.

Vamos à luta, então.

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Colecionador: Hoje, um ano após sua eliminação, você considera que a passagem pelo Big Brother Brasil foi uma experiência positiva?
Angélica: Extremamente positiva. Foi muito importante para meu autoconhecimento e amadurecimento como pessoa. Eu não tinha noção do quanto é complicado ser negra no Brasil até entrar no programa, e é muito complicado! Hoje eu estou graduada, pós-graduada, doutorada nesse assunto.

Colecionador: Você tinha noção da rejeição do público enquanto estava na casa? Angélica: Eu não tinha noção da rejeição do público. Porque a gente imagina que 90% da população brasileira é composta por negros ou miscigenados. Todo mundo é muito misturado. Quando eu estive na casa não tive nenhum problema, só quando eu saí que ouvi os comentários.

imagePara você ter uma ideia, minha coletiva de imprensa demorou 45 minutos. Normalmente demora 15! Eu ouvi que ninguém esperava que eu fosse sair, porque as pesquisas falavam que minha votação estava lá embaixo e, de uma hora para a outra, o placar mudou. Os jornalistas me diziam “aqui fora ninguém entende a sua saída. O que você imagina que aconteceu?”. E eu dizia “gente, se vocês que estão aqui, não entendem, como eu vou entender?”.

Não acho que tenha sido questão de manipulação. Acredito que muita gente, no Brasil não está preparado para entender quem defende personalidades. A partir de um momento que um negro aparece na TV e se destaca, alguém sempre vai querer martelar. Não é o que dizem? Prego que se destaca é o primeiro a ser martelado?

Mas muitos me falaram que a edição da Globo foi nos prejudicando. Eles podiam ter mostrado mais outro lado meu, mas ficou como se eu fosse manipuladora e barraqueira. Ainda assim eu recebo muito carinho nas ruas, as pessoas vem falar comigo e me mimam bastante. Eu fico muito feliz com a alegria que me recebem. Por isso é uma saída que não da para entender.

Colecionador: Houve um desafio em que Marco foi vestido de saci, mas as pessoas não usavam isso para ofendê-lo. Saci era uma ofensa a você. Qual a diferença entre chamar um branco e um negro de saci?
Angélica: As pessoas em geral elas não tem cultura, não tem educação. Não tem conhecimento dessas fábulas. O saci é representado por um menino negro que só tem uma perna. A história do saci é muito bonita para quem conhece. Mas as pessoas sem cultura o enxergam como uma história negativa no folclore. E eles não vão assimilar o branco com uma história ruim. Mais um avanço para escravizar o negro.

A história do saci é muito bonita para quem conhece. Mas as pessoas sem cultura o enxergam como uma história negativa no folclore.

No jogo aquele é um castigo, o castigo do Monstro. Então você vai castigar o Marco, todo religioso, fazendo-o se vestir de algo que remeta ao negro. Algo que é um castigo imposto de coisas que não aprovamos. Claro, na casa a gente leva tudo como brincadeira, mas não aqui fora. O público sempre quer castigar. Se tivessem 10 monstros, iam querer que todos caíssem comigo. Na casa não, mas aqui sim.

Colecionador: Como o racismo afetou sua família durante sua participação no programa?
Angélica: Quando eu sai, descobri que meus filhos tinham deixado de ir para a escola por conta de mensagens racistas. Minha mãe foi até a delegacia para registrar boletim de ocorrência, porque eles estavam recebendo pela internet uma série de ameaças por perfis fakes. Diziam que eu deveria sair do programa. Fizeram montagens com fotos de jaulas de animais…

Eles ficaram um mês e pouco sem ir para a escola. Quando voltaram, deixávamos eles na porta da sala, eles tinham supervisão durante o intervalo, eu mesma fui até a escola conversar com os alunos.

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Colecionador: E quanto a você?
Angélica: Eu percebi na hora de arranjar trabalho. Eu acompanho outras mulheres negras pela internet, e todas percebemos outra grande diferença: o salário. O que eles querem pagar para negros às vezes é um terço do que pagam pelo mesmo serviço para um branco.

Para você ver, me chamaram para o Paparazzo tardiamente. Eles só foram me chamar quando o Rafael Gadben, o @urgh, fez uma campanha no Twitter que logou subiu para trending topics. Muitos diziam que era uma decisão por motivo racial. Nesse mesmo dia recebi uma ligação da Paparazzo. Por que será, né?

Mas acontece que eles me ofereceram um valor ridículo. Eram R$ 2,5 mil para fazer o ensaio, sendo que eu sabia que para outra BBB tinham pagado mais que o dobro! Ninguém me falou, eu vi o cheque. Eu disse que, infelizmente, por aquele valor não me interessava. Para mim eles quiseram passar para frente a responsabilidade. Como que dizendo “Nós convidamos, ela que recusou”.

Colecionador: Você disse que recebe muito carinho nas ruas, e inclusive essa campanha apoiando seu ensaio nu é uma mostra disso. No entanto, também percebemos que se existe esse apoio é porque existe uma força contrária, racista e preconceituosa. Nesse embate, quem está vencendo?
Angélica: Para mim não é questão de apoio. O negro vai ter que lutar a vida inteira para ter seu espaço na sombra, porque o sol nasce para todos. Devemos defender a personalidade, o caráter, mas ainda assim as pessoas brancas ainda conseguem atingir o objetivo delas enquanto para o negro isso é muito mais difícil.

Muita gente me dizia que eu era inteligente, talentosa, comunicativa. Que deveria trabalhar como apresentadora, repórter… Mas aí você passa em todas as etapas, chega lá na frente e é recusada. Então eles contratam outra pessoa que não tem nada a ver, mas que é branquinha e padrão, e está tudo bem.

Enquanto eu estava no Big Brother, as pessoas diziam que eu era a polêmica, a barraqueira. Por que eu sou tão polemica? Eu não fiz metade do carnaval que a Ana Paula faz no BBB deste ano. Mas ela é a lacradora, a rainha da casa, e eu sempre fui tida como a barraqueira. Agora voltou a minha entrevista com a Ana Maria Braga, em que eu pergunto: “será que se eu fosse loira, de olhos claros, teria sido diferente?”. Está aí minha resposta.

Eu não fiz metade do carnaval que a Ana Paula faz no BBB deste ano. Mas ela é a lacradora, eu era a barraqueira.

Colecionador: Você disse que não tinha noção das dificuldades de ser negro no Brasil antes do programa. Qual era sua relação com a cultura afro?
7512_804236763018967_56847368894235676_nAngélica: Na minha adolescência eu pratiquei capoeira, dança afro, arte corporal, sempre gostei. Quanto a religião eu sempre fui católica não praticante. Eu tenho familiares que são da umbanda, tias extremamente católicas ou evangélicas, e defendo a tese de que se eu creio em deus, eu vou onde me sinto bem. Pode ser na igreja, pode ser para tomar um passe. Acho interessante na religião afro que, para os outros, parece que só negro bate o tambor, só negro faz dança folclórica… Só negro tem pai de santo, branco tem guru.

Agora eu estou para preparar um ensaio afro para mostrar esse lado de que é bonito você usar um turbante, usar roupa com cores fortes, que não é vergonhoso para o negro usar um estilo africano. Não é questão de religião, porque as pessoas logo associam, mas é das nossas raízes. O negro precisa ser homenageado sempre.

Em novembro passado, no mês da Consciência Negra, eu fiz um ensaio fotográfico de vestido de noiva. Porque nas fotos você raramente vê uma negra de noiva. É como se dissessem que casamento é para menina branca, mulher negra só junta os panos. E a gente tem que se sentir representada.

Nas fotos você raramente vê uma negra de noiva. É como se dissessem que casamento é para menina branca, mulher negra só junta os panos

Colecionador: A representação sempre foi uma preocupação para você?
Angélica: Sim, mas eu não sabia que era tanto. Depois do programa ficou muito mais forte. Porque eu nunca vou deixar de falar alguma coisa quando ver algo errado, mas na mídia parece que os negros não se ajudam. Um não puxa o outro, como se tivessem medo de ficar sem espaço. E não, a gente tem que se aceitar e se ajudar desde sempre.

Eu tenho dois filhos. Meu ex-marido, pai do Luis Otávio, é bem branquinho. Tanto que ninguém fala que ele é meu filho. Meu outro filho, o Vinícius, é mais puxado para a minha cor, mas também é mais claro. E nunca eles tiveram na escola alguém explicando para eles porque um é branco e outro é preto.

Um dia eu vi o Luis chamando o irmão de macaco. Eu corrigi, perguntei da onde vinha aquilo. Ele disse que na escola chamavam um amiguinho de macaco, e ele tinha a cor do Vinícius. Eu corrigi, expliquei que aquilo não estava certo, e ele entendeu. Nunca mais isso se repetiu. Esses tempos também ele não queria falar com outro colega porque o menino era gordo. Também conversei com ele, e essa fase passou. Temos que respeitar a diferença das pessoas.

Hoje meu filho fala que é negro. Antes, ele não dizia, falava que era “mulato”. As próprias professoras falavam que ele não era negro, que era isso ou aquilo. Quando fomos registrar o menino, disseram no cartório que ele era pardo. Eu bati o pé. Meu filho é negro, não tem nada de errado em ser negro.

Hoje meu filho fala que é negro. Antes, ele não dizia, falava que era “mulato”. Eu corrigi. Não tem nada de errado em ser negro.

Eu sempre lembro do Martin Luther King dizendo que “Enquanto a cor da pele for mais importante que brilho dos olhos, sempre haverá guerra”. Ser negro no Brasil é como tirar o sonho das pessoas. Como se o negro não pudesse sonhar, tivesse que passar a vida servindo os outros. O negro, por sua vez, tem que procurar ser um destaque positivo, parar de criticar o próprio negro com piada racista, parar de criticar os outros, tem que estudar, buscar cultura. Tem que se defender buscando sua história, suas origens e buscar sempre melhorar. O negro tem que sair da posição de coitado e buscar o espaço dele para se respeitar.

Colecionador: A educação e o respeito podem fazer o saci perder a conotação racista e virar um símbolo de resistência?
Angélica: Eu acho que o saci ainda tem um cunho muito racista. Você vê o saci e pensa em um menino negro, sem uma perna e que fuma cachimbo. Ele é um monstro que pega as coisas, que rouba, então quando a pessoa te compara com saci ela te compara no sentido negativo. A parte do saci que tem o lado da superação, da liberdade, esses exemplos positivos ninguém lembra. A pessoa não vai associar à deficiência, mas a cor.

Fizeram um monte de montagens minhas por ser negrinha e careca. Saci, Vera Verão, Anderson Silva, Tiaguinho. Eu não ligo de ser comparada com Vera verão. Uma travesti muito bem sucedida, que até o último dia de vida fez muita gente sorrir. Mas não é isso que as pessoas lembram quando fazem a comparação.

 

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