Prévia – Esquadrão Saci

Confira abaixo a prévia de meu novo projeto literário. Texto de Andriolli Costa. Arte da capa por Vilson Gonçalves!

Sacis coras

Capítulo I

Aquela era uma tarde preguiçosa, como eram todas as tardes de julho. O calor que se estendia em picos, ao longo de todo o dia e da noite, espalhava um mormaço sonolento. Daqueles que te deixam o dia inteiro com sono, mas desconfortável –e suado demais – para simplesmente conseguir dormir.

Se você estivesse lá, na Chácara São Bartolomeu, veria que a preguiça era contagiosa. Um punhado de vacas disputava, sem energia, um espaço nas sombras das poucas árvores que sobraram no pasto. As galinhas não tardavam a se recolher, subindo uma escadinha de madeira estrategicamente posicionada e se empoleirando nos galhos frescos de uma jaqueira. Mesmo os donos do lugar, Seu Ramiro e Dona Floriza não pareciam dispostos a fazer muita coisa.

Você não pode culpá-los. É claro que na zona rural sempre há ma coisinha ou outra para ser feita. Seu Ramiro costumava roçar todo dia o mato que crescia na estradinha que levava até a chácara. Dona Floriza se orgulhava de cuidar com carinho de uma grande horta, com legumes e verduras das mais variadas. Tinha mandioca, abobrinha, milho, agrião…

Mas a idade chega e cobra seu preço. Carros já não chegavam mais com muita frequência pela estradinha, mas a dor nas costas sempre passava para uma visitinha. A mesa de jantar, hoje vazia, perdia o propósito de exibir tanta fartura para apenas duas pessoas. Logo a hortinha morreu. O mato se encarregou de tomar conta da estrada.

Os filhos do casal há muito já haviam deixado a terrinha em direção à cidade. Os netos, pobrezinhos, nem tinham como aparecer. Era escola, curso de inglês, piano, natação… Não tinham tempo nem para eles, pensava Floriza. Imagina que perderiam tempo com dois velhinhos esquecidos no fim do mundo, entristecia-se. Por isso, durante alguns dias, ela e o marido se davam uma merecida folga e se permitiam simplesmente ficar largados na rede, horas a fio, aguardando a vida passar entre um cochilo e outro.

Aquilo estava tão parado que até os sacis estavam entediados.

— Já chega! – gritou Pererê, levantando com um tapa no chão. — Não dá para continuar assim.

Sacis branco as2

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