[Entrevista] J. M. Trevisan – “De quantas histórias com saci a gente precisa?”

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J. M. Trevisan, co-autor do RPG Tormenta e roteirista do mangá Ledd

Querem que a gente faça histórias tipo ‘saci tem perna cortada por samurai e vira mestre de kung-fu‘”, ironizou o editor e roteirista de mangás J. M. Trevisan durante a última Comic Con Experience. Em entrevista exclusiva ao Colecionador de Sacis, Trevisan conta que nunca esperou que a frase – dita em contexto de brincadeira – fosse ser pinçada por um jornalista do UOL e ganharia a repercussão que teve. No entanto, o editor não se furta a expor suas críticas.

Para Trevisan, da mesma forma que uma obra não deve ser vista com preconceito só por tratar de elementos nacionais, este também não deve ser o foco na hora de levantar suas qualidades. “As obras precisam ser abordadas em pé de igualdade”, acredita ele. “O saci é legal para caramba, mas quantas histórias com o saci a gente precisa? Quantos projetos? O autor tem que se esforçar para sair do óbvio também, se não fica complicado”.

Outro ponto de dificuldade que o editor percebe em obras que falam da cultura nacional é que a comparação com o nosso dia a dia. “Se o cara faz uma história que se passa em São Paulo e aborda o comportamento do paulistano de um jeito pouco verossímil, eu vou perceber. A nota de corte acaba sendo maior também. Você cobra mais quando conhece e vive o cenário onde se passa a história”.

Trevisan trabalha como editor para a Jambô e é roteirista do mangá Ledd, atualmente em sua 17ª edição. Ele foi convidado a conceder entrevista para o nosso especial, O Saci de Edital. Infelizmente por motivos de agenda, não conseguiu responder até o prazo de publicação da matéria. Sua entrevista agora resgata as discussões abordadas anteriormente e nos ajuda a avançar no debate. Confira!

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As edições de Ledd são publicadas on-line e depois publicadas em encadernados

Colecionador – Quando você fez esta crítica que foi publicada no UOL, expôs haver uma pressão para que os produtores de conteúdo produzam material inspirado na cultura nacional. De que lado vem esta pressão? Dos editores, dos leitores ou da mídia?
Trevisan – Para ser sincero, o mais louco é que eu nunca achei que iam pinçar essa frase, que tinha um tom de brincadeira dentro de um contexto do qual eu mal me lembro. Acho que a “pressão” diminuiu bastante, mas sempre tem alguém com aquela coisa do “nossa cultura é tão rica” e é disso que eu falava. Enquanto sugestão, acho OK. Como imposição, acho um saco.

Não creio que você deva ignorar a própria cultura por preconceito ou viralatismo, mas essa obrigação não faz sentido. Eu entendo que são países diferentes, com valorização cultural diferente, mas no Japão, por exemplo, há trocentos mangás que tratam de outros países, outros períodos históricos e eu duvido que cobrem dos mangakas que façam apenas histórias de samurai. Duvido que alguém chegue pro autor de Vinland Saga e diga “Por que você fica fazendo saga viking se a história do Japão é tão rica?”.

Colecionador – A seu ver, quais os principais problemas ao se valorizar a temática antes do conteúdo?
Trevisan – Não é um problema. O problema é quando o autor se sente obrigado a abordar uma temática, como para entrar em leis de incentivo do governo, por exemplo. Ou quando a compra de livros pelo estado era mais ampla.

Não me entenda mal: se a vontade do cara é fazer um quadrinho sobre a luta do Boitatá contra a Mula Sem Cabeça, sou totalmente a favor. Mas tem coisa errada se o cara deixa de lado um projeto mais universal e que lhe daria mais satisfação para fazer uma história sobre índios porque seria, teoricamente, mais fácil aprovar numa lei de incentivo.

É como a febre – que, acho, agora acabou – das adaptações literárias. De verdade: quantas versões em quadrinhos de Dom Casmurro o mercado brasileiro realmente precisa?

Colecionador – Quais os caminhos para desenvolver uma arte (no caso, quadrinhos) reconhecidamente brasileira?
Trevisan – O problema é definir o que é “brasileiro”. Eu não acho que você precise de uma temática necessariamente nacional para fazer quadrinho brasileiro. São duas coisas diferentes. Se você nasceu aqui, vive aqui, foi criado aqui, tudo o que você fizer vai – queira ou não – será permeado pela sua visão particular. Holy Avenger é um mangá que se passa em outro mundo, com elfos e tudo mais, mas tem cara de Brasil. Um japonês ou americano não escreveria Holy Avenger do jeito que a série foi escrita pelo Marcelo Cassaro. O Brasil é um país muito singular por conta de todas as misturas culturais, e isso sempre vai transparecer na sua obra.

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Piratas do Tietê, de Laerte Coutinho

Um cara que trabalha tudo isso muito bem é o Laerte, que para mim é o melhor quadrinhista brasileiro de todos os tempos. Ele fala de Brasil às vezes sem nem dizer que está falando de Brasil. E sem, necessariamente, apelar para o estereótipo mais comum. Na época dos Piratas do Tietê era muito isso. Ele fazia umas histórias curtas passadas na Vila Madalena que eram tão universais quanto lindas. Não há nada de brasileiro no pirata em si, mas as historias, a abordagem, as temáticas, eram brasileiríssimas. O Gabriel Bá e o Fábio Moon também fazem muita coisa nessa linha.

Em 2008 assinei o roteiro de um curta chamado Landau 66. Não diz onde se passa, não tem criatura folclórica exclusivamente brasileira, mas é nítido e claro que é Brasil. Meu curta é menos brasileiro que um curta que contasse a história do curupira? Na minha cabeça, não.

Colecionador – Como editor de mangás, você acredita que é possível contar histórias nesse gênero tratando da cultura brasileira ou existe uma incompatibilidade estilística? Já recebeu ou trabalhou com propostas assim?
Trevisan – Claro que é possível. Mas a cultura brasileira é super ampla. Eu queria uma época atrás fazer uma história futurística em que o personagem principal era um motoboy paulistano, mas nunca toquei a ideia pra frente. Tem ótimos jeitos de se fazer isso sem cair no lugar comum. Outra coisa que eu ainda quero estudar é o cangaço. Me parece uma coisa muito foda, com chances gigantes de abordagem direta ou indireta.

Incompatibilidade de gênero eu não acho que existe. Com habilidade da pra fazer qualquer coisa. O Pablo Casado faz um trabalho incrível misturando linguagem de mangá, folclore nacional, regionalismo e climão de seriado gringo em Mayara e Annabelle.

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Mayara e Annabelle, de Paulo Casado e Talles Rodrigues

Colecionador – Recentemente o mercado vem recebendo algumas novas iniciativas envolvendo mitos e lendas brasileiros. No entanto, ainda que seja muito mais do que as opções disponíveis há dois, três anos, ainda são bastante iniciativas bastante esparsas. Se fossem publicadas mais histórias envolvendo cultura e folclore brasileiro, não seria possível tirar daí melhores trabalhos de qualidade, ao invés de termos que nivelar por baixo?
Trevisan – Eu acho que a qualidade tem que vir primeiro. É um negócio. É papel do autor também sair do lugar comum e cativar o editor e a editora. Nenhuma editora que se preze vai deixar de publicar um trabalho foda só porque ele aborda o folclore nacional. Só acho que tem que ter mais esforço nessa missão. O saci é legal para caramba, mas quantas histórias com o saci a gente precisa? Quantos projetos? O autor tem que se esforçar para sair do óbvio também, se não fica complicado.

Não acho que tem que rolar o coitadismo do “ei, eu mereço mais atenção porque estou falando da nossa cultura”. Para mim isso não é pré-requisito para compra ou publicação. E, óbvio, não pode servir de desculpa pra desvalorizar também. As obras precisam ser abordadas em pé de igualdade.

Acredito que se a obra cuja identidade é explicitamente nacional é analisada com um teor maior de crítica, é porque vivemos essa realidade todo dia. Se o cara faz uma história que se passa em São Paulo e aborda o comportamento do paulistano de um jeito pouco verossímil, eu vou perceber. Se eu for tentar escrever sobre o Ceará sem pesquisa nenhuma, vou me estrepar. Por isso a nota de corte acaba sendo maior também. Você cobra mais quando conhece e vive o cenário onde se passa a história.

Talvez fosse esquisito se eu fizesse uma HQ sobre o saci – sempre ele – na Paulista. Mas quem mora aqui sabe que o metrô Consolação foi construído embaixo de um cemitério enorme. O que criaria maior identificação? Usar um fato presente, palpável e crível da cidade ou usar a carta manjada do saci? Eu acho a primeira opção mais viável e interessante para todo mundo. Que conste: o Laerte já fez uma tira sobre esse lance do cemitério na época. É universal, pouco explorada e familiar.

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