[Resenha] Xerazade, a onça e o saci

saci, onça e xerazade2Por Andriolli Costa

Em uma leitura comparada, o que mais chama atenção nessas mil e uma noites do sertão nordestino é a força da estrutura das histórias. Sultões se tornam coronéis, vizires são capatazes e os gênios astutos – ou efreets – dão lugar a Saci igualmente ardilosos. Ao fim de tudo, no entanto, a estrutura das narrativas e a mensagem que elas carregam se mantém as mesmas que vem sendo contadas e recontadas desde o oriente antigo.

Isso chegou até mesmo a me incomodar um pouco no quesito inventividade. Foi só quando fui atrás da obra original que percebi o quanto Tiago de Melo Andrade foi referencial em Xerazade, a Onça e o Saci (Edelbra, 2014). A história é absolutamente idêntica, apenas trocando as variáveis por equivalentes brasileiros. Não precisava ser: a premissa de uma contadora de histórias que emenda uma narrativa em outra para encantar o ouvinte e salvar sua própria vida é riquíssima, e ofereceria liberdade total ao escritor para, bebendo da fonte, propor algo totalmente original. Não é o que acontece neste livro, infelizmente. A história, entretanto, funciona em sua adaptação local.

Sinopse

saci, a onça e xerazade1

Ilustração: Eduardo Ver

Quem desconhece o texto fonte, inclusive, pode acabar achando que realmente se trata de uma história típica do cordel nordestino. Nela, o coronel Jairo Sanguinolento e seu irmão Jaime partem à caça de uma onça que estava atacando a fazenda. Voltando mais cedo para casa, eles descobrem que ambas suas esposas os traiam com os funcionários da casa – e ainda faziam a maior folia, debochando com os criados dos chifres dos maridos. Desconsolados, os dois deixam tudo para trás e fogem da vergonha em direção a lugar nenhum. Por acaso, acabam se deparando com o esconderijo da onça que caçavam mais cedo. Esta, na verdade, era um demônio encarnado, que tinha em sua posse uma bela mulher encantada. A moça obriga os irmãos a “namorarem” com ela enquanto a onça dorme e depois confisca suas alianças. Era o que precisava para completar as 100 vezes em que traiu a onça, estando portanto livre de sua maldição.

 

Jairo e Jaime tem então uma revelação: se mesmo a onça-demônio poderosa como era pode ser traída, o problema não estava no homem, mas sim na mulher. Decididos, voltam para casa recrutando um grande grupo de cangaceiros, retomando suas propriedades, matando todos os funcionários e em especial as ex-esposas. Jaime se compromete a nunca mais se casar, para não voltar a ser enganado. Já Jairo, tal qual o sultão das Mil e uma Noites, tem uma ideia diferente: ordena a seu capataz que o traga, a cada dia, uma noiva diferente. Eles fariam uma grande festa e, depois das núpcias, a mulher seria degolada sem ter tempo de cometer uma traição. E assim o faz durante vários anos até que, por fim, a filha do capataz se oferece para ser desposada. Seu nome é Xerazade, e ela tem um plano.

Pontos fortes e fracos

saci, a onça e xerazade

Ilustração: Eduardo Ver

Gostei bastante da proposta do livro, mas lamentei o paralelismo absoluto entre as histórias. Xerazade emenda uma história na outra para ganhar tempo, e mesmo estas emendas são idênticas ao original. O mercador rico que comia tâmaras e é atacado pelo Gênio, nesta versão, come jabuticabas e recebe a visita do saci. Os transeuntes que passam pelo local e se oferecem para contar histórias ao diabinho em troca de parte da vida do mercador também são os mesmos. Detalhe: as narrativas são deliciosas, mas o mérito aqui é menos do autor e mais do texto fonte.

 

A onça-demônio também é muito bem colocada no livro, mas é deixada para trás com menos de 1/4 de história. Não sei se justificaria sua presença no título. Tive expectativas que ela voltasse no final, ou ao menos que estivesse presente em um dos contos de Xerazade. Isso favoreceria a circularidade narrativa e só faria o livro engrandecer.

Também admito que esperava uma punição para Jaime Sanguinolento ao final, mas tal qual na obra original ele é simplesmente premiado com um casamento feliz – mesmo tendo passado anos matando impunemente moças atrás de moças após desvirginá-las. Tudo bem, nem toda história precisa ser problematizada e isso faz sentido já que a obra é uma transposição, mas eu daria mais valor ao texto se a adaptação tivesse se preocupado mais em refletir sobre o que ela evoca.

As ilustrações de Eduardo Ver compõe perfeitamente o livro e são feitas ao estilo xilogravura, emulando inclusive algumas falhas na impressão típicas deste estilo de arte. Ainda assim, elas seriam mais valorizadas se a impressão do livro fosse melhor. Pelo preço de capa, R$ 39,70, achei que merecia um acabamento mais apurado, com um papel de qualidade ao invés deste sulfite branco. Vale conferir, mas sem muito alarde.

Nota: 2,5/5

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