O nosso “folk-lore”(1916)

Publicado na Revista O Tico-Tico, p. 19
19 de abril de 1916 (Grifos nossos)

caipora 1Promettemos no ultimo numero fallar do Curupira, personagem fantástico imaginado pelos indios, que é o mesmo Caipora ou Caiporinha de que nossos sertanejos têm ingenua superstição.

Os indios tinham, desde tempos immermoriaes, a lenda de diversos espiritos a que davam varios nomes, segundo as suas… “funcções”.

Chamavam Curupira, os espiritos, que presidiam aos pensamentos. Anhangá era o espirito do mal ou o próprio demonio. Macachêras eram os espiritos das estradas e caminhos desertos. Acreditavam tambem na

Os selvagens lhes tinham tanto medo, que era bastante imaginarem que haviam recebido do Maraguigana* algum aviso ou recado de morte, para acabarem morrendo mesmo… de susto, segundo relata o padre Simão de Vasconcellos em sua obra sobre costumes dos indios brazileiros.

Accrescenta o mesmo escriptor, que os indios faziam offerendas a esses espiritos funestos, coma intenção de lhes captar as bôas graças e obter que elles desfizessem os seus vaticinios.

caipora 3Fallámos a respeito dos fogos-fatuos, que se notam nos logares onde ha detrictos organicos em putrefacção, como nos cemiterios, pantanos, etc.
No interior das mattas tambem se notam essas emanações phosphorescentes, que os sertanejos chamam caiporas e affimrmam serem almas de caboclos, que morreram pagãos.

Os supersticiosos matutos dizem que o caipora lhes aparece numa encruzilhada, sob a fórma de uma mulher muito feia, pulando num pé só, ou de caboclinhos de olhos de braza, a pedir fumo para o seu cachimbo,

E dizem elles:

– Triste de quem faz uma viagem á noite, pelo meio da matta, sem levar um pedacinho de fumo de rôlo para o caiporinha!…

caipora 2Quando tratávamos, e um dos numeros de Fevereiro, do folguedo chamado Bumba-meu-boi, descrevemos o typo do caiporinha, que figura na representação como uma creança de cabeça enorme, arranjada com uma urupema (peneira), sobre a qual é posta uma saia que se amarra em volta do pescoço.

Afirmam que o caipora dorme durante o dia e á noite percorre as encruzilhadas dos caminhos ermos, á procura de viandantes, a quem vá assombrar.

A palavra caipora é um termo indigena que quer dizer morador ou habitante do matto.

Algumas versões apresentam o caipora a correr, montado num veado e acompanhado de um cão, chamado Papa-Mel, segundo escreve o historiador Dr. Barbosa Rodrigues.

[Nota do Colecionador: Em Macunaíma, Maraguigana é um sapo poderoso que fez surgir do nada um dilúvio por causa de Maanape ter matado um boto pra comerem]

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