A Mãe D’Água – Relato de Osogarf (1931)

Publicado na Revista O Tico Tico, p. 34.
11 de março de 1931 (Grifos nossos)

capa12 - CopiaConquanto a civilização tenha penetrado nos mais longinquos reconditos do sertão brasileiro, ainda ahi encontramos a cada instante individuos assaz supersticiosos que crêem dogmaticamente em bruxas, mães d’água e outras lendas creadas pela imaginação fertil do sertanejo patricio.
Uma vez, viajando pelo interior do Ceará ouvi uma narração, algo comica, de um estancieiro com o qual entretinha velhas relações.

Um seu vaqueiro, caboclo ainda forte apesar de contar 70 annos de idade, cria com religião nas mães d’água e defendia eloquentemente sua ignara superstição.
Jurava por tudo que lhe vinha á mente que já encontrara a sereia.
É triste de quem duvidasse!

O caboclo encanecido contava a sua aventura aos rapazinhos mais valentes que architectavam planos de aprisionar a “yara” se ella lhes apparecesse algum dia…
Dizia o sertanejo que certa vez voltando do campo com o gado, caminhava silencioso e vagarosamente pelo matto a fóra; mais adeante corria um riacho, descrevendo uma grande curva em baixo de uma tapada, ficando assim um trecho do rio completamente occulto aos olhos dos passantes… que não se desviassem da picada que passava pouco acima. Formava ahi o regato uma espécie de bacia de regular profundidade que offerecia aos viajantes um optimo e discreto logar para refrescar-se do calor terrível que ali é commum.

Ninguem, entretanto, ousava submergir o corpo na banheira natural, pois aquelle recinto era habitado por sereias, segundo a legenda corrente das redondezas.
Sempre atraz dos bois, vinha o nosso sertanejo e ao avizinhar-se do sitio abaixou a cabeça respeitosamente como evitando ver alguma coisa.

A curiosidade porém o venceu em breve e o caipira, deixando o gado um pouco afastado, fitou a bacia das sereias.

Estremeceu horrivelmente e lançando longe a aguilhada embrenhou-se, em corrida louca, pelo campo immenso. Como suspeitava, uma mulher lindissima banhava-se no rio. Estava meio submergida e ostentava enorme cabelleira verde.

Asim que presentiu os passos do vaqueiro quebrando os gravetos secos do caminho, submergiu rapida, cobrindo-se as águas de alva espuma…

Terminava assim a narração do velho sertanejo, ouvida pelos moleques da fazenda.
Contou-me depois o fazendeiro que a “mãe d’água” não passava de uma moça, chegada recentemente da cidade em viagem de descnaço. Era filha do feitor da fazenda e julgando-se protegida pela ramaria entrou no rio sem saber que era “povoado” de “sereias”.

Como se suppõe, facilmente, os “cabellos verdes”, nada mais eram do que novo fruto do cerebro tão suggestionavel do roceiro.

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