O Sacy Pererê – Relato de E. Wanderley (1931)

Publicado na Revista O Tico-Tico, p. 19
24 de junho de 1931

saci tico ticoSeu Nicolau, mais conhecido abreviadamente por Seu Nico, era um homem que não acreditava em nada e nem tinha medo de coisa alguma.
Quando se falava em fantasma, assombração, almas do outro mundo ou lobishomem na frente delle, Seu Nico sorria e caçoava da gente. Nem do sacy-pererê elle tinha medo!
Sempre destemido, facão na cintura, espingarda ao hombro, charuto na bocca, Seu Nico passava, ás vezes, dias e noites no meio do matto caçando.
Era o divertimento delle.
A distracção era o charuto. Só tirava o charuto da bocca para commer e para dormir.
A’s vezes dormia até com elle nos dentes, e não foi uma vez nem duas que acordou com o peito da camisa queimado pelo charuto acceso que lhe cahira do queixo quando elle pegara no somno.
Aquilo havia de lhe fazer mal um dia.
Não demorou muito que não lhe apparecesse uma azia no estomago e um calor de fogo nas guéllas, tudo devido á seccura do fumo.
O doutor recommendou que elle parasse com aquillo. Partisse o charuto em dois ou três pedacinhos e só fumasse um por dia, cada pedacinho depois do almoço ou do jantar.
Com grande sacrifício Seu Nico fez isso. Mas vivia desolado. Não achava graça em nada. A comida para elle não tinha mais gosto.
Ficou doente da mesma maneira. Não tinha mais a azia nem o calor de fogo na garganta, mas andava banzando como cobra que perdeu a peçonha.
Sua vingança era caçar. Ia para o matto cedinho e voltava noite fechada, trazendo pacas, raposas, tatús, cachinguelês.
Todo bicho que passasse ao alcance do seu tiro via a queda. Era um bicho morto.
Certo dia elle amanheceu com cara de mais doente.
Disse que tivera febre de noite e sonhou que tinha atirado numa serpente grande com asas no meio da mata. Pegou a espingarda e foi sahindo.
A gente aconselhou que elle não fosse. Elle era teimoso quando estava bom, quanto mais assim doente…
Disse que não tinha nada de mais. A febre já tinha passado, elle queria matar a serprente, e metteu-se na matta.
Passou lá o dia inteiro. Chegou a noite e elle não voltou.
A gente ficou com cuidado. Não lhe tivesse acontecido alguma cousa…
Elle não andava lá muito bom da cabeça, não… Aquillo era scisma.
Fomos ver si o encontravamos. Bate daqui, bate dali, demos com uma coisa cahida no meio da matta. Aecendemos o isqueiro e vimos que era Seu Nico. Estava desacordado. Carregámos com elle para o rancho. Demos-lhe mésinha boa para maleita e elle foi melhorando.
Quando abriu os olhos a primeira coisa que disse foi – O sacy!…
– Vosmecê viu, Seu Nico?
– Vi, sim, respondeu elle, sem poder se levantar do girau.
E explicou o “caso”:
– Elle veiu pulando, pulando, pulando num pé só, com um barretinho encarnado na cabeça, carapinha, e um cachimbo na bocca… Chegou perto de mim e pediu:
– Ocê não tem um pedacinho de fumo pra mim, Seu Nico?
– E elle sabia seu nome?
– Sabia sim… Eu procurei um pedacinho do charuto… Não tinha mais. Fumara os dois que me restavam. Elle ahi me atirou no chão…
Fiquei no chão…
Não sei de mais de nada…
– Está vendo? O senhor dizia que não acreditava… Ta hi… Mas o culpado disso foi o doutor que “improhibiu vosmecê” de fumar, e só deixava umas migalhas de charuto…
– Foi mesmo… Foi o doutor o culpado… Foi elle, sim…
E o pobre Nicolau, no delírio da febre, ainda julgava ver o sacy-pererê, pulando, pulando a lhe pedir fumo para o seu pito…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s