[Clipping] Dia do Folclore: Olha lá o Saci

Tradições populares brasileiras sobrevivem e se renovam a cada dia, apesar das imposições do saber científico e do colonialismo cultural

Saci na igreja de serra negra

Saci no teto da Igreja de São Benedito, em Serra Negra. Foto: Cris Bierrenbach

Reportagem publicada originalmente na edição 250 de Globo Rural

Afinal, o que faz um saci no teto da igreja de São Benedito? Como pode compartilhar a companhia dos anjos, se a Igreja o considerava um ente demoníaco? Quando o artista plástico Cid Serra Negra o pintou ali o fez, sobretudo, por coerência pessoal, afirma a pintora e escritora Maria Rita Rieli, com quem conviveu – moravam em Serra Negra, SP, município do qual tomou emprestado o nome. “Por que não?”, desafiaria, se fosse vivo. “Ele acreditava em mitos, respeitava as tradições populares e fazia questão de valorizá-las aos olhos da sociedade”, diz. Desagradou fiéis mas não foi taxado de herege, como esperava, embora talvez o fosse se o pintasse na igreja matriz, não na de São Benedito. De qualquer forma, o saci está lá, com asas e auréola, como se vê na foto acima.

Segundo a crença popular, pode ser visto em todas as regiões do país, principalmente à noite. Tradicionalmente, é descrito como um negrinho de uma perna só, com cachimbo na boca e uma carapuça vermelha que lhe dá poderes mágicos. Adora travessuras. Esconde coisas de terceiros, derrama sal na cozinha, solta animais dos currais. “Se, de manhã, você encontrar um cavalo com a crina trançada, pode ter certeza: foi o saci”, garante Ditão Virgílio, de 52 anos, apicultor em São Luiz do Paraitinga, a 180 quilômetros da capital paulista.

Ele diz que o viu pela primeira vez aos seis anos. “Tava no alto do morro quando vi folhas balançando no meio do mato e um cisco crescendo ao redor. O cisco foi crescendo, crescendo e, de repente, virou rodamoinho. Então eu vi o saci no meio do vento. Nunca esqueci. Era um negrinho com gorro vermelho fazendo careta pra mim. Apesar do susto, não tive medo. Parecia um menino como eu! O rodamoinho que ele montava rodopiou morro abaixo e fui atrás, coração na mão, curioso. Daí, subiu até um taquaruçal fechado e sumiu. Só depois descobri os furinhos no bambu, onde os sacizinhos nascem. Meu pai me achou detrás de um toco, meio abobado, e me levou pra casa. Minha mãe me olhou e disse: não é nada; acho que viu saci.”

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Ditão mostra o furo do bambu de onde saiu o saci (Foto: Cris Bierrenbach)

Segundo consenso entre historiadores e folcloristas, o saci é o mais popular dos mitos brasileiros. Há outros, como o lobisomem, o caipora, a mula-sem-cabeça, a iara e o boitatá, reconhecidos em quase todo o território nacional. A maioria, porém, circula em regiões específicas: o mapinguari, o boto e a boiúna, na Amazônia; o cabeça-de-cuia, o barba-ruiva e o gorjala, no Nordeste do país; o Romãozinho, no Centro-Oeste; os negros d’água, no Sudeste; o Negrinho do Pastoreio, no Sul. O lobisomem se aproxima em popularidade, mas é um mito europeu. Veio com os colonizadores portugueses – há quem diga que havia um na caravela de Cabral. O “perneta”, ao contrário, é genuinamente nacional. Como diz Mário Cândido, presidente da Sosaci – Sociedade dos Observadores de Saci, “é uma síntese das três raças que formaram o Brasil: o índio, o negro e o branco”. Nasceu curumim, moreno, com duas pernas e um rabo. Durante a escravidão, confrontado com a mitologia africana, perdeu uma perna, escureceu e passou a fumar cachimbo – o pito dos pretos velhos. Por fim, ganhou o gorrinho vermelho dos europeus – o piléu, dado aos escravos libertos na Roma antiga.

Agora, virou símbolo de resistência contra o colonialismo cultural, status que já alcançara no início do século passado, à época de Monteiro Lobato. Na ocasião, o escritor fez uma pesquisa entre leitores do jornal O Estado de S. Paulo, publicada sob o título “O Sacy Pererê – Resultado de um Inquérito”, através do qual criticava o “afrancesamento” das elites brasileiras, em detrimento dos valores e raízes nacionais. A França era a principal referência cultural no cenário internacional – hoje, são os Estados Unidos.

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Encenação diante da igreja matriz, em Joanópolis: aposta no turismo do imaginário (Foto: Cris Bierrenbach)

Campanha
Criada em 2003 por pessoas interessadas na valorização e difusão do folclore brasileiro, a Sosaci tornou-se conhecida pela campanha em prol da institucionalização de 31 de outubro como Dia do Saci, data dedicada nos últimos anos, no Brasil, ao Halloween (ralouin, como dizem os “saciólogos”), festa tipicamente norte-americana – é uma espécie de Dia das Bruxas. São Luiz do Paraitinga e São Paulo já o adotaram oficialmente. Outros municípios, como Curitiba, PR, Juiz de Fora, MG, São José do Rio Preto e Penápolis, SP, acolheram projetos de lei nesse sentido, atualmente em fase de tramitação nas respectivas câmaras. Porém, não foi a Sosaci que o resgatou do ostracismo a que foi relegado após a campanha de Lobato, e, sim, a Associação Nacional dos Criadores de Saci, fundada pelo engenheiro José Oswaldo Guimarães em 1983, após visita a Itajubá, MG.

Conforme diz, estava num bar quando ouviu falar de um criatório de sacis ali perto. Conversa vai, conversa vem, acabou localizando a propriedade, comprovando a veracidade da informação. De volta a Botucatu, fundou a associação, recebendo, em poucos anos, centenas de adesões e relatos de aparições. Segundo Oswaldo, é fácil criá-los. “Quando você está contando uma história de saci para uma criança, acabou de criar um.”

Várias entidades do gênero surgiram no rastro da ANCSaci, como a ACL – Associação de Criadores de Lobisomem, de Joanópolis, município encravado na Serra da Mantiqueira, na fronteira de São Paulo com Minas Gerais. Ninguém sabe ao certo quando o mito nasceu na região. Os relatos de aparição multiplicaram-se a partir de 1983, quando a folclorista Maria do Rosário Tavares de Lima defendeu tese em São Paulo, denominada Lobisomem: Assombração e Realidade, tendo como cenário o município. Em 1987, foi visto por moradores do Sabiá-Una, povoado a 22 quilômetros da cidade. Entre eles, Antônio Alves Graciano, o Toninho, de 52 anos, produtor de leite (tira dez litros por dia) e criador de galinha – prato cheio para o lobisomem.

“Era uma noite gelada. Eu tava debaixo das cobertas quando ouvi a cachorrada gritando. Estranhei. A gente sabe quando o latido é de fome, de ferimento ou de briga com algum bicho ou outro cachorro. Naquele dia, não. Latiam de medo. Daí, ouvi alguma coisa riscando a porta dos fundos e pensei no Craque (seu cachorro), desesperado, tentando entrar. Levantei de cueca para ver o que era, abri a porta, acendi a luz… Foi quando vi o coisão. Um vurtão, regulando com bezerro. Ele esticou o cabelo pra lá e correu no rumo do galinheiro. Foi quando saí gritando: pega! pega!”. Que pega, que nada. O Craque se enroscou na minha perna e a cachorrada correu pra perto de mim. E veio o susto. Me dei conta do que era a coisa e arrepiou tudo. Onde tinha pelo, levantou. Mas tá errado, pensei. Não tenho medo. Então, por que o arrepio e a montoeira de cachorro em volta de mim? O lobisomem é aquele que corre lá ou eu que tô pelado no mundo, sentindo muito, muito frio? Voltei tremendo pra casa, deitei na cama e me cobri com tudo que tinha. Daí a pouco ouvi um fervor no sítio do vizinho, no alto do morro. Puxa! O bicho corre, pensei. Já está lá em cima. Só aí me acalmei.”

Segundo Toninho, o “vurtão” nunca mais apareceu. “Acho que mudou pra Joanópolis”, brinca, referindo-se à “lobomania” na cidade: artesanato, camiseta, adesivos, cachaça (repelente de lobisomem), festas, eventos, trilhas pelas montanhas onde, supostamente, o bicho pode passar, faz-se tudo em nome do lobisomem, estilizado em desenhos e bonecos pelo artesão Marcos Bueno. Assim como fez a população de Barão de Cocais, MG, sede do Clube das Mulas Sem Cabeças, Joanópolis investiu no chamado “turismo do imaginário”, alicerçado no estudo, reaproveitamento e projeção do folclore, conforme explicação do professor Valter Cassalho, da ACL. “É uma desculpa para viajar em busca do lúdico, um meio de reconciliação com o sobrenatural”, diz ele, lembrando que o lobisomem local é bonzinho, o oposto do que foi popularizado pelo cinema americano.

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