As maiores dúvidas sobre mitos brasileiros segundo o Google

Por Andriolli Costa

A inteligência coletiva dos motores de busca, como o Google, sempre me intrigou. Por ela, conseguimos ter um vislumbre não apenas do comportamento dos usuários, mas de suas principais dúvidas e inquietações. Os resultados que o sistema sugere ao auto-completar foram o resultado algorítmico de milhares de buscas anteriores que se provaram eficientes para o máquina. Não seria interessante fazer uma “engenharia reversa” desse pensamento?

Resolvi fazer um exercício  buscando na inteligência coletiva da máquina as principais dúvidas sobre o imaginário coletivo do povo. Digitei o nome de alguns mitos, que você pode verificar abaixo, e o resultado das principais buscas relacionadas a eles veio a seguir. O panorama é interessante.

1) Saci
saci

Muitas das dúvidas relacionadas ao saci são quanto à sua sílaba tônica. Saci é oxítona, isto é, tem a sua última sílaba (o Ci pronunciada com mais intensidade). Talvez isso denote um uso frequente do mito em exercícios de língua portuguesa nas escolas. Se saci é um substantivo abstrato ou concreto também pode muito bem ser algo ligado às tarefas escolares. O uso do saci como exemplo deve estar ligado ao fato de que também é substantivo concreto seres existentes, fictícios ou imaginários.

O lastro do saci expulso é referência ao mascote do Internacional de Porto Alegre, justamente o duende perneta. Em partida do Brasileirão feminino, o juiz expulsou o saci do campo por estar anarquizando o jogo. Já a dúvida sobre se o saci é um demônio, não resta a menor dúvida: vem da demonização da cultura brasileira – especialmente a negra, muito por conta de certos grupos evangélicos. Saci já foi descrito sim como capetinha, diabinho, mas como metáforas para seu comportamento travesso. Nunca foi dito como sendo um ser maligno. No inquérito sobre o saci de Lobato, por exemplo (1918), uma das histórias conta inclusive que o duende recebeu sua carapuça do próprio Deus. Não é sem motivo que na Igreja de São Benedito, em Serra Negra, temos sacis com asas fazendo as vezes de anjos no teto.

2) Iara

iara

A mesma ignorância que recai sobre o negro saci incide sobre a Iara. O motivo, desta vez, não é pela cor da pele, mas também pela referência às culturas afro. Diversas umbandas constroem um sincretismo entre a sereia brasileira e Iemanjá, o que atrai novamente a repulsa de grupos cristãos. Daí a dúvida sobre iara ser demônio.

Outra semelhança encontrada nas buscas é ligado a gramática: iara é hiato, isto é, encontramos duas vogais em sílabas separadas nessa palavra: i-a-ra.

Iara é mito ou lenda? Essa é uma dúvida muito frequente, já que vários acabam utilizando ambos os termos como sinônimos. Para diferenciar com facilidade, considere lenda como uma narrativa indissociável de um determinado local e de um determinado período. Como o Negrinho do Pastoreio, que é uma lenda do pampa gaúcho sempre contada no contexto do fim da escravidão (século XIX para XX). Mito é uma narrativa mais universal e em transformação, sem essa fixação.

Iara é um mito, que dialoga com vários outros, inclusive o da sereia europeia. Justamente por essa ligação com as sereias, se formos acompanhar a mitologia mesmo, veremos que não existe nada de “boazinha“. O mito da iara, bem como o das sereias, é de uma violência dissimulada, que engana pela beleza, pelo canto, pela aparência e por promessas falsas de vida eterna, mas atrai para a morte no fundo das águas. Por ser tido como “coisa de criança” por muito tempo, muitos autores tornaram mitos como a iara em protetores da natureza genéricos, mas no folclore ela continua assustadora.

região da Iara é especialmente o Norte, mas há relatos no Sudeste. Um mito correlato, da Mãe D’água, também se apresenta no  Nordeste e Centro-Oeste. Seu nome é Tupi e significa Senhora das Águas.

3) Curupira

Curupira

Curupira não é a mesma coisa que caipora. Existem várias diferenças entre eles, a começar pelo nome. Curupira significa, entre outros, “corpo de menino” e caipora “habitante do mato”, sendo este último normalmente peludo, troncudo e musculoso enquanto o primeiro é mais esguio (não necessariamente infantil). A principal é que desde o estabelecimento da forma física para o curupira (já que nos primeiros relatos, só se falava dele como uma entidade das matas, sem referência ao corpo) temos a presença constante dos pés voltados para trás. Há vários relatos de caiporas com pés de tudo que é jeito, inclusive com um pé só, mas curupira sempre para trás.

O curupira é verde? Bem, alguns curupiras são descritos como verdes. Outros vão falar em aparência indígena. Outros ainda vão entender o nome como corruptela de Curub-Pir, do mesmo radical do sapo cururu, fazendo do curupira um ser com o corpo coberto de pústulas. O medo de saber se o curupira é um demônio aqui já não se liga às religiões afro, mas mais uma vez está no contexto evangelizador frente às culturas indígenas. A região do curupira é principalmente Norte, Sudeste e Centro-Oeste. E com certeza o Curupira é real, mas se cair na prova, já sabe, né?

4) Caipora

caipora

Já respondemos que caipora não é igual a curupira. Curioso é que esse ser possui tantas formas que é difícil dizer qual a mais comum: há caiporas de uma só perna, de um só olho, que são gigantes, que são anões, que andam num porco do mato, que montam em onças, que se transformam em árvore ou mesmo em chuva (!). A fêmea se popularizou muito por conta do Castelo Rá-Tim-Bum, mas também há várias histórias com ela no folclore brasileiro. O típico trickster das histórias do Nordeste será o caipora, não o saci. Certa vez perguntei ao meu avô, que é do Ceará se Caipora era fêmea ou macho:

“Eu sei lá, rapaz. Nunca vi o rabo dela. É bicho selvagem!”

Fico com essa resposta.

Caipora e Curupira são mitos, não lendas. Histórias deles não estão contidas por nenhum marco temporal ou nenhum espaço hiperlocal específico. Mas é interessante a dúvida sobre se caipora é um mito brasileiro. A resposta, por incrível que pareça, é não. O mito é Guarani, da onde vem o Kaapor/Kaapora que forma seu nome, portanto há caiporas também no Paraguai, Argentina e países onde essa etnia se espalhou. Lá há versões em que caiporas são gigantes que fazem com os ossos de suas vítimas flautas com as quais atraem novas vítimas para devorar.

5) Boitatá

boitatá

Boitatá é um mito, mas há uma versão muito famosa dele no Rio Grande do Sul envolvendo o hábito de devorar os olhos dos animais que morreram no dilúvio. Essa história foi criada por Simões Lopes Neto em 1913, mas se tornou tão famosa que foi incorporada ao imaginário popular, ao ponto de pessoas contarem sobre o Boitatá como se fosse uma lenda ocorrida nos tempos imemoriais do dilúvio divino.

Existem boitatás por todo o território nacional, e este é um dos mitos mais antigos já registrados em nosso país. Onde houver morte, decomposição e luar, haverá fogo fátuo para incendiar a serpente de chamas.

Serpente? Sim. Muita gente fica surpresa ao descobrir que boitatá não é um boi. Seu nome vem de Mboi – cobra, e Tata – fogo, em Tupi. No entanto, a surpresa é ainda maior quando descobrem que a fluidez do imaginário também criou versões onde boitatá é boi sim! Todos os boitatás de Franklin Cascaes, em Santa Catarina são bovinos, e os que Oswaldo Xidieh encontra no litoral de São Paulo também são touros com chifres em chamas. É o Português que ouvia mboi, entendia boi e deixava o medo dar forma à imagem.

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