Mascote brincalhão do Inter, Saci também é resistência

Em 2010, o diretor de marketing do Inter disse aos torcedores que o saci era visto como um “perdedor” pelas crianças por não ter uma perna e fumar cachimbo. Hoje, incluído em diversas ações e brincadeiras do time o mascote representa melhor as características de liberdade e poder do mito folclórico que o inspirou.

globo esporte

Por Andriolli Costa

A carapuça não saiu em momento algum de sua cabeça, mas o chapéu campeiro estava cuidadosamente preso às costas quando ele entrou no estádio. Em suas mãos, nem sinal do cachimbo. Trazia, entretanto, uma gaita vermelha de oito baixos cujas primeiras notas logo arrancaram os aplausos da plateia que o seguiram em coro. O saci gaiteiro fez o hino rio-grandense ecoar pelo Beira-Rio, alegrando os corações dos torcedores do Internacional naquele 26 de julho que se encerraria com uma derrota de 3 X 2 para o Botafogo.

Independente de índices e resultados de partidas, nada é motivo de tristeza para o mascote perneta. Com um sorriso eternizado no rosto de espuma do boneco, o saci tem feito a alegria do torcedor colorado nas partidas do clube desde o início deste ano – quando passou a realizar ações mais performáticas. Desde então, o negrinho já fez as vezes de maestro ao piano; perdeu um duelo de dança contra um segurança do Inter e até mesmo arranjou uma companheira num jogo no Dia dos Namorados.

Um dos responsáveis por esta retomada da figura do saci no Internacional foi o diretor de administração André Flores, que ressalta que essa mudança veio desde o início da gestão 2015. Flores lembra que o mascote agora está presente não apenas dentro, mas também fora de campo. “Estamos colocando o saci em todas as ações do clube. Quando recebemos os haitianos, o saci estava lá. Na Campanha do Agasalho ele participou também. O saci está integrado ao grupo”.

O negrinho que perdeu a perna
JpegTamanha presença chama atenção visto que a relação do time com o diabrete perneta está sempre na tensão entre preconceito e resistência. Cesar Caramês, do setor de pesquisa histórica do Museu do Sport Club Internacional explica que não há consenso da época em que o saci foi adotado como mascote. “Sabe-se que quando o Inter passou a contratar jogadores negros de forma sistemática, na transição do futebol amador para o profissional, a imprensa começou a associar o clube à imagem de um menino negro”. Relatos dão conta de que na Folha Desportiva e no jornal À Hora, o negrinho era retratado como pregador de peças.

“Em torno dos anos 1940, as repetidas vitórias do time fizeram com que dirigentes de outros clubes acusassem o Inter de utilizar magia negra para vencer”, relata Caramês – ressaltando que carecem mais documentações sobre o assunto. Do negrinho travesso para o mágico saci foi um pulo – de um pé só, estimulado pelos chargistas dos jornais. Transformar a ofensa em símbolo de resistência foi uma resposta ao racismo. 

renteria-comemora-gol-pelo-inter-com-cachimbo-e-gorro-de-saci-1302196487837_300x300Nos anos 1990, o mascote acabou ficando bastante de lado, e só voltaria a recuperar sua força entre 2005 e 2006, quando o colombiano Wason Rentería reviveu o duende brasileiro para a torcida. O jogador passou a comemorar seus gols saltando de uma perna só. Logo mais, para delírio do estádio, tirava um cachimbo e um gorro do calção e vestia para incorporar, de vez, o saci colorado. Detalhe que Rentería conseguiu reviver o momento na quarta-feira (17), durante a comemoração dos 10 anos da primeira Libertadores do time.

O “politicamente correto” tentou matar o saci?

mascotes

Mesmo com a retomada capitaneada pelo saci artilheiro, o futuro do duende como mascote do clube ainda parecia incerto. Desde 2007, o Inter desenvolve seus projetos sociais através do Projeto Interagir para atender crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social e econômica. Especialmente para o Inter Social, o artista Gustavo Corrêa criou Escurinho – um macaco com a camiseta colorada, em 2009. A presença do novo mascote gerou estranhamento na torcida. A direção do time negava que o objetivo era substituir o saci, mas a publicidade sobre Escurinho era tão grande que ele chegou a competir contra outros mascotes oficiais em programas de TV.

Incomodados, em 2010, alguns torcedores entraram em contato com a direção questionando sobre o sumiço do saci. A resposta, quase padronizada, circulou em diversos veículos especializados. Assinada por Jorge Avancini, diretor executivo de marketing do Internacional, ela justificava:

O Saci hoje tem rejeição por parte das crianças, pelo fato de não ter uma perna, isso é visto como perdedor e por fumar cachimbo, além de ser politicamente incorreto as crianças estão associando este ato ao ato de fumar Crack. Se observares onde temos usado o Saci ele já aparece sem o cachimbo.

E continua:

Outro ponto que nos prejudica com o Saci, é que o fato de não ter uma perna, limita em muito a mobilidade e agilidade do boneco em ações de campo e ações promocionais, fato esse que nos coloca em desvantagem quando comparado com outros personagens.

A resposta gerou polêmica. Muitos se perguntavam se o assim chamado “politicamente correto” mataria o saci. O termo, no caso diz respeito a um apagamento de controvérsias em nome de uma régua moralizadora padrão. Da mesma forma como não se podia mais jogar o pau no gato, não se podia mais ter um personagem folclórico fumante. A perna que falta também incomodaria pela diferença ao normativo.

Estas decisões, no entanto, ignoram a própria capacidade da criança de simbolizar e fruir as narrativas de forma não-literal. Como o saci joga bola se ele tem uma perna só? Essa é uma questão que apenas adultos desencantados se fariam. Quem vive o encantamento sabe: ele joga porque é mágico.

Vale lembrar que várias versões relacionam a falta de perna do saci como lastro direto da escravidão. Dizem que ele era um escravo que, ao se ver acorrentado, preferiu cortar uma das pernas e saltitar em direção da mata. É o saci como símbolo de liberdade, e sua perna ausente como a lembrança dos sacrifícios que os sacis – e, portanto, nós – tiveram que fazer para serem livres.

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André Flores, acredita que o cachimbo do saci era algo típico da época, mas que realmente precisava de revisão. Mesmo performático, o saci de hoje passa longe do fumo. “Antigamente as pessoas fumavam livremente nas novelas. Hoje em dia não, isso não faz mais sentido. Além disso, fumar ou não é irrelevante dentro do contexto do saci, que é levar alegria para o torcedor”. No entanto, ele é categórico ao defender as demais características fundamentais do perneta: “O saci representa a juventude, a negritude, o fora do padrão”.

Flores descreve o saci como um PCD, uma pessoa com deficiência. “Ainda assim, essa deficiência não o torna um inválido. Pelo contrário, ele é ágil, brincalhão, um lutador. É o símbolo ideal para um clube da inclusão, o Clube do Povo, como é o Inter”. Apesar das tentativas de promover o apagamento das diferenças, o saci é exemplo de pluralidade e resistência.

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