Psicanalista interpreta elementos simbólicos do mito do Saci Pererê

Dos vários textos que andei lendo sobre o Dia do Saci, este, da psicanalista Sonia Regina Lunardon Vaz – publicado em 2009 pelo portal paranaense Bonde – foi um dos mais surpreendentes. Ele começa no feijão com arroz, naquelas descrições sempre presentes no blog sobre a origem do saci e seus aspectos comportamentais. No entanto, a partir da segunda metade do texto, a autora busca destrinchar cada elemento do mito de acordo com o Dicionário de Símbolos de Jean Chevalier e Alaim Gheerbrant.

Como pesquisador da linha Durandiana do imaginário, não gosto muito da visão fragmentada de olhar o mito pela perspectiva de verbetes de dicionários – antes, buscamos a ligação que estas constelações de imagens evocam para fazer a mitocrítica. No entanto, não podemos negar que são interpretações muito interessantes e que fogem das explicações padrão. Confira abaixo o texto na íntegra.

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Arte: Rodrigo Rosa

 

O Saci Pererê – Saltado Endiabrado

Por Sonia Regina Lunardon Vaz

De nossas raízes, primeiramente das tribos indígenas do Sul do Brasil e posteriormente dos negros, nos chega um dos folclores brasileiros mais encantadores: o negrinho Saci-Pererê.

O mito tem procedência ameríndia, de fonte tupi-guarani. Teria sido, primitivamente, um mito ornitomórfico: pássaro encantado e, ainda hoje, em diversas versões, o saci é uma ave. Transformou-se, depois, no mito antropomórfico do negrinho de um pé só que caracteriza sua forma mais popular.

O Dia do Saci é 31 de Outubro. Foi instituído em 2005 como forma de valorizar o folclore brasileiro.

Uma das vovós que contavam histórias, disse um dia, que o Saci saltador, possui uma perna só. Usa um gorro vermelho, sempre está pitando um cachimbo e ostenta uma das carinhas mais sapecas e vivazes de toda a mata.

Antes disso, ele era retratado como um pequeno curumim endiabrado que tinha duas pernas, tez morena e um rabo típico dos demoniozinhos.

Através da influência da mitologia africana, o Saci se transformou. Como os negros lutavam capoeira, o Saci passou a ser retratado como um negrinho que ao lutar perdeu uma perna. Da mesma influência afro, veio o seu cachimbo, denominado pito pelos nossos negros.

E como no Brasil, há mesmo uma miscelânea de culturas e gentes , o pequeno Saci negrinho, acabou herdando dos branquelos de olhos azuis, que seriam os europeus, este seu gorrinho vermelho.

Ele é mesmo um “trickster“. Tipicamente brincalhão e travesso vai pelo campo se divertindo ao assustar com seus assovios e grunhidos, tanto os animais quanto com as pessoas.

No entanto, ele é um profundo conhecedor de plantas e ervas medicinais. Controla e guarda os segredos do feitio e da aplicabilidade de todas as plantas e ervas da floresta. Sem seu aceite ninguém deve se aproximar das ervas , pois o Saci pode se aborrecer e fazer mil e uma travessuras. No sertanejo, os caboclos costumam deixar nos galhos das arvores um naco de fumo para o negrinho ficar manso e não embaraçar a vida das gentes.

As vovós contavam e as mamães assentiam, que foi o Saci-Pererê que fez o feijão queimar, que jogou o dedal de costura num buraco e que escondeu objetos perdidos como a meia que ficou sem par, a camisa que desapareceu, os botões da blusa que se perderam e os documentos que sumiram, sem contar que é o Saci que leva para não sei onde as sombrinhas e guarda-chuvas.

E no sítio, quando a gente se acorda pela manhã e vai fazer o café e se assusta ao ouvir um barulhão de tropel dos cavalos, pode contar que ele andou trançando as crinas dos pobres coitados e por isso estão até agora aterrorizados.

Pelo menos, era isso que a vovó sempre dizia. E quando as crianças com o olhar assustado buscavam o consolo da mãe, esta balançando positivamente a cabeça afirmava que o Saci fez mesmo isso e muito mais, porque ele e o redemoinho são transtornos iguais.

Afinal, ele até mora num deles e se a gente quiser capturá-lo basta jogar uma peneira sobre o redemoinho. Para garantir sua obediência, é só tirar-lhe o capuz e em seguida prendê-lo numa garrafa.

O vovô garante que ele mesmo capturou muito desse modo. No entanto, ainda nenhuma gente achou qualquer garrafada de Saci. Penso que esta é mais uma história feita a do pássaro que o vovô dizia que, para capturá-lo, bastava colocar sal em sua cauda. Ou então, talvez seja o Saci muito esperto para se deixar prender por tanto tempo assim.

Os Sacis nascem em brotos de bambu, lá onde cantam os ventos. Ali eles vivem por sete anos até aprenderem a fazer vento em redemoinhos.

Quando ficam sabidos vivem por mais setenta e sete anos a fim de atentar a vida das pessoas e dos bichos.

Depois de todo esse tempo de diversão eles morrem e viram uns cogumelos venenosos para mais uma vez “passarem a perna” nos seres viventes que, por acaso, se atreverem a comer os cogumelos.

Enfim, o Saci-Pererê representa uma força completamente indomada da Natureza. Nenhum homem ou mulher pode com ela.

Como em todas as mitologias, na africana também existe a Mitologia da Gênese do Mundo e nela eles contam que, primordialmente, tudo o que existia era um vento. Um vento em forma de redemoinho tão forte, tão forte que foi concentrando partículas do universo em seu centro até formar a Terra.

Na cultura africana, esse vento se chamava Exu. E ele representava uma grande força natural capaz de tudo acontecer. Seu poder era o da criação e da destruição. Não se via nenhum mal nele. O problema era apenas que esse vento era incontrolável e jamais parava.

Quando aconteceu a negociação para o sincretismo das religiões afro e cristã, os negros concordavam que Exu deveria ser representado por Jesus Cristo. Mas, os cristãos se indignaram com a proposta. De modo que só restou ao Exu ser comparado ao Demônio cristão.

E assim é que em seu mitologema, o Saci-Pererê ainda guarda os atributos de força daquele que gerou a Terra para a cultura africana.

Segundo o Dicionário de Símbolos de Jean Chevalier e Alaim Gheerbrant, o redemoinho é símbolo de uma evolução incontrolável pelos homens e mulheres. Possui um movimento helicoidal que sugere uma ascensão evolucionista apenas dirigida por uma força instintual, cuja violência significa uma extraordinária intervenção no decurso das coisas.

Por outro lado, ainda citando Chevalier e Gheerbrant, o perneta representa um grande poder que pode ser interpretado de forma nefasta ou não. Podendo ser comparado ao deus supremo ou ao senhor dos infernos. No entanto, o perneta, em ambos os casos desperta em nós o medo do Destino por que o mundo temporal dos homens é regido pelo número par, pelo 2 e não pelo 1 que é o número que rege o intemporal, o desconhecido e proibido.

Grandes deuses da mitologia universal são caracterizados por uma perna só ou por coxear como é o caso de Hefesto, o deus do fogo na Mitologia Grega.

De acordo com várias culturas pesquisadas por Chevalier e Gheerbrant, o cachimbo simboliza a força e a potência do Homem Primordial, microcósmico, invulnerável e imortal em sua harmonia com as forças do Macrocosmo que ele representa.

A fumaça que se evola do cachimbo partiu da união do fornilho (altar) e do tubo do cachimbo ( conduto do sopro vital ) significando que sua vida está em harmonia com a Natureza inteira, de modo a conceber uma postura soberana.

O cachimbo assegura potência e invulnerabilidade. Diz Marquette: “… Basta trazê-lo consigo e exibi-lo, para caminhar em segurança em meio aos inimigos, que no auge do combate, abaixam suas armas quando se lhes mostra o cachimbo sagrado…”. Ele é um emblema destinado a ser usado quando surge assunto sério ou de importância vital.

O nosso Saci- Pererê nos ensina um grande poder através de seu mitologema. Uma sabedoria milenar e carregada de força, guardadas em sua simbologia advinda dos nossos índios e dos nossos negros. E ainda não pára por ai. O que será esse gorro vermelho, além de ser um acréscimo da cultura européia?

Vestir um gorro significa que a pessoa se abstém de seus próprios pensamentos para se apropriar e ou se unir ao pensamento da coletividade, de modo a utilizar sua sensibilidade a fim de verificar os ideais e princípios do coletivo. É como usar uma capa de invisibilidade e de atemporalidade.

O gorro vermelho do nosso Saci representa, pela sua cor, que ele é símbolo fundamental do princípio da vida tal como o fogo e o sangue. Em sua aparição, sugere que fiquemos alertas e que tenhamos reverência frente ao perigo da força descomunal da Natureza. Nos incita à vigilância e à inquietude requerida pela vida natural de todo o ser chamado Terra.

A simbologia do cogumelo nos reporta a vários povos: chinês, dogons, os orotch da Sibéria, os bantos do Congo Central e etc. Todos falam de sua simbologia. Existe, porém, um ponto em comum, pois todos concordam que o cogumelo é símbolo da vida regenerada pela fermentação e decomposição orgânica, isto é, pela morte.

Assim, o Saci-Pererê, moleque pretinho das histórias da vovó como canta uma canção, é imortal. Sua morte é apenas uma transição para uma nova forma de existência. O Saci do cachimbo de barro continua eternamente saltando e pulando numa perna só, seja de um jeito, seja de outro. Uma violenta força natural que não sucumbe e nem desaparece. Emerge aqui e acolá independentemente das forças humanas. A vida da Terra continua. O Saci-Pererê, para todo o sempre, irá recriá-la.

Esse pequeno deus é um deus saltador, um deus leve e um deus que brinca e se diverte, além de aplicar seus conhecimentos curativos. Isso me lembra Nietzsche que afirmou em Zarathustra que é com o riso que se mata o Espírito de Gravidade por onde todas as coisas caem.

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