[Podcast] Popularium – A Mulher do Padre

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Está no ar o piloto de um novo podcast do Mundo Freak que tenho a alegria de capitanear! O Popularium vai destrinchar mitos e lendas do folclore brasileiro pela perspectiva do imaginário. Neste primeiro episódio falamos da Mula Sem Cabeça como mito de restrição do feminino.

Essa é uma novidade para mim, um podcast solo, então ainda estou tateando este caminho. Por favor, se tiverem alguma sugestão, comentem comigo! Agradeço imensamente ao Andrei Fernandes pelo convite, pela confiança e pela paciência. Se quiserem ver a temporada completa do Popularium, acesse https://apoia.se/confidencial.

Para escutar o programa, acesse o Mundo Freak. Confira abaixo o roteiro do programa.

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 A MULHER DO PADRE

Por Andriolli Costa

Essa história não se passa em uma cidadezinha desconhecida, daquelas onde a luz elétrica ainda teima em não alcançar. Também não se passa em uma noite de lua cheia, nem ocorreu com algum amigo de um amigo meu e nem ao menos se deu em uma época muito, muito distante.

Não, essa história aconteceu em Julio de Castilhos, no ano de 2014 e está registrada nos autos do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Neste triste enredo da vida real, nossa personagem não tem nome. Afinal, ela ainda era menor de idade quando o caso aconteceu. No entanto, poderia carregar o nome de qualquer uma das centenas, talvez milhares de jovens que passam por situações semelhantes em nosso país.

Então com 14 anos de idade a adolescente foi violentada pelo próprio pai durante mais de um ano e acabou engravidando. A moça conseguiu na justiça o direito de abortar. Seu pai, por fim, foi condenado. Ainda assim, para o promotor de justiça Theodoro Alexandre da Silva Silveira, o aborto foi um crime mais grotesco do que estuprar a própria filha. Mais do que isso, a responsabilidade dos atos seria toda da garota.

“Pra abrir as pernas tu tem maturidade, tu é autossuficiente, e pra assumir uma criança tu não tem? Tu é uma pessoa de sorte, porque é menor de 18. Se tu fosse maior eu ia pedir a tua preventiva agora, pra tu ir lá na Fase, pra te estuprarem e fazerem tudo o que fazem com uma menor de idade lá.” […] “Tu teve coragem de fazer o pior, matou uma criança, agora fica com essa carinha de anjo? […] Eu vou me esforçar o máximo pra te pôr na cadeia.”

No discurso do promotor, de vítima a jovem passou a criminosa. De alvo de uma monstruosidade, foi ela própria tornada em monstro. Um caso entre tantos outros que ilustra toda a culpa e a responsabilidade que incidem sobre a figura da mulher. É ela a responsável pela queda do homem, aquela que cede à tentação do abismo. Feiticeira, utiliza de todos os seus sortilégios para arrastar um homem para a perdição. Para além do universo do concreto, encontramos estas imagens de mulher pecadora, ou digna de maldição, em narrativas de todo o mundo.

No folclore brasileiro, um dos mitos mais conhecidos e que incorpora esta problemática é a Mula Sem Cabeça. A mulher amaldiçoada se torna a mula negra que solta fogo pelas ventas, cuja sina é correr por sete cidades toda noite até cair de exaustão com o nascer do Sol. Feroz e enlouquecida, a criatura assombra os viventes que cruzam seu caminho, lhes chupando olhos, dentes e unhas.

Neste episódio, vamos dissecar o imaginário popular, refletindo sobre o que ele evoca no simbólico. Assim, veremos que estes mitos e lendas, em última instância, não dizem sobre monstros encantados, mas sobre nós mesmos.

A Mula

Como em todos os relatos da sabedoria do povo, existem várias versões para a história da mula sem cabeça. Dizem que a maldição recai sobre a “concubina” de um padre. Uma mulher capaz de tentar um homem santo a romper seus votos de castidade. Outros falam ainda que, ao invés de padre, a perdição estaria em se deitar com um compadre – o padrinho do casamento. Ou mesmo em praticar qualquer relação incestuosa.

Como castigo divino, a mulher amaldiçoada se transforma na mula. A Burrinha do Padre, como dizem no Nordeste. Um ser que, mesmo reconhecido pela ausência da cabeça, regurgita pelas ventas o fogo do inferno. Dizem que a criatura não relincha, mas geme como gente. Geme de dor. A mula sem cabeça, afinal, é um mito de restrição do feminino. Um ser moldado pela culpa.

A primeira pergunta que cabe ser feita é: por que uma mula? Por que escolher justamente este animal para representar aquela que se relaciona com um padre? Gustavo Barroso, citado por Câmara Cascudo, traz uma suposição. Ele lembra que até o século XIX, a mula era o animal preferido escolhido por monges europeus devido a sua resistência e capacidade de enfrentar os terrenos mais difíceis. Tanto que a expressão “burrinha de corpo” se popularizou para dizer respeito a pessoas muito queridas pelos religiosos.

Os folcloristas não dizem com estas palavras, mas é fácil supor que o povo maldava a relação do sacerdote com sua besta de carga. O bestialismo, o sexo com animais, é uma constante em relatos de peões e grupos mais ligados a lida com os bichos. Não seria esta uma constatação de se surpreender.

Já o psicanalista Mário Corso oferece outra interpretação que também pode dar pistas para a construção do mito. Lembra ele que a mula é um cruzamento de duas raças diferentes. Um híbrido estéril de égua com jumento. De certa forma, um ser anti-natural.

As visagens de mulas amaldiçoadas são uma constante na América Latina. Na Argentina existe uma criatura bastante semelhante, a Mula Anima – ou Alma de Mula – que em algumas regiões fronteiriças também recebe o nome de Mula sin Cabeza. Dizem que é uma Mula Preta, de grandes orelhas, que solta fogo pelo nariz e relâmpagos pelos olhos. A criatura corre de noite, acompanhando o sopro dos ventos mais fortes. Suas patas arrastam pesadas correntes a cada passada.

A Mula Anima come apenas carne, capturando animais silvestres, domésticos e até mesmo crianças para satisfazer sua fome. Para retirar sua maldição é preciso cortar suas orelhas ou tosar-lhe a crina. Outra opção é abrir um talho em sua pelagem, na forma de uma cruz. Diferente da mula brasileira, entretanto, a maldição se dá no post mortem. Não é possível resgatar a pessoa que se torna mula, mas assim ao menos sua alma poderá finalmente desencarnar.

A Cabeça

Outra inquietação que este mito traz é também seu elemento mais contraditório. A mula não tem cabeça, mas anda com um freio de ferro, possui olhos injetados, solta fogo pelas ventas, morde furiosamente. Como é possível?

Existem diversas criaturas sem cabeça no folclore universal. Um dos mais famosos, talvez, seja o próprio Cavaleiro Sem Cabeça, do folclore irlandês – representado como um arauto da morte. O que se percebe é que a cabeça, como não poderia deixar de ser, é uma cabeça simbólica. Sua não existência carrega a mensagem da renúncia à razão, do enlouquecimento. Imagens ressaltadas pela transformação da mulher em animal – ou seja, abraçando sua desumanidade.

No tensionamento entre natureza e cultura, aquela que recebe a maldição da mula se aproxima muito mais a esta natureza selvagem que o homem há séculos vem tentando domar.

A Sina
Mais uma vez, o período é impreciso. Dizem que são em todas as noites de lua cheia. Outros que nas noites de quinta para sexta-feira. Falam ainda que é apenas no período da quaresma. Fato é que a mulher para se tornar mula procura sempre uma encruzilhada. Nela, sofre a terrível transformação da carne, e parte em disparada para correr desembestadamente por sete cidades até cair de exaustão com o nascer do sol.

Com seus cascos afiados como navalha, a mula pisoteia até a morte pessoas ou animais que atravessarem seu caminho. Ou pior: se a mula encontra algum vivente em sua passada, chupa-lhe os olhos, os dentes e as unhas. Tanto que os mais sábios recomendam que assim que ouvir seu tropel, é preciso se jogar no chão para esconder os pontos fracos da criatura.

Dulce Helena Briza é quem nos dá as pistas para compreender este fenômeno. Os olhos que a mula arranca nos fazem perder o rumo, a consciência, a capacidade de nos orientar e de enxergar a realidade. As unhas e os dentes, por outro lado, são nossas defesas naturais. A mula nos deixa indefesos, inertes, à mercê de suas forças inconscientes subjetivas, individuais e coletivas.

A Maldição

O folclorista Luis da Câmara Cascudo levanta algumas formas pelas quais a mulher pode se livrar da transformação. Uma delas diz que o padre com o qual ela se relacionou deve maldizê-la toda vez que for rezar a santa missa. Mais uma vez, reforça-se a ideia da mulher como àquela a ser culpada, quando na melhor das hipóteses ambos seriam igualmente responsáveis. Já na pior delas, como no relato de Julio de Castilhos, a figura de autoridade é que acaba abusando da outra parte.

Raras vezes alguma punição cai sobre aquele que teve relações com a mulher amaldiçoada. Existe, no trabalho de alguns estudiosos, o relato de um “cavalo sem cabeça”, que seria a versão masculina do mito. No entanto, o próprio desconhecimento popular desta versão mostra como o imaginário punitivo da mulher fala muito mais alto.

Assim como no caso da Mula Anima, existem algumas formas de libertar a mulher de sua sina. Um destes modos é desencantar a criatura arrancando seu sangue com um alfinete virgem. O sangue vai operar como elemento redentor, como batismo, marca do sofrimento trazido pelo suposto aprendizado que o castigo maldito trouxe.

Mas existe ainda uma segunda possibilidade, simbolicamente oposta a anterior: retirar da mula seu freio de ferro encantado. Os folcloristas insistem que é preciso muita coragem para realizar tamanho feito. No entanto, retirar os freios é devolver à mulher sua liberdade. É retirar dela a culpa, o peso, a dívida, a responsabilidade de coisas que nós – como sociedade – é que colocamos nela, em um longo processo de desumanização.

Hoje vivemos num processo em que as próprias mulheres lutam para recusar estes freios. Freios que vem da política, da religião, da família, da escola e dos relacionamentos. Muitos ainda insistem em colocá-los, querendo fazer valer a moral dos tempos antigos. Esquecem eles que a cultura popular é dinâmica. Mutante e mutável, caminha com a sociedade. Transforma-se com o povo.

É hora de desencantar de culpa o feminino. Não existe espaço para restrição e punição em um mundo onde a liberdade nos é tão cara.

Libertemo-nos, então.

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