Alfredo Stroessner – O Ditador e o Velho do Saco

el-hombre-de-las-sombras-1

Cena do filme canadense The Tall Man, 2012

Andriolli Costa

A brutalidade de Alfredo Stroessner, ditador que comandou o Paraguai de 1954 a 1989, era lendária. Ao ponto de inspirar uma série de histórias espalhadas pelo povo e que o tempo faz ganhar estatuto de verdade. Ocorre, no entanto, que toda lenda finca seus pés em fatos históricos. Ancora-se no Real, ao ponto em que se torna quase impossível separar uma coisa da outra.

Uma das mais chocantes narrativas sobre o regime foi contada por Elvio Acosta, ex-policial e motorista de Strossner, durante os depoimentos para a abertura da Operação Condor. Diz o homem que, no fim da vida, o ditador teria mandado sequestrar crianças paraguaias e até mesmo da fronteira. Acosta conta ter visto meninos e meninas, com pouco mais de dez anos, serem capturados, estuprados, dependurados e degolados. Strossner então se banharia com seu sangue, seguindo um nada ortodoxo tratamento para uma doença de pele. “Sua pele era um desastre.  Ele tinha lepra”, resume.

A doença de Stroessner nunca foi confirmada, embora tenha sido alvo de muita especulação pela imprensa. Nos últimos anos de ditadura, já não apertava as mãos daqueles que o visitavam no Palácio do Governo. Cumprimentava a todos ao estilo oriental, inclinando a cabeça.

regular_stroessner-jpeg

Stroessner e sua suposta doença de pele

O depoimento parece ser muito extremo mas, exceto pela parte do banho de sangue, as informações sobre os sequestros e abusos de crianças foram confirmadas pelo relato de outras fontes. “O ditador Stroessner violava por mês pelo menos quatro meninas”, conta Rogelio Goiburú, membro da Coordenação de Memória História e Reparação do Ministério da Justiça. As crianças viviam em cativeiro, morriam de inanição, de doenças e até de overdose, relata ele.

Em entrevista ao ABC Color, Julia Ozorio Gamecho (53), uma das escravas sexuais do regime conta os horrores que viveu. Ela foi levada de sua família aos 13 anos de idade, deixando para trás a mãe e duas irmãs (que não eram do gosto dos militares. Não eram mais virgens). Júlia foi tomada pelo coronel Pedro Julian Miers, vice-comandante do Regimento de Escolta Presidencial. Aos 15 anos, já considerada velha, conseguiu escapar e fugiu para Buenos Aires.

“Eu era muito fraquinha, ele me levou com uma mão só até o dormitório e me mandou não chorar. ‘Por aqui passaram muitas crianças. Algumas saíram com vida, outras não’. Ele tirou minha roupa e me olhou por muito tempo. Disse: “És uma menina muito bonita. Espero que seja virgem”. Era. Julia evitava chorar e aguentou por dois anos o calvário. Foi o que a manteve viva. “Uma vez ele me disse que duas das outras meninas morreram. Foram mortas por que eram ‘negras e choronas'”.

Desde a abertura das investigações, a Comissão da Verdade e Justiça já recebeu 500 denúncias de desaparecimentos durante o regime Stroessner. Estima-se que o número real deva ser muito superior, já que famílias do interior dificilmente denunciam.

Mitâ Rerahaha – O Velho do Saco

Pelo Facebook, a estudante de Ciências Sociais Arially Oliveira, a Duda, de 25 anos, conta que ouviu muito essa história de sua mãe, Maria Oliveira. Natural de Ponta Porã, fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai, Maria contava um caso em que crianças começarem a desaparecer misteriosamente. Os corpos, quando encontrados, eram jogados em rios, matas e estradas.

“A população, tanto do lado de cá, como também do lado do Paraguai, ficou bastante preocupada”, conta Duda. O relato não tarda a receber suporte de sua mãe. “Nessa época as escolas praticamente cancelavam as aulas por causa do medo, uma amiga minha que morava no bairro são joão sumiu e foi encontrada embaixo da ponte são joão. E tinham preferência por crianças negras”, relembra Maria Oliveira.

Andrea Morinigio, do portal paraguaio E’a, relembra que as rádios locais chegaram a alertar a população sobre os perigos do “Mitâ rerahaha”, o velho do saco do folclore paraguaio. No Brasil, o caso lembra ainda o de outro mito: o Papa Figo. Dizem que em Recife, Pernambuco, havia um homem muito velho com uma doença degenerativa no fígado. Para se manter vivo, pagava homens que sequestravam criança nas ruas para poder comer seus fígados – tidos como mais puros que os adultos.

Sangue e Vida

A relação do sangue e da carne com a busca pela juventude ou saúde pertencem a histórias fantásticas do mundo todo. No século XVI, conta-se que a condessa húngara Isabel Bathory costumava beber e se banhar no sangue de mulheres de estirpe para manter a beleza. Os hábitos lhe renderam o apelido de condessa sangrenta.

Outro caso famoso ocorreu no início do século XIX, em Nova Orleans, Estados Unidos. Madame Delphine Lalaurie, socialite de renome na Lousiana tinha o costume de sangrar escravas negras para beber. Por vezes, chegava a mergulhar as mãos no sangue e esfregar no rosto.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s