[Conto] Rio Dormindo – Simone Saueressig

velhochico014

Conto publicado na antologia Reino Imaginário, de Miguel Carqueija

Meia-noite. Daniel afastou de si o corpo da cabocla, despertando. O braço da moça escorregou pelo seu peito e ela murmurou alguma coisa. Por que havia despertado? Calor? Não, pensou ele, agora completamente alerta. Não fazia mais calor do que de costume ali na sede da reserva. Silêncio. Sim, era isso. Um silêncio monstruoso, inimaginável submergia a mata e o rio. Jamais ouvira isso. Sentou-se, assustado, prestou atenção: não ouvia nenhum chapinhar contra o fundo do posto flutuante, coisa de feitura física impossível. Mais adiante, a floresta na margem sussurrava o vento noturno, mas era só isso. Daniel levantou-se intrigado.

Atravessou o aposento, a pequena porta, e pousou as mãos no parapeito azul, olhando para fora. A única luz que havia era a de serviço, lá na proa. No alto, as estrelas reluziam. A mata, ao longe, farfalhava. Não havia nem sinal de jacaré perto do barco. Nenhum, e isso também era intrigante, porque os jacarés eram uma constante ali. Estremeceu, apesar do calor: agora que reparava, percebia que a face de água do rio estava imóvel. Era como estar ancorado sobre um espelho escuro e turvo.

— Mas que diacho… – sussurrou intrigado. Apressou-se em ver por onde andava Rodrigo, que estava onde devia estar: de plantão na cabine da proa, sentado na poltrona, os pés apoiados numa cadeira de palha, roncando alto.

— Não me admira que não acorde com a quietude: esse cara faz seu próprio som ambiente. Acorda, pô!

Sacudiu o ombro do biólogo, que assustou-se, tossiu e incorporou-se no ato.

— O que foi? O que foi?

— Fica quieto e escuta.

O outro calou-se, ainda vesgo de sono, surpreso porque Daniel cochichava como se não quisesse acordar alguém.

— O que foi? – cochichou também.

— Vem ver.

Rodrigo acompanhou o colega até o parapeito do barco e ficou olhando o braço do Rio Negro imóvel sob o casco. Espelhado e profundo. Mesmo com o movimento dos rapazes na amurada da embarcação, a água mantinha-se serena, sem uma onda sequer. Nem mesmo a vibração de seus passos havia criado ondulações. Rodrigo sacudiu-se num arrepio.

— Caralho…

— Vai buscar um recipiente de coleta e uma corda. Vai, anda, cara!

Rodrigo girou sobre os calcanhares e desapareceu no interior da embarcação. Daniel sentiu um movimento ao seu lado e saltou de susto. Era a caboclinha que viera de Manaus para cozinhar e limpar e que dera por dormir com ele. A moça estava envolta em uma colcha esburacada que deixava ver partes de seu corpo bonito. Ela encolheu-se na colcha e deu as costas para a água com uma careta.

— Vamo vortá pra rede? – convidou, mansa.

— E eu lá posso Salete? O rio… já viu o rio assim?

Ela olhou a água por cima do ombro, sacudiu-se.

— Vi sim. Uma vez. Eu era pequena. Depois não vi mais.

— E o que é? O que é? – perguntou Rodrigo voltando com um vidro enorme que passou para Daniel com um sorriso amarelo e o olho escapando para os buracos da colcha em torno da morena. — Não achei a corda.

Daniel suspirou irritado e passou a perna sobre a amurada. Começou a descer. A cabocla olhou-o assustada, agarrou-lhe o braço, trêmula. A colcha escorregou num dos seus ombros, para alegria de Rodrigo.
— Onde ocê vai?

— Fazer a coleta, o que você acha? – indagou o homem.

— Vai não! O rio tá drumindo! Num pode entrá na água agora, num pode!

— Salete, larga o meu braço, que eu tenho trabalho pra fazer.
A moça olhou para o biólogo em busca de auxílio, mas Rodrigo se limitou a encolher os ombros. Quando ela voltou-se para Daniel, ele já estava quase dentro da água, água escura, profunda, quieta feito nada. O pé do moço alto e louro tocou a água e ele estremeceu. Estava gelada. Quanto?

— Traz o termômetro.

— Tá! – Rodrigo deixou o vidro de coleta junto da amurada e voou para dentro do laboratório. Salete ajoelhou-se ao lado do rosto do seu homem de olhos verdes feito pedra de muiraquitã. Lágrimas enchiam seus olhos.

— “Seu” Daniel, meu escuita, vai! Num entra aí, que o rio ta drumindo. Daqui a poco ele acorda! Num entra, num entra, não.

— Salete, querida, eu tenho um trabalho a fazer. Me alcança o vidro.
Agora estava agarrado à balaustrada do barco com uma só mão, o corpo mergulhado na água até o peito, uma sensação estranha que mal conseguia descrever. Era como estar numa imensa piscina – mas não era isso – onde a água era gelada – mas também não era bem isso – de consistência espessa como… – como se fosse água em algum sonho, registrou sua mente com clareza cristalina, mas ele afastou a definição por imprecisa. Salete, entre lágrimas, alcançou o pote.

— Sai daí, meu lorde, escuita eu, sai daí, sai daí, sai daí!

A ladainha fez um eco estranho na cabeça de Daniel, e ele balançou o pescoço com um movimento desagradável e serpentino. Agarrou o pote e o submergiu na água vendo as bolhas subirem preguiçosas, lentas, e estourarem em impossíveis foguinhos de artifício verdes. A cabocla saltou, incorporou-se e se espremeu contra a parede da posto, traçando repetidamente o sinal da cruz em cima do peito.

— Pega aqui, Salete, – pediu Daniel, fechando com dificuldade o vidro com a tampa. Levantou o pote agora cheio – de água? E água brilha? E água se remexe como se fosse um verme de luzes? – estava pesado, feito tonelada. A moça não se aproximava de jeito nenhum. Estava quase de joelhos, desfiando uma ladainha que ele suspeitava ser uma Ave Maria ou coisa assim. Ficava cada vez mais difícil pensar. Piscou, devagar, e conseguiu empurrar o vidro no chão de madeira. O som foi estranho e chiado. Quis sair da água, içar-se para o convés, não conseguiu. O corpo estava pesado. Os braços não tinham forças. Estava entorpecido. “Vou morrer congelado”, pensou, mas o frio tinha desaparecido. Olhou para o pote de água, as luzes tinham sumido.

— Rodrigo! – chamou em voz baixa, mas o barulho que o amigo fazia procurando o termômetro era muito maior. Salete arrastou-se para ele, afastando-se do pote como se fosse veneno. Tocou-lhe a mão.

— Ai, meu lorde, meu lorde, – soluçou. As lágrimas dela eram luminosas e caiam no rio – Daniel via isso com tal clareza que não duvidou um momento que era verdade – e mergulhavam feito pérolas e iam se perdendo pouco a pouco nas profundezas, incorruptas. Iluminaram os igarapés distantes, os peixes que dormiam no leito d’água e terra – iluminavam, não, ele corrigiu-se com o que restava de saniedade, alumiavam, coisa que não era igual, não era mesmo, era mais doce, mais nítido, mais puro. Alumiavam as lágrimas de Salete, alumiavam tudo antes de se perderem no lodo do fundo. Daniel estremeceu, fez um último e supremo esforço para sair dali, mas foi inútil e tarde e quando percebeu, os sonhos do rio o inundaram com todo o seu manancial, piranha, ipupiara, os botos cor-de-rosa caçando cardumes de peixes, depois saindo da água e virando homens, homens que se desfaziam em água de novo, e de Parintins veio um cavalo marinho, um cavalo feito peixe, de crinas de ouro e chapéu de capitão, até que se viu a Cobra Maria brincando nas margens, derrubando barrancas e rindo, os olhos de tochas iluminando a tapiora fedorenta, que fugiu depressa quando os índios da Sapucaia-Oroca apareceram dançando na ocara de sua cidade submersa. Um chamado de araparu! Braços gelados e macios o puxaram para baixo. Eram as cunhãs! Eram as cunhãs que o boto tinha levado da terra firme e que o arapuru chamava do fundo do rio! Uma onda atingiu Daniel no rosto, mas ele não sentiu. Os dedos se abriram lentamente e o corpo escorregou para água que recomeçara a chapinhar contra o fundo do posto flutuante. Rodrigo voltou, o termômetro perdido em uma das mãos. Ao ver o corpo do amigo perdendo-se na água escura, largou o instrumento e atirou-se atrás dele, enquanto Salete arrastava-se aos soluços de volta para o quarto. O mergulho intempestivo salvou a vida de Daniel. Mas o cérebro – afetado pela falta de oxigênio, disse o médico, semanas depois – mergulhara em um transe para nunca mais voltar. Era como se o branco agora habitasse com os peixes-boi, as florestas meio submersas, e corresse o rio com o cotaluna, vestido com as cores que o sonho do rio lhe dera de presente: vermelho do urucum, coração de um boi branco; preto-azulado do jenipapo, couro escuro de um boi estrelado.

Simone Saueressig nasceu em Campo Bom (RS), em 1964. Estreou na Literatura em 1987. Tem vários títulos publicados dentro do gênero do Fantástico como A Noite da Grande Magia Branca (2007), A Estrela de Iemanjá (2009), A Máquina Fantabulástica (1997), e o livro Contos do Sul (2012) bem como a saga Os Sóis da América (2013-2014). Participou de diferentes antologias, como Duplo Fantasia Heroica 3 (2012), Autores Fantásticos (2012) e Ficção de Polpa: Aventura! (2012). Mantém ainda a página www.porteiradafantasia.com.

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