[Resenha] Malasartes e o Duelo com a Morte

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Por Andriolli Costa

Assisti neste fim de semana ao filme Malasartes e o Duelo com a Morte, escrito e dirigido por Paulo Morelli, o mesmo de Cidade dos Homens (2007). De acordo com as próprias entrevistas do diretor, foram quase 30 anos para tirar o filme do papel, com um orçamento que varia, a cada nova notícia, entre R$ 9 e 15 milhões.

A experiência, de maneira geral, foi bastante divertida. Dá um certo orgulho ver um personagem que sempre habitou as histórias que minha avó contava ganhar as telas do cinema. O compadre Pedro Malasartes fora o responsável pela careca do meu tio Orlando. É que Pedro trazia um pote de melado bem quente que roubara de uma festa , tropicou e derrubou tudo na cabeça do tio.

Ele também era famoso por ter sido tão esperto, que mesmo recusado no céu pelas artimanhas que armou, acabava passando a perna em São Pedro e garantindo seu lugar no paraíso. Nem céu nem inferno eram empecilho para Malasartes, que com seus estratagemas de caboclo mostrava que a inteligência ganhava da força bruta, e que a sabedoria popular nadava de braçada frente aos espertalhões e poderosos que sempre se achavam em vantagem diante de Pedro.

Mas não foi bem esse Pedro que acabei encontrando. A bem da verdade, encaro esse mais como um “Malasartes – A Origem”. Vivido por Jesuíta Barbosa, o jovem Pedro, aos 21 anos de idade, já é supostamente o mais esperto dos homens. Mas as cenas de brilhantismo desse personagem são bem pontuais. Seu desafio final de esperteza com a Morte, inclusive, não foi lá muito esperto. Mero malabarismo e confusão, quando eu esperava ver Malasartes trucando o grande adversário como fez com um bandido num carteado no meio do filme. Falta ainda bastante angu para chegar aos pés de um João Grilo. Quem sabe depois de algumas sopas de pedra.

Na trama do filme, a Morte – padrinho de batismo de Malasartes – busca nele um substituto para poder sair de férias. A escolha, ao que se sugere, se deve ao fato de Pedro ser “o mais esperto dos homens”. Em momento algum fica evidente a necessidade da Morte ser assim tão esperta, o que faz a proposta perder um pouco a força. Para tentar Pedro, seu padrinho o presenteia com o dom de devolver a vida a 3 pessoas. Eu acreditava que a proposta seria testá-lo para ver se o homem teria discernimento para a tarefa. Ou então mostrar como é sedutora a capacidade de controlar a vida e a morte. Nada disso aconteceu, e a ação fica esvaziada.

A fantasia toma conta do Outro Mundo, e gostei bastante das soluções que a princípio pareciam confusas. A Morte comanda a vida, mas o destino é tramado pelas Parcas. Cada vela fica presa nas cordas da vida e quando uma vela se apaga, é hora da trama ser cortada. E se a luz torna acender, é preciso arranjar uma outra corda aonde prender o fio da pessoa. Daí explicam-se as sequelas (“calombinhos”) ou as mudanças de comportamento após as experiências de quase morte. Sensacional!

O marketing do filme tem se valido muito dos efeitos visuais. De fato os gráficos impressionam e enchem a tela de cinema. Entre R$ 2 e 4,5 milhões teriam sido gastos apenas na pós-produção. Mas para mim o voo dos personagens ainda deixou um pouco a desejar (claramente erguidos por corda). E lamento um pouco que o maravilhoso CGI tenha tão pouca serventia para a narrativa, servindo basicamente para levar os personagens de um lado ao outro. De qualquer forma, foi um trabalho bastante competente e abre um novo parâmetro para os filmes nacionais.

Os atores desempenham bem seu papel. Destaque para mim, vai para Zé Candinho – personagem de Augusto Madeira que representa a inocência do caboclo com grande maestria. Seu nome, é uma referência a Candinho, filme estrelado por Mazzaropi em 1953 e que por sua vez homenageia Cândido, de Voltaire. A mesma homenagem já havia sido feita com o personagem Candinho, na novela Êta Mundo Bom, de 2016, mas Malasartes foi filmado ainda em 2015.

Leandro Hassum representa a parte mais infantil do filme. Se a criança não ver graça nos diálogos rápido de Malasartes, acaba sendo pega pelas caretas e maneirismos de sempre do humorista. Achei um pouco cansativas suas participações. O mistério que seu personagem tenta construir, sobre quem será o “Substituto” de ajudante da morte não faz sentido algum, pois nos dois primeiros minutos de filme já fica claro que a substituição é para a própria Morte. Sua resolução junto com a da personagem de Vera Holtz, a parca Cortadeira, não faz sentido, mas a grande atuação de Julio Andrade como a Morte salvam boa parte da incongruência.

Eu teria gostado um pouco menos do filme se não fosse seu final. A decisão de Pedro sobre o que fazer com a vela da sua vida, optando por ser livre em um mundo cheio de amarradas, é que me fazem entender que este é apenas o começo para a vida e obra do verdadeiro Pedro Malasartes!

Nota: 7.9/10

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