A Porca dos Sete Leitões em Camilo Castelo Branco

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Trecho do romance Anathema, do escritor português Camilo Castelo Branco, de 1858. P. 106-109

– Vocês não sabem da porca dos sete leitões?
– É verdade, tia Joaquina, diga-nos isso como foi…
– Eu vos digo raparigas. Vasco da Veiga, pai deste fidalgo, que Deus lhe fale na alma, era um mau homem para as donzelas. Não havia nenhuma que ele não tirasse de casa por bem ou por mal, e depois tinha-as ali naqueles moinhos…
– E elas deixavam-se lá estar? – interrompeu uma rapariga espevitada e travessa.
– Cala-te lá, que não sabes o que dizes… inda ontem te vi nascer… Estavam lá, porque estavam enfeitiçadas por arte de bruxaria… ora sabes?
– Ah!
Este ah era a espontânea expressão de uma miríade de bocas abertas.
– E como é que as enfeitiçava, à tia Joaquina? – perguntou um rapaz de cara bicuda, expondo uma fileira de enormes dentes, como provas de admiração.
A velha, que tinha bem fundados escrúpulos em não dizer àquele idiota o processo de conquistar mulheres – pois bem sabia ela que pelos processos ordinários não seria ele capaz de arranjar uma -, disfarçou por pouco tempo a conversa, e continuou-a depois a meia voz:
– Ora “como é que as enfeitiçava!…” É de tolo a pergunta!… O fidalgo fez pacto com o diabo… e Deus me perdoe, se peco.
– Cruzes!… Cruzes!… T’arrenego!… – responderam em coro as ouvintes.
– E depois – prosseguiu a velha na sua horrenda história, cuspindo três vezes para o chão, e raspando com o pé por cima -, depois o diabo disse-lhe que apanhasse uma víbora entre o pino do meio-dia e as duas horas.
– E depois?… e depois?…
– Depois… disse-lhe que lhe passasse pelos olhos, salvo tal lugar, uma agulha enfiada em torçal preto; e que fosse ao dar da meia-noite à porta da igreja da freguesia, e dissesse três vezes umas palavras, que são assim: “Almas! Almas! Três enforcadas, três afogadas, três mortas a ferro frio…”
– Não digas, Joaquina, que não vá Deus castigar-te…
Esta edificante reflexão privou-nos de uma preciosidade de serventia para muita gente, que se desse ao incómodo de apanhar uma víbora, e furar-lhe os olhos… Agradeçam esta perda à senhora Brázia do Cabo da VIlla, mulher temente a Deus, e forneira das melhores broas daquela terra.
– Tens razão… – continuou a velha -; nem tudo se deve dizer… Vai depois, o diabo… (Deus me perdoe!)
– Credo!… credo!…
A historiadora era interrompida todas as vezes que a fidelíssima naturalidade do conto urgia a palavra “diabo”!
– O porco-sujo apareceu ao fidalgo, em aventesma, e disse-lhe: “Pelos poderes que te dou, toda a mulher que quiseres para ti, será tua, se lhe deres na saia ou na camisa ou no lenço da cabeça, um ponto com essa agulha enfiada nos olhos da víbora”. E, dito isto, o demônio desapareceu, deixando maus cheiros.
Silêncio e terror!… A velha continuou em tom misterioso e sibilino:
– Não havia rapariga que ele não…
– Santo nome de Jesus!… Nossa Senhora de Guia… Cala-te, mulher…

Esta Brázia do Cabo da VIla é inimiga das orações completas. Devemos ao fanatismo das velhas, à censura do Santo Ofício, e à Congregação do Oratório, a privação de interessantíssimas notícias de costumes, que tinham para o Portugal de então a veneranda importância que hoje nada tem por cá, a não serem os jornais; porquanto os contos das víboras e o pão quotidiano, a par dos jornais conscienciosos e da fome e da vergonha… Silêncio!… Cavete a scribis… Foge dos literatos, disse S. Mateus.
A velha devia ir por diante com esta crônica de inteligências entre Satanás e Vasco da Veiga, e a porca dos sete leitões, que é o texto da história. Se a Brázia do Cabo da VIla não vier tolher-lhe a liberdade do pensmento, poderemos conseguir um quadro de edificantes moralidades.
– Era uma vez. O fidalgo ia acolá a descer naquele altinho que faz um cotovelo para trás, assim a modo de quem quer rebentar sobre a sua direita… Vedes, mulheres?
– Vemos, vemos.
– E vai… que já de acontecer?… Uma porca, com sete leitões, veio prantar-se diante do fidalgo… a grunhir… a grunhir, de trás para diante, e de diante para trás. E vai o fidalgo puxa da espada, e dá com ela na porca, mas foi o mesmo que dar com ela numa sombra…
– Apelo eu!… Ó mulher… tu fazes-me medo!… – interrompeu a Sra. Brazia… – Acaba lá com isso…
– E depois o fidalgo, com os cabelos arrepiados, disse assim: Pelo poder que Deus te deu, quem quer que és, alma do outro mundo, em que queres. E vai a porca responder assim: Eu sou a alma de Ana Catarina, a quem tu deste um ponto no vestido, que estive contigo em pecado mortal sete anos e sete dias, e tive sete filhos que tu sumiste de meus olhos, e que morri sem os ver, mas encontrei-os depois como aqui os estás vendo, e não posso entrar no Céu nem no inferno, enquanto não fizeres penitência.

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