[Clipping] A literatura infantil e o folclore na era digital

mostra

Apresentação para crianças na Feira do Livro de Porto Alegre

Publicado no Clube da Maternidade
Por Sandra Luz (03/10/2017)

Há uma nova forma de contar as histórias do folclore brasileiro. Das páginas dos livros, personagens de lendas e contos saltaram para aplicativos de celular e vídeos do Youtube. Em novos instrumentos de apresentação, os personagens inspiram escritores e pesquisadores, como Andriolli Costa, que faz doutorado na UFRGS. O pesquisador, que tem o blog ‘O Colecionador de Sacis’, fala um pouco sobre relação entre o folclore como inspiração para a literatura infantil e um pouco mais.

Clube da Maternidade – O que mudou na literatura que abraça o folclore nesta era da informação na comparação com o período em que não havia internet?

Andriolli Costa – O que mais muda é a globalização de nossas referências. A internet nos conecta com o mundo, nossa aldeia agora é global, e esse contato com outras culturas faz com que a nossa também seja repensada.

Isso por vezes pode ser um problema, quando tendemos a nivelar tudo a partir do que vem de fora. Hoje, quando alguém ouve que o saci chupava sangue dos cavalos durante a noite, pode acabar pensando nele como um vampiro.

Ou ainda há aqueles que ouvem falar em curupiras e pensam que são simplesmente versões brasileiras de trolls noruegueses. Isso ignora a peculiaridade de cada mito, de cada folclore. Afinal, o folclore é justamente essa sondagem na alma do povo, esse mergulho na sua identidade. Somos todos humanos, por isso nossos medos, sonhos e esperanças são parecidos, mas cada povo constrói essa relação de maneira diferente – e os mitos refletem isso.

Clube da Maternidade – Se existem mudanças, como elas se manifestam na literatura infantil?

Andriolli Costa – A primeira mudança que vejo é na forma como os mitos são retratados. Muitas histórias contemporâneas com lobisomens no Brasil insistem numa versão europeia, para não dizer Hollywoodiana, em que o lobisomem é um ser forte e poderoso que só pode ser morto com bala de prata.

No folclore brasileiro, o lobisomem sempre foi fraco, amarelo e adoentado. Prata nunca foi seu ponto fraco, mas sim bala coberta com cera de missa santa ou sangue tirado por alfinete virgem. Poucos são os que exploram essa vertente, e é algo que ainda poderia ser muito melhor explorado.

Outra mudança, que já vejo como algo bastante positivo, é na incorporação de novas tecnologias em histórias inspiradas no folclore, trazendo passado e presente para dialogar.

Já vi histórias em que a Cuca, por exemplo, lança seus feitiços usando um aplicativo de celular. Acho essas brincadeiras muito interessantes. O melhor exemplo disso é a série O Legado Folclórico, de Felipe Castilho. No primeiro livro, um menino fã de jogos on-line é contatado por uma organização misteriosa formada por seres folclóricos para usar sua inteligência digital em uma missão de resgate. E do choque inicial entre saberes tão distintos, temos o desenvolvimento de uma relação de respeito e afeto marcada por muita aventura e referências a cultura pop.

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Arte de Ouro, Fogo e Megabytes, de Felipe Castilho

Clube da Maternidade – Os autores da literatura infantil estão utilizando referências ao folclore brasileiro? Como ficou esse tema ao longo do tempo?

Andriolli Costa – Até o início do século XX, folclore brasileiro não era tema para a literatura de qualquer tipo. Os raros contos com esta temática eram publicados em jornais, com um pedido de desculpas antecipado aos leitores. Pediam para que desligassem o senso crítico e se deixassem levar pelas “tolices do povo”. Claramente uma perspectiva classista e intelectualizada. A partir de Monteiro Lobato e os escritores modernistas a situação começa a mudar.

Grande marco disso, como não podia deixar de ser, é o lançamento da série de livros do Sítio do Picapau Amarelo, em 1921. Lobato teve o grande mérito de criar este universo fantástico, onde seres do folclore brasileiro como saci e cuca coexistiam com personagens da literatura, do cinema, da mitologia grega e dos contos de fada.

Foi uma revolução. Depois de Lobato, outro grande marco para o folclore foi nas histórias em quadrinhos, com a Turma do Pererê de Ziraldo, publicadas inicialmente em 1959, com relançamentos até anos depois – sem falar na série de TV na década de 90. Aos escritores modernistas também couberam o trabalho de reconto de lendas brasileiras, seja em poesia, seja em prosa.

Um dos trabalhos mais conhecidos na área é Como nasceram as estrelas – 12 lendas brasileiras, de Clarice Lispector (1987). O folclore permanece assim, inspirando um ou outro livro, uma ou outra HQ (especialmente as independentes), mas sem nenhum investimento em série.

Isso muda, a partir dos anos 2000, com sucessos best-sellers internacionais de fantasia, como Harry Potter. Primeiro porque os próprios leitores, inspirados, buscam criar suas próprias histórias olhando para dentro do seu país. Em segundo, porque as editoras, passaram a perceber neste caminho um filão a ser explorado.

Renata Ventura, com sua série A Arma Escarlate, é fruto direto desse processo. Seu livro, apresentado sem cerimônias como um Harry Potter brasileiro, conta a história de um menino bruxo que cresceu na favela com uma varinha energizada com fio de cabelo de curupira.

Gustavo Rosseb, com sua série infantil “A Odisseia de Tibor Lobato”, conseguiu vender os direitos para o cinema. Isso para não falar no próprio Felipe Castilho que mencionei acima, que mobiliza fãs em eventos literários e da cultura nerd por ter conseguido reunir um pouco dos dois mundos em sua obra.

Clube da Maternidade – As feiras literárias brasileiras auxiliam na divulgação das referências do folclore brasileiro?

Andriolli Costa – As feiras têm uma grande colaboração, com certeza. Eu mesmo já tive a oportunidade de participar da Feira do Livro de Porto Alegre ano passado contando histórias de saci no QG dos Pitocos – uma sessão voltada para apresentações para crianças.

É uma experiência muito interessante, porque o público das feiras está sempre em movimento, tem pessoas saindo, outras chegando, então muita gente acaba sendo fisgado ao saber que a história fala de um mito nacional.

Ainda assim, o folclore ainda surge de maneira pontual, muito mais pautado pelo interesse do autor em propor uma ação ou no acaso de um lançamento planejado. Isso está começando a mudar, principalmente com a nova leva de autores que estão fazendo sucesso com literatura fantástica de inspiração folclórica. Ainda veremos.

Clube da Maternidade – E a educação infantil, ela abraça as referências do folclore brasileiro ou existe somente mera citação?

Andriolli Costa – Infelizmente uma coisa que percebo é que o folclore na escola é tratado somente como uma atividade pontual. São brincadeiras ou exercícios em agosto (durante o mês do folclore) e uma ou outra lembrança do assunto no 31 de outubro (o Dia do Saci). Mas o folclore – para além dos mitos, mas como saber local e tradicional – permeia nosso cotidiano, está em nossos modos de sentir, pensar e agir.

Em agosto, organizamos pelo Youtube o projeto Folclore BR: Somando Visões, com o objetivo de apresentar para interessados e educadores toda a riqueza do que está sendo produzido nos dias de hoje com inspiração folclórica e que poderia ser utilizado para pensar nossos mitos durante o ano inteiro.
Trabalhos em games, livros, contação de histórias, fotografia, e muito mais. Tivemos mais de 3 mil visualizações, e temos certeza que os frutos de trabalhos assim ainda estão para serem colhidos.

Slide1Clube da Maternidade – Onde encontrar histórias para contar? Existe algum lugar onde é possível capturar áudios de canções de ninar, por exemplo?

Andriolli Costa – Depende do que se busca. Histórias mais clássicas estão nos recontos de Câmara Cascudo e Sílvio Romero para as lendas brasileiras. São textos bem ricos, mas às vezes com uma palavra ou outra que emperram. É importante que o contador tome conta do texto e faça sua própria leitura para a criança. A riqueza vai estar em trazer para a história coisas que fazem parte da realidade que se vive.

Para crianças na primeira infância, temos algumas escolhas possíveis. Um já clássico, lançado em 1998, é “Dez Sacizinhos”, de Tatiana Belinky – que foi roteirista da adaptação do Sítio do Picapau Amarelo na TV Tupi.

O livro, ricamente ilustrado, brinca com rimas e a contagem dos números de 1 a 10. Temos ainda a obra do Mouzar Benedito, um dos membros fundadores da Sociedade dos Observadores de Sacis. Ele tem vários livrinhos com histórias que falam bastante sobre os mitos do folclore nacional. Recomendo, de início, “Saci – o guardião da floresta”.

Por fim, se a criança já estiver com mais idade e curiosa para saber de onde vêm os mitos, uma boa pedida pode ser Nas Pegadas do Saci, de Márcia Camargos. Ela, que já foi biografa de Monteiro Lobato, conta essa história onde um grupo de alunos vai à mata descobrir mais sobre o saci para um trabalho de escola. Lá, vão conversando com os pais e descobrindo tudo sobre o mais brasileiro dos mitos.

Clube da Maternidade – Como ficam os valores atuais em relação às histórias do nosso folclore? Por exemplo: gênero, cor da pele. Há algum tipo de rejeição hoje?

Andriolli Costa – Entre as crianças nunca presenciei nenhum tipo de rejeição. São os adultos que tentam racionalizar os mitos e não compreendem o seu encanto. Mais de uma pessoa já repetiu que o folclore brasileiro é repleto de criaturas deficientes – como o saci que não tem uma perna, ou o curupira que tem os pés ao contrário. Mas em momento algum no folclore se diz que estes personagens são prejudicados por sua condição, muito pelo contrário.

O saci é sempre ágil e saltitante, o curupira extremamente veloz e enganador. Essa é a forma destes personagens estarem no mundo, da mesma forma que as pessoas com deficiência.

Uma grande rejeição que vejo também é em relação ao medo. Saci, cuca, lobisomem, estamos repletos de mitos que podem, de uma forma ou de outra, causar medo nas crianças e os pais acabam questionando qual o objetivo em assustar seus filhos.

Ora, é a partir dessas histórias que as crianças vão poder simbolizar suas agonias, vão experimentar sentimentos e estruturas mentais que as prepararão para a vida. Lendas e causos, assim como contos de fada, permitem essa exploração da experiência humana por meio da fantasia.

Clube da Maternidade – Onde é possível encontrar ilustrações para falar dos personagens do nosso folclore?

Andriolli Costa – No meu blog, o Colecionador de Sacis, tenho uma seção chamada Retrato Falado onde separo todas as artes que já encontrei, com os devidos créditos ao artista, retratando o duende brasileiro. Mas de maneira geral, Facebook e Instagram são ótimos momentos para isso. Uma página no Facebook, por exemplo, chamada Folcollab posta semanalmente uma arte diferente envolvendo um mito nacional. Cada uma feita por um artista e com um estilo variado. Vale para inspirar.

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