[#Saci100] Saci nos Quadrinhos

Um breve percurso pelas várias personificações do duende brasileiro nos quadrinhos nacionais

SACI

O saci na hq A Bandeira do Elefante e da Arara

Texto da Revista Saci Pererê – 100 anos do Inquérito. Clique aqui para ler e baixar.

Por Andriolli Costa

Se Monteiro Lobato (re)apresentou o saci para muitos brasileiros na primeira metade do século XX, o perneta teve um outro pai bastante importante na metade seguinte: Ziraldo. Lançada em 1959, a Turma do Pererê foi a primeira revista em quadrinhos nacional totalmente colorida publicada no país. Mas as cores realmente brasileiras não estavam na gráfica, mas no texto.

“O Pererê decidiu que seria uma revista muito brasileira. Ela nasceu junto com o cinema novo, a poesia concreta, o teatro nas ruas, a poesia processo, a bossa nova”, conta Ziraldo no prefácio de Todo Pererê, publicado em 2002 pela editora Salamandra. Além do esperto personagem título, a história contava ainda com personagens bastante conhecidos dos contos populares brasileiros: a onça, o tatu, o jabuti, a boneca de piche e, é claro, o indiozinho Tininim.

A revista acabou em abril de 1964, pouco após o Golpe Militar que instaurou a ditadura no Brasil. Era muito comunista para os padrões da época. Deixou um vácuo de histórias em quadrinhos com sacis preenchida principalmente por zines e publicações independentes, mas pouca coisa duradoura. Foi em uma dessas revistas, a Heróis em Evidência, que Hélio Guedes publicou a primeira história dos Seres da Mata.

altemar-domingos-saci-aiba3.jpgO saci de Hélio é totalmente estilizado, quase alienígena. Sem boca ou nariz aparente, chama atenção pelos grandes olhos amarelos sem pupilas. A carapuça vermelha parece quase unida ao corpo, e se destaca junto aos braceletes e a tornozeleira da mesma cor. Junto aos seus primos, Curupira e Romãozinho, o trio já enfrentou caçadores, alienígenas e até mesmo uma versão do Superman. As histórias atualmente estão sendo republicadas sem periodicidade no site Mundo Brasil HQ.

Na mesma década, em 1995, o quadrinista Altemar Domingos cria Jaguara. A história, publicada em livro 10 anos depois pela Via Lettera, conta A história de uma índia que deve passar por uma provação para se tornar líder da tribo dos Krenakores. Para tanto, enfrenta o terrível Jurupari e seus servos malvados, entre eles o Saci Aíba. Capaz de se transformar no que quiser, este saci é praticamente um simbionte das histórias do Homem-Aranha.

guerreiro vermelho.jpgTentativas de criar um saci super-herói existiram várias. O Guerreiro Vermelho, criado pelo Sport Club Internacional de Porto Alegre, em referência ao mascote do time chegou a ter duas edições na HQ Saci, Escurinho & Cia. Era um saci guerreiro, com perna mecânica e a carapuça fazendo as vezes de gorro para esconder sua identidade. O roteiro era de Thedy Corrêa, vocalista da banda Nenhum de Nós, e a arte de Geraldo Borges.

Há ainda as histórias que por um motivo ou outro ainda não foram efetivamente publicadas, mas cuja promessa é logo ver a luz do sol. É o caso de Vento Ventania, de Lancelott Martins, o criador da página HQ Quadrinhos. Ventania é um saci que escapou do mundo mágico e veio até nosso mundo, sofrendo por isso a penalidade das leis do Tribunal de Sacis. A entidade possui duas pernas, mas como se locomove por um redemoinho passa a impressão de ter uma perna só. Como o ilustrador Bruno Lima está muito envolvido com projetos para o exterior, o prazo para a publicação da HQ ainda permanece indefinido.

Mangá - Caçadores de Monstros.jpgOutro projeto que tentou vez tentou encontrar seu lugar ao sol com a ajuda do crowdfunding foi o mangá Caçadores de Montros, de Paulo Gutemberg e Richardy Henrique. Na história, que lembra um pouco Yu Yu Hakusho, Douglas é um adolescente de 16 anos que acaba libertando terríveis criaturas aprisionadas no nosso mundo. Ao tentar recaptura-las, morre no processo e se torna um ser meio homem, meio fantasma. Seus parceiros são Nathan, com quem cria uma equipe de caçadores, e o próprio Saci Pererê.

O universo dos mangás brasileiros possuem diversos sacis. Em Chico Bento Moço ele fez suas aparições, guiando o jovem em seu caminho para a cidade grande. Há também os sacis em Folclorianos de Odoberto Lino – já mencionado aqui neste especial. Existem vários sacis na obra de Odoberto, que vão do tradicional – amigo e parceiro do Curupira na proteção da mata, até os sacis espirituais, demoníacos e lendários. Um de seus sacis canibais possui a perna atrofiada pendente na cintura, e dentes serrilhados com os quais se alimenta de carne humana.

Há ainda o saci de Cruel, mangá criado por Allan Ruy em 2010 e indo para sua décima edição. Num cenário que mescla Brasil e Japão, Sorato liberta um demônio da garrafa que acaba lhe entrando garganta abaixo, cometendo uma série de atrocidades enquanto o garoto dorme. Um dos servos do demônio que acaba despertando junto é o Saci, que nesta versão era um escravo que teve sua perna arrancada por um capitão do mato e jurou servido ao diabo em troca de poderes.

Outra obra com certa influência do mangá é a HQ Folks, de Fábio Dino, uma webcomic que estreou em 2011 e ao longo de dois anos lançou cinco edições. A antagonista imediata da história é a Kuca. Ou melhor dizendo, Kety Uchoa Catheirne Arruda. Uma mega-empresária e feiticeira de sucesso, que realiza magias graças aos aplicativos de seu celular. Para derrotá-la, Negrinho do Pastoreio, Iara e Curupira se unem ao Saci, um grande lutador que se fazia de mendigo nas ruas de São Paulo.

pin up saci + curupiraNão podemos esquecer ainda de Salomão Ventura, caçador de lendas. A criação de Giorgio Galli publicada em 2010 acompanha o misterioso Salomão, que persegue assombrações que compreendemos como lendas. O saci, antagonista da primeira HQ do personagem, era um menino morto pelo padrasto bêbado a golpes de machado que retorna como um espírito da vingança. Este saci não usa carapuça, mas tem o topo da cabeça eternamente em chamas.

Grande parte destas HQs estão disponíveis em ordem sistemática na plataforma Social Comics, uma grande oportunidade de circulação da obra independente. Esperamos muito mais histórias de saci este ano para circular pela rede!

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