[#Saci100] Gastão Ferreira – Noite do Saci

Saci (7)

Texto da Revista Saci Pererê – 100 anos do Inquérito. Clique aqui para ler e baixar.

Por Gastão Ferreira

Seu Fausto do Curió gostava de passarinhar. Desde guri andava pelas matas ouvindo o canto dos pássaros. Em sua residência mantinha inúmeras gaiolas e cuidava com muito amor dos pequenos cantores que alegravam sua vida de humilde pedreiro. Numa primavera, véspera do Dia de Finados, com mais de setenta anos de idade e já aposentado, saudoso das andanças pelos matagais, resolveu após avisar a família ir até o rio Sorocabinha visitar seus amigos, os passarinhos.

A foz do rio Sorocabinha que deságua no Mar Pequeno é famosa por suas mutucas, mosquitos pólvora, cobras venenosas, manguezal intransitável, robalos, mandis, carás, traíras, pirambóias, caranguejos e siris. Seu Fausto não queria pescar, ele queria era ouvir o canto dos pássaros, lembrar dos dias infantis, reencontrar o garoto do passado que amava a Natureza. Dentre o trinar dos sabiás e de inúmeras avoantes que enfeitam o local, um grito chamou sua atenção:- “Tô Aqui!… Tô Aqui!”

Seu Fausto seguiu o chamado e embrenhou-se cada vez mais na mata densa… Perdeu o rumo, não conseguia voltar, anoiteceu rapidamente e aquele “Tô Aqui!… Tô Aqui!” o levou para o desconhecido. Os familiares aflitos e pensando no pior, entraram em contacto com a polícia, a notícia se espalhou e dezenas de amigos moradores do bairro do Rocio se uniram na sua procura. Adentraram a mata com luminárias, gritaram por seu nome, procuraram a noite inteira. Lá pelas cinco horas da manhã ele foi encontrado adormecido sobre as raízes de uma árvore no manguezal, os mosquitos pólvora tinham feito a festa, seu Fausto estava com a roupa em farrapos, bastante machucado e muito assustado.

Na volta para casa perguntaram-lhe o que tinha acontecido e ele respondeu: ”- Fui enfeitiçado por um Saci!”. Muitas pessoas o procuraram para saber da história do tal Saci, mas ele guardou o segredo consigo e jamais contou o que realmente ocorreu. Muitas vezes seu filho, o Jóca, o pegava distraído, com um ar sonhador e notava nos olhos de seu velho pai, um brilho de quem viu visagem ou coisas das quais não podia falar.

Essa é uma história verídica que aconteceu em Iguape e seu Fausto do Curió foi o seu protagonista, portanto quando no meio da mata alguém ouvir um chamado:- “Tô Aqui!… Tô Aqui!”, volte imediatamente para o sossego do lar ou será enfeitiçado, perderá o rumo de casa e passará uma noite sozinho com o Saci.

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