Antologia Mitografias – Da organização à publicação

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Por Andriolli Costa

Tudo começou com um comentário dos mais despretensiosos. Se teve mais do que um like, acho que foi muito. Mas era o suficiente. “Léo, será que os apoiadores curtiriam uma Antologia Mitografias?”.  Um emoji furtivo pontuava a pergunta, como que antecipando as desculpas de que era só uma brincadeira. O famoso se colar, colou.

E não é que colou?

Era 03 de novembro de 2016 quando soltei a ideia no Templo do Conhecimento, o grupo de apoiadores do Padrim do Mitografias. O Léo que botou fé na coisa era Leonardo Tremeschin, editor do site que há mais de 10 anos investiga mitologias do mundo inteiro em um intenso trabalho de curadoria. Lucas Rafael Ferraz, colaborador do site, também manifestou interesse. Na mesma semana abrimos uma conversa em inbox. Dois meses depois, em janeiro de 2017, saia o edital da Antologia Mitografias Vol 1 – Mitos Modernos..

A equipe

É interessante pensar em quem era a equipe de organizadores quando a chamada de contos foi publicada. De nós todos, Lucas era o mais iniciado. Ele era revisor da Revista Trasgo e um leitor beta contumaz, além de ter os contatos entre os escritores independentes. Léo tinha sua experiência com o site e o podcast, o Papo Lendário – naquela época já com mais de 150 episódios. Trabalhos de fôlego, mas nada na área da literatura.

Minha trajetória vai do jornalismo para a academia, onde os mitos sempre foram meu objeto de interesse. Na literatura minha experiência, fora as oficinas de escrita criativa, havia sido três recusas em antologias e o convite para uma (da editora Estronho) que nunca saiu. Encontrava no Wattpad o espaço para exercitar minha ficção folclórica.

A equipe era crua, mas encontrava seu cerne na paixão pelo poder das narrativas ancestrais.

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A chamada

O edital foi publicado sem muita invenção de moda. Era tão direto quanto o necessário: queríamos contos inéditos de qualquer gênero e para qualquer público que deveriam, obrigatoriamente, trazer visões sobre o mito na modernidade. Estabelecemos um limite de palavras e pronto. Simples assim. O resultado sempre foi claro: seria um ebook distribuído gratuitamente. Não queríamos dinheiro, só queríamos reunir boas histórias. Era o bastante? Para nós, sim. E para os outros?

O primeiro grande questionamento foi quanto a falta de ISBN da Antologia. Não sabíamos como fazer e nem queríamos este trabalho. Quem sabe mais para frente? Naquele momento, o foco era entregar o que prometemos, então o registro era dispensável para nós. Não entendemos porque tantos possíveis candidatos desistiam de enviar seu texto quando descobriam que não haveria ISBN. Talvez pelo amadorismo da obra, pensamos.

Ledo engano, a justificativa era muito mais burocrática. Ocorre que ter livros publicados conta ponto em concurso público. Assim, existe todo um mercado de caçadores de antologia ávidos por dar vazão à sua verve literária apenas para galgar uma colocação melhor na prova. Mas a publicação só era válida no processo seletivo se tivesse o devido registro.

Valia a pena voltar atrás? Nossa deliberação foi rápida: Não. Nada contra quem abraça este processo, mas nosso trabalho sempre foi movido pela paixão pelo tema. Constela sobre o livro quem compartilha do mesmo amor pelos mitos, um sentimento que transborda em cada conto. Se não há essa relação inicial de afeto, dificilmente qualquer história nos tocaria a ponto de entrar na antologia.

Outro ponto de controvérsia foi quanto a brevidade do edital. Alguns escritores reclamaram que ele detalhava pouco suas exigências. Entre as sugestões apresentadas, pediam para que nós explicássemos o que é um conto; que incorporássemos trechos de outras histórias para mostrar qual era a estrutura adequada; que indicássemos fontes para pesquisa. Todas estas ideias consideramos como acréscimos dispensáveis. O objetivo não era ensinar ninguém a escrever, afinal. E o Mitografias em si já era uma grande fonte sobre o tema. O único acréscimo realmente pertinente foi quanto a idade mínima dos participantes: todos deveriam ter mais de 18 anos.

Dentro de sua abrangência o edital era claro o suficiente: conto inédito sobre um mito na modernidade com até 8 mil palavras. Ainda assim, alguns mandaram contos já publicados em blogs. Outros enviaram artigos ou ensaios. Ainda houve quem mandasse contos com o dobro do tamanho máximo estabelecido. Paciência. Não foram nem lidos, mas cortados imediatamente. Poucas regras, mas todas cumpridas.

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A seleção

Foram seis meses de chamada aberta para o recebimento de contos. Um processo marcado por uma incerteza inicial muito grande. Será que o público responderia? Será que os escritores abraçariam a ideia? A insistência e o contato pessoal foram fundamentais para manter ativo o interesse em participar. No final, recebemos 80 textos – sendo que metade foi enviado só no último dia. Tínhamos muito material para peneirar.

O processo seletivo foi bastante tranquilo. Cada conto deveria ser lido por ao menos dois dos organizadores. Se houvesse concordância, e ele fosse aprovado, ia para a próxima fase. Se não, um terceiro parecerista faria o desempate. Selecionamos perto de 20 contos para a etapa final, onde discutimos por Skype quem ficava e quem saia. Já não pensávamos mais no conto específico, mas na sua relação com o todo da antologia. “Já temos um de humor, precisamos de outro?”. Ou ainda,”faltava um mais experimental, que tal deixar este?”. No finalzinho de agosto, a seletiva foi publicada.

A edição

Um dos processos mais interessantes e ativos da organização da antologia veio no momento da edição. Aqui, a convite do Lucas, incorporamos mais um membro à equipe: o escritor Rodrigo Rahmati, que também estava entre os selecionados. Rahmati seria o responsável pela revisão gramatical, mas também se ofereceu para a leitura crítica. Assim, todos os contos selecionados (incluindo os dos organizadores) foram lidos por todos e tiveram sugestões apontadas.

Foi nesta fase também que nos atentamos para as inconsistências de cada texto. Em um dos contos, uma personagem usava constantemente expressões em espanhol. No entanto, nem o escritor e nem nós dominávamos o idioma. Cada frase foi pesquisada e alterada, quando necessário, para não dar margem ao erro. Um deslize aqui poderia fazer a história cair no ridículo e o mito se perder.

Outro problema foi com meu próprio conto, Sem Cabeça. Em uma primeira versão do texto, eu o localizei antes do Sábado de Aleluia (que se passa entre março e abril). Mais tarde, quando incorporei a ideia de que estava fazendo um calor anormal, precisei mudar a temporalidade para um mês normalmente mais fresco, então levei a história para junho. Com o livro quase fechado, encontrei ainda referência à Páscoa. Corrigimos a tempo!

Uma peculiaridade que notei veio da minha escola de escrita: o jornalismo. Somos defensores de nosso texto tanto quanto qualquer escritor, mas é na autoria compartilhada da edição que o trabalho se refina. O que passa a interessar é o produto final, não os egos individuais. Assim, sugeri sem constrangimento mudanças graves, reescrevendo parágrafos inteiros e indicando mudanças na conclusão. Tudo a ser discutido com o autor, nada impositivo. Sei que nem todos ficaram confortáveis com as alterações, mas para mim foi essa troca o que houve de mais rico na feitura da antologia.

Também não passei incólume. O Lucas achava que eu deveria cortar as duas primeiras páginas do meu conto, pois a história começava depois. Discordei, mas tentei nivelar melhor o conto para manter o ritmo da abertura. Não sei se está ideal, mas eu adorei o resultado.

A Capa

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Estudos da capa, por Mikael Quites

Correndo em paralelo com a finalização de cada conto tivemos o processo de feitura da capa. Convidamos o ilustrador Mikael Quites, meu parceiro aqui em Porto Alegre. Mikael é concept artist e já produziu fantásticos estudos de mitos brasileiros com uma pegada de terror. Recentemente, trabalhou também na ilustração do RPG do projeto Araruama, de Ian Fraser.

Demos a primeira referência: uma imagem realista, com finalização digital e 3D. O preço veio lá em cima. Nosso orçamento era baixo, afinal o Padrim do Mitografias recebe apenas R$ 300 por mês. No entanto, fizemos questão de pagar.  A capa era o rosto de nosso livro, deveria carregar o que os contos traziam. Repensamos: menor, mais simbólico. Logo veio a árvore: esta imagem que nos leva das raízes do arquétipo às folhas da imageria. Acrescentei a textura metálica à arte de Mikael. Seis versões depois e o martelo foi batido.

Lucas e Rahmati fecharam a diagramação. Léo preparou a postagem. Era Dia do Saci, nada podia dar errado. A Antologia Mitografias nasceu oficialmente em 31 de outubro de 2017, rompendo o véu que nos separa do mistério.

E esse é apenas o começo.


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