Folclore Brasileiro de A a Z – Entrevista com Januária Cristina Alves

Das Alamoas que enfeitiçam Fernando de Noronha aos Zaoris de olhos encantados no Sul do país, são mais de 140 mitos registrados em sua obra recém-lançada

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Januária no vídeo de lançamento do Abecedário do Folclore Brasileiro

Andriolli Costa

Passava pouco das duas da tarde quando Januária Cristina Alves tomou a frente da lona que formava o teatro Carlos Urbin, na Feira do Livro de Porto Alegre. Sentou de frente para o público e se dobrou sobre os cotovelos em silêncio, enquanto as cadeiras terminavam de ser ocupadas. O movimento a trouxe mais para perto da plateia, composta por quase 120 crianças de escolas públicas da Capital que se acotovelam para acompanhar aquela apresentação.

Poucos parzinhos de mãos se levantaram quando perguntaram quem já havia lido algum dos 51 livros publicados pela jornalista, que desde 1985 se dedica a escrever para os pequenos. É que diferente de vários dos escritores que se alternaram naquele palco, Januária não fazia parte do projeto Adote um Escritor, o que fazia com que as cinco obras que ela trazia para lançamento na Feira fossem realmente uma novidade absoluta para a garotada. Seu nome não era conhecido, e nem mesmo seu texto, mas os personagens que abordava nos livros traziam toda a familiaridade que era preciso.

— Quem aqui conhece o saci? – quis saber a autora. Várias mãos se levantaram enquanto ela mostrava o exemplar de O Saci-Pererê e outras figuras traquinas do folclore brasileiro. O mesmo aconteceu, com um pouco mais de timidez, com os demais livros da coleção, dedicados ao Curupira e ao Uirapuru. Comoção mesmo veio com o quarto livro: A loira do banheiro e outras assombrações. As mãos disputavam espaço no ar querendo tomar para si a palavra. Quem conhecia a loira? Todos levantaram. Quem já a havia visto? Poucos abaixaram.

img_344Lançado em maio deste ano pela FTD Educação, o livro da Loira era o que mais fazia sucesso nas escolas entre a coleção. Não podia ser diferente, afinal era aquele o espaço mais do que propício para invocar a criatura, que toma conta do imaginário brasileiro como uma de nossas mais famosas lendas urbanas. Em meio a apresentação, um garoto de cerca de 10 anos pede a vez no microfone. Conta o que sabia: a loira, para ele, era uma menina que se trancou no banheiro por não querer estudar e acabou morrendo. Para invocar a criatura, existe todo um ritual, que muda de escola em escola. Três descargas, três velas acesas e três chamamentos eram mais do que suficientes, garantia.

Para Januária, a aparição era o fantasma de uma menina muito vaidosa que de tanto se olhar no espelho do colégio também morreu. Agora ela passava a eternidade a buscar outras crianças para também levar ao seu mundo do outro lado do reflexo. “E a Loira é má?” Não, responde a autora, apenas solitária. E de pergunta em pergunta, seja sobre um possível parentesco com a Samara – aquela mesma, a do Chamado – ou com a Maria Degolada, o tempo passou voando. E o encanto do folclore havia se estabelecido.

Os quatro livros voltados para o público infanto-juvenil que Januária apresentou são derivações de um mesmo produto. Um livro “master”, de onde os demais foram adaptados. Um projeto de três anos de pesquisa e editoração que gerou o Abecedário de Personagens do Folclore Brasileiro, um co-lançamento entre FTD e Sesc.

O projeto, que inicialmente sairia pela Cosac Naify, foi proposto pela editora Isabel Lopes Coelho, que o levou mais tarde para a nova casa. Januária queria apenas a reedição em forma de teatro de um antigo livro seu, Lampião Júnior e Maria Bonitinha. Isabel fez uma contraproposta, sugerindo o projeto que já havia sido recusado por um outro folclorista. Diante do desafio, a ideia foi paulatinamente ajustada.

— Eu não queria fazer um dicionário, por que o Câmara Cascudo já fez isso. Eu queria contar essas histórias. Por isso sugeri um abecedário.

Mestre em Comunicação pela USP, com uma dissertação de fôlego onde analisou todos os suplementos infantis editados por periódicos até então, Januária delimitou rapidamente uma metodologia de pesquisa. Não trabalharia com relatos orais, justamente pela imensidão do esforço envolvido. Buscaria nos relatos escritos, de modo que houvesse ao menos duas fontes diferentes que permitisse uma mínima comparação. Partiria de Cascudo, como era inevitável, mas buscaria também aquilo que o folclorista deixou mais de lado: buscou mais mitos negros e indígenas para completar o panorama. Ao final de cada mito há ainda uma pequena ficha catalográfica, indicando sua origem, local de aparição e outros nomes conhecidos.

O resultado é um compêndio com 141 criaturas e mais de 400 páginas com mitos. Se a pesquisa e a seleção já se provaram instigantes, a tarefa se tornou ainda mais desafiadora para o designer gráfico, Cezar Berje, que ilustrou cada uma das criaturas – muitas delas que nunca haviam ganhado um rosto fora da fantástica popular. O resultado é visualmente provocante e capaz de atingir todos os públicos.

Confira mais sobre a riqueza deste projeto nesta entrevista exclusiva ao Colecionador de Sacis.

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Colecionador de Sacis: Como surgiu a ideia de lançar os livros infanto-juvenis derivados a partir do Abecedário? Eu vi que há ficções no começo. Houve mudança no texto?
Januária Cristina Alves:  Como a FTD é uma editora muito ligada a um público escolar, pensamos em fazer uma derivação do Abecedário voltada para crianças e que pudesse ser adotada em escolas. O projeto deles é um pouquinho diferente. Eu vi que era possível separar os mitos em “famílias”, como os traquinas, os animais incríveis… Então em cada livro eu pego um destes personagens, que é o mais conhecido, reconto uma das lendas, porque existem sempre muitas, e depois trazemos o “Guia dos Observadores” com mais personagens daquela mesma família, com características semelhantes, que é uma forma de apresentar para as crianças criaturas pouco conhecidas.

Colecionador: Já que estamos falando de escolas, você tem acompanhado como o folclore vem sendo abordado em ambiente escolar?
Januária: Eu sou jornalista de formação e minha tese de mestrado foi como trabalhar o jornal em sala de aula, então há mais de 20 anos que eu trabalho com formação de professores. E eu sei que o folclore na escola é restrito ao mês de agosto, que é o mês do folclore, e a meia dúzia de personagens que são a mula sem cabeça, saci pererê, curupira e olhe lá.

Ontem mesmo eu estava em um evento em São Paulo, o FlinkSampa (Festa do Conhecimento, Literatura e Cultura Negra), onde discutíamos exatamente isso. O professor conhece pouco, então todos os anos acabam sendo aquela mesma coisa, e ainda carrega este preconceito de que o saber popular é um “saber menor”. Obviamente há suas exceções, tem escolas que se preocupam mesmo, mas não é o mais comum. Quando não acontece dos professores preferirem inclusive trabalhar halloween, mas não folclore.

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Corpo Seco, o zumbi brasileiro

Colecionador: Outra questão nas escolas é quanto a demonização do folclore por grupos evangélicos. Isso foi um problema para você?
Januária: Eu acabei de ter a notícia de que tem escolas que não adotam o livro. Pergunte para o divulgador que ele te conta. É colégio que não pode duende, não pode fada e não pode saci… A justificativa é essa, a religiosa.

É complicado trabalhar folclore no Brasil. Então além de ter o preconceito, a questão religiosa, há também a questão da rejeição inicial. Uma professora inclusive me falou da dificuldade que ela tem em trabalhar folclore no ensino médio. Ela dizia: “os caras assistem Walking Dead, eles querem ouvir sobre aquele zumbi, e não sobre o que tem no seu livro”.

Colecionador: Você falou deste segundo momento de rejeição religiosa, já na adesão do livro. Mas e na hora de escrever? Há várias histórias em que o saci é descrito como fugido do inferno. Foi algo que você buscou omitir?
Januária: Mais do que a nomenclatura, minha preocupação foi trabalhar com a personalidade. O saci é um diabinho ou um capetinha? Isso não me preocupou. O saci não é bom e nem mal, ele é traquina. Ele se diverte fazendo o que uns podem entender como brincadeira de mal gosto e outros como diabruras. É isso que está no verbete. Eu procurei fazer uma nomenclatura “neutra” para retratar este personagem da maneira como ele é. Ou melhor, ao menos como ele é na maioria dos registros escritos, porque são N fontes diferentes. Até porque eu queria que fosse um material de referência. A pesquisa bibliográfica tem essa preocupação, de mostrar outros caminhos para quem quiser se aprofundar. O objetivo era esse: trabalhar com mitos dos mais conhecidos aos menos conhecidos, das mais diversas origens – europeus, orientais, africanos e indígenas – e dispostos em ordem alfabética por uma questão de organização.

Colecionador: Não é um desafio trabalhar com mitos indígenas, sendo que temos mais de 300 povos indígenas no Brasil e cada um com mitos que se mostram tão distintos?
Januária: Sem dúvida. Foi um trabalho de seleção também, de escolher o que encaixava numa nomenclatura. E mesmo assim já me disseram: “Olha, as histórias que você conto como sendo deste personagem parecem com as que ouvi de outro”. OK, é a escolha do pesquisador. É preciso escolher a fonte e a história que você referendou.

Colecionador: E em qual mito essa escolha foi mais difícil?
Januária: O saci foi um deles. Tem muita coisa sobre o saci. Então eu tinha que buscar o “senso comum” deste personagem e apontar caminhos para o leitor saber e inferir que não existe uma história só, mas que elas são muitas. Então o intuito do livro foi primeiro mostrar que a gente tem essa riqueza toda e que esses personagens tem muitas histórias e muitos nomes.

Inclusive o André Bazzanella, que fez a resenha do Abecedário na revista Quatro Cinco Um,  questiona se eu deveria realmente ter escrito sobre a origem dos mitos. Afinal, como é possível saber, não é? Mas eu quis colocar a origem na medida em que a gente consegue rastrear este personagem até onde ele apareceu primeiro. Só que obviamente este tipo de coisa é muito complicada.

Talvez por isso o folclore seja tão renegado pela academia. Já veio me procurar um rapaz que cursava História e queria fazer um trabalho de conclusão sobre folclore. Quando contou ao orientador, ele respondeu: “nossa, mas tem tanta coisa mais bacana para estudar e você quer fazer justo sobre folclore?”. Então é isso, porque fica difícil mapear…

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Anhangá, por Berje

Colecionador: E é um problema também quando você tenta historicizar demais o mito, pois você perde a sua dimensão simbólica e sensível.
Januária: É, sabemos que o Anhangá foi registrado no Brasil em uma das cartas do José de Anchieta, mas um bicho que solta fogo pelos olhos é uma criatura mitológica que se assemelha a várias outras criaturas do mundo todo. Então eu posso dizer que a origem é grega? Até poderia, só que no livro eu quis dar conta da origem dele aqui. Ainda assim, a gente sabe que todos estes personagens tem influência do inconsciente coletivo que misturou, amalgamou. Se o meu leitor conseguir ter a percepção de que tudo está neste grande mar de histórias, e que meu livro fala deste pedaço que é o do folclore brasileiro, então está OK. Porque a consciência dessa riqueza e de todas essas influências muita gente não tem.

Colecionador: Em que medida ter crescido no nordeste, em Pernambuco, influenciou esta sua relação com o folclore?
Januária: Influenciou tudo. Eu seria uma ignorante total se eu não tivesse crescido onde cresci. As pessoas falam muito de Halloween em São Paulo, mas vá falar disso em Pernambuco, é muito difícil. Eu nasci mesmo em São Paulo, mas cresci em Garanhuns, e fui criada neste caldo, onde a gente tem muito orgulho de nossas histórias. Vai ver o Carnaval, o Maracatu é dançado como era 300 anos atrás. Aliás me cobraram um monte lá que eu não coloquei no livro a Perna Cabeluda, o Biu do Olho Verde… E eu disse: “Gente, não ia caber! Só o imaginário do Recife já daria um livro a parte”.

Colecionador: Quem contava essas histórias para você?
Januária: Ah, meu pai, minha mãe, meus avós… A primeira lembrança que eu tenho era de estar deitada num carro de boi, olhando uma Primavera bem grande que tinha lá, e minha mãe apontava para os galhos da árvore e dizia: “Olha os olhinhos do saci ali!”. Era super comum pegar uma peneira, uma garrafa e ir caçar saci. Até que, quando eu tinha  nove anos, uma vizinha minha me deu um livro de Monteiro Lobato e selou de vez minha paixão pelo folclore. Eu comecei pelo O Saci. Para você ver, o Saci está na minha vida!

Quando a gente chega mais para os centros urbanos, isso vai se perdendo. O folclore é visto como coisa de gente iletrada, ignorante, um saber menor. E a gente perde essa identidade tão importante. O trabalho que eu quis fazer com o livro era fazer esse registro. Eu acho que a coisa desandou, e vai se perder se a gente não tomar uma providência. Eu queria que os leitores tivessem dimensão dessa riqueza, dessa grandeza, e de que isso é nosso, faz parte de quem a gente é. Quis também fazer um trabalho mesmo com os professores, porque nessa ponta tem muito o que se fazer. De desmistificar e convidá-los a pensar o folclore dentro deste imenso potencial.

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Zaoris e seus olhos de ver

Colecionador: Você falava de Lobato, e identifiquei no seu livro um trecho em que você claramente se inspirou no Sítio do Picapau Amarelo para dizer que o medo é o grande pai dos mitos. Mas é qualquer medo? Isto é, o medo factual que eu sinto de um assaltante na rua é o mesmo medo do sobrenatural?
Januária: Eu acho que o medo é a matriz da vida. Enquanto temos medo de morrer, nós nos cuidamos para nos manter vivos. E vivemos em um mundo que tenta se mostrar muito “limpo” de tudo o que assusta. Eu falava ainda hoje com outra autora sobre a censura aos livros infantis por falarem de abuso e violência. A gente tem que preparar essas crianças para estarem na vida. Muito do que vemos hoje são pais extremamente protetores, que não deixam as crianças se expressarem. Como vamos preparar crianças e jovens para viverem em mundos tão cheio de desafios, de  intolerância, se não dermos a elas instrumentos para tratarem o medo e a cautela? São coisas que pelos contos de fadas e mitos conseguimos fazer que as crianças reconheçam esse medo, internalizem e se utilizem dele para viver melhor.

Colecionador: Um dos grandes elogios ao Abecedário é a busca por ilustrar todos os mitos, incluindo os que nunca tiveram uma representação. No entanto, pensando nestes mitos que não fazem mais parte do cotidiano, faz sentido pensar neles como representantes do folclore? Não pertenceriam já a história do folclore, e não a essa cultura viva?
Januária: Eu discordo de você quando diz que existem mitos que não fazem mais parte da vida. Ele pode estar esquecido, mas o Gorjala, por exemplo, é um monstro. E os monstros fazem parte do nosso imaginário desde sempre. Ele está no livro por que daqui a pouco, se eu não registro, fim, acabou, ninguém mais falará neles. Mas eu acredito que eles ainda estão lá. Vou te contar um caso concreto: Eu estava em uma feira no Vale do Paraíba quando um psicólogo veio me conhecer. Ele disse que trabalhava há dois anos com os sonhos de crianças com doenças crônicas: câncer, aids, etc. E ele tinha a descrição de todos os monstros que elas sonhavam, mas não sabia o nome delas. E agora ele os tinha encontrado graças ao Abecedário. Veja lá! Crianças em 2017 sonhando com esses bichos!

Colecionador: Então o nome se esquece, mas o monstro ainda vive.
Januária: Eles existem. Se fazem parte desse inconsciente, eles não existem? Então existem e ponto. Sabe a história dos Zaoris, que tem os olhos de ver? Eu sempre digo: quem tiver olhos de ver, que veja.

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